O super-herói triste contra o dono da calçada

O dia escuro tem uma cara triste, como a do garoto que arrasta os pés pela calçada. Choveu muito a noite passada, e hoje amanheceu invferno. Ele tem uma coberta aos pedaços sobre as costas, como se fosse a capa de um super-herói; bermuda acima dos joelhos e chinelo, como se fosse à praia ou como se uma parte do corpo não soubesse do frio, desse vento que rasga as plantas e grita nas placas da rua.

Esta rua tem dono? O segurança se aproxima, para em frente, gesticula, argumenta, aponta, impõe. Um minuto explicando que o local é proibido para gente mal vestida. O sem teto tem rumo, quer seguir. Responde com os olhos. Depois, ensaia passar correndo pelo trecho da calçada pública sob administração privada, mas perde as forças. Passo lento atrás de passo lento, atravessa os metros de chão que algum doutor mandou interromper para gente incômoda, como essas pessoas pobres que vagam por migalhas que as mantenham vivas, e vão aos trapos através do tempo.

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