A vida acima da mercadoria

Nas culturas indígenas a reciprocidade – obrigação de retribuir e de ser generoso – é o que regula as relações entre as pessoas, entre as famílias, entre as comunidades… O homem é visto como parte de uma grande cadeia, na qual ele dá e recebe, e da qual ele depende para sobreviver. E a vida humana só é assegurada quando se garante a vida de outros seres e quando se estabelece relações respeitosas com a terra, com a água, com o ar.

A economia, na maioria dos povos indígenas, funciona como um sistema de comunicação e de redistribuição dos bens, diferenciando-se do capitalismo porque não é competitiva, nem acumulativa e nem preventiva. Em outras palavras, as relações indígenas não se baseiam na competição para ocupar lugares privilegiados, nem no anseio de acumulação dos bens disponíveis, e nem num desejo de reter objetos e produtos para assegurar o bem estar futuro, pois este bem estar se alcança através de boas e fortes relações recíprocas. As características da sociedade capitalista geram uma exclusão cada vez mais violenta, pois funcionam para concentrar os recursos nas mãos de poucos.

Olhando para as formas de viver dos povos indígenas, compreendemos que as diferenças não são apenas aparentes e que suas culturas se organizam a partir de lógicas distintas da nossa. Apesar do intenso contato que estabelecem com nossa sociedade, a maioria destes povos mantém formas de se relacionar com a terra e com a natureza marcada por uma dimensão religiosa. Terra é espaço sagrado onde se estabelecem tanto as relações com o mundo espiritual como as relações familiares e comunitárias.

Um exemplo das relações cotidianas do “bem viver” pode ser encontrado nas práticas Guarani. Na terra, espaço sagrado e vital, eles cultivam variedades de plantas medicinais, frutíferas e para o alimento diário. Quando há terra demarcada e assegurada, suas aldeias são construídas em lugares cobertos de mata e com nascentes de água. Os Guarani denominam esses locais de tekoha, um lugar que congrega aspectos físicos – terra, mato, campo, água, animais, plantas, remédios etc. – com condições espirituais que proporcionam o bem viver. E nestes espaços é que se realiza o teko, o “modo de ser”, “o jeito de viver” do povo Guarani.

As formas como os Guarani se relacionam com suas terras se vincula a uma compreensão própria da vida, como um contínuo caminhar, que se desenvolve num extenso território ocupado ancestralmente. E talvez o aspecto mais importante do estilo de vida dos Guarani é o da valorização das pessoas, de suas experiências, de seus conhecimentos, de seus sonhos.”

O texto acima é parte do material Semana dos Povos Indígenas 2010, mais uma publicação lançada pelo Cimi para que os brancos possam compreender, respeitar e garantir o direito dos povos originários do Brasil de viverem conforme sua cultura. A partir dessa consciência, é possível entender também a luta desses povos em defesa do meio ambiente, contra projetos como as grandes hidrelétricas do rio Madeira, de Belo Monte no rio Xingu, e a transposição das águas do rio São Francisco.

Leia também a postagem Todo dia é dia de índio, sobre como o Legislativo gaúcho recebeu as demandas dos povos indígenas na segunda, 19 de abril.

Foto 01: Urueu-Wau-Wau/RO, por Maria Lúcia Cardoso / Arquivo Cimi
Foto 02: Maxakali, por Marcus Breuss / Arquivo Cimi

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