Sobre Viúvas, performance da Tribo

Ontem, me conta Daniel – filho de Edgar e Sandra, dois atuadores do Ói Nóis Aqui Traveiz -, uma mulher chegou ao meio dia para garantir a entrada que é distribuída às sete da tarde. Reclamou que a fila parecia com a do SUS. Quando a performance sobre a ausência lhe deixou presente uma América Latina viúva de muitos homens assassinados por ditaduras, ela pediu desculpas, abraçou o rapaz. É sempre assim, ele diz: “no final da peça nos perdoam” (pelas longas horas na fila). Na estreia, mais de 200 pessoas quiseram conhecer as viúvas, mas menos de 50 podem por cada noite. Houve confusão, e uma funcionária da Usina do Gasômetro chamou a polícia.

Uma experiência em teatro de vivência. Em Viúvas – Performance sobre a Ausência, trabalho em andamento.

Onde está você, que não se pode esquecer?

Agora, são cinco sentados na grama, como se esperassem em música: a mente aberta, a espinha ereta e o coração tranqüilo. Mas já as rodas giram e o sol que bate no vidro gasto do ônibus da Monumental Turismo inquieta, joga seus pedaços de luz no rosto dos que espiam. Margeamos o Guaíba e a poesia nos mira com suas claridades e sombras.

Trapiche. Chegada.

No meio do rio, a proa aponta para duas enormes chaminés de uma indústria na outra margem. Dobramos à esquerda. Por trás das nuvens, o céu em lilás já está quase morto no horizonte, de onde a noite vem trazendo o passado. No convés, um passageiro do tempo se levanta, olha para suas lembranças na direção das águas. Quando volta o rosto, já é o personagem que todos escutam: “Foi quando eu estava exilado, foi então que me ocorreu. Eu não conseguia dormir à noite…”

“Será preciso nomear esta pátria?” (da angústia, da injustiça), ele põe a pergunta sobre nossas cabeças. Em silêncio, achamos que não. Qualquer carne, qualquer espírito em qualquer geografia latina pode alcançar esta dor. Esta dor que vem de novo, agora.

Com a mão em minha barriga o homem de terno preto e óculos escuro me para. Depois, ordena: “Atravesse a passarela e coloque-se em terra firme”. Na entrada da ilha, outros iguais a ele nos esperam com matracas atravessadas sobre o peito. Iguais, talvez, as que foram usadas para transformar pais, maridos e filhos em horror e cadáveres. Penso no poder do aço dos que governam atravessando a resistência dos que sonham a liberdade.

Na pedra iluminada, junto ao rio, uma mulher canta em uma língua estranha. Mas a melodia eu entendo, conversa comigo. Ela avisa: “Temos esperado, todas as mulheres. Há muito que estamos esperando.”

Um outro atuador passa em revista aos que desembarcaram, encara, bem de perto. Alguns minutos para sentir o lugar. Logo, o peso das botas em marcha sobre a laje assusta outras viúvas, desesperadamente coloridas, enlouquecidamente solitárias e tristes. Este novo e velho ditador tem palavras para ludibriar: “Na memória de alguns a guerra continua. Se formos capazes de esquecer o passado, as feridas vão cicatrizando. Democracia, uma nova terra para um povo novo…” Mas viemos aqui para não esquecer, todos. “Os desaparecidos políticos são fantasmas que voltam sempre. Querem lembrar que não podem ser esquecidos”, está escrito no material de divulgação da performance. A Tribo um canal para que eles nos encontrem, nos falem.


Então, aquela mulher de antes já carrega suas cadeiras vazias sobre as costas. No meio da escada, me olha nos olhos, nos seguramos os dois, um dentro dos olhos do outro. “Ali, onde o rio pensa numa direção e depois muda de opinião, foi ali que eles morreram.”

Estamos nas ruínas do que foi um presídio. Nas celas, os presos são as mulheres socando pilões. Ela sua, todo o rosto, toda a alma, e bate contra o milho que jorra. É Alexandra. Desta vez desviei o olhar, fui para as inscrições na parede: “Pirata 14.05.82”, esteve ali. “Eu chorava e minha mãe não escutava” – foi gravada quando, por quem? O presídio foi desativado apenas em 1983.


Vem de novo a mulher, a da pedra e da escada, a que conduz a dor, a revolta e o choro. Sophia. A que põe a mão em meu peito, enquanto conta. Que um pai vira fumaça preta, fumaça e cinzas.

Onde está teu marido, Alexandra? Onde está Emiliano? Onde está Miguel?

Onde estão todos?

Os nomes vão sendo chorados, gritados pra fora com saliva. Chove milho sobre a agonia da viúva. De joelhos, ela recolhe grãos sobre os pés dos que assistem mudos, mudados. Em pé, abraça a gente que veio lhe ver, neste funeral sem corpo.

Sarah, a fotógrafa que muitas vezes esqueceu a câmera pendurada no pescoço pra viver as emoções da peça, me diria depois que aquelas mulheres eram como os presos puídos, triturados ali como milho no pilão.

Enlouquecidamente solitárias e tristes. Menos na festa. A festa aconteceu anos antes e está sendo recordada agora. Nós entramos dentro das lembranças, e interagimos com elas. Outra época, outra atuadora, então uma jovem sorridente me leva pela mão até o baile. Bebo vinho, ao som da gaita e do cajón. Meus olhos dançam na roda, giram, bato palmas. Às vezes, o rio me acorda. Um mosquito zune em meu ouvido. Sob o céu, à noite, entre escombros, envolvido em águas. Na festa, converso com um camponês. Ele me diz que a produção no campo está aumentando porque muitos são os que abandonam os latifúndios e se juntam aos que tem os dedos de terra, os que trabalham em coletivo, sem patrões, os que constroem o destino, e que agora dançam em minha frente.


“Ao nosso redor existem aldeias, aldeias dos vivos, aldeias dos mortos”, a anciã ensina ao mais moço. É a nossa história. Para enxergá-la, vemos os corpos nus, descobertos, amontoados, imóveis. Dois personagens falam, mas não os ouço mais.

Quando voltam os ouvidos para o corpo, só escuto o motor do barco. Estamos outra vez no convés, e desta vez engolidos pelo escuro, quando os fogos são acessos na ilha. As mulheres vieram até a margem, cantam aquela melodia familiar, e mostram os seios livres, os seios que alimentam as filhas e os filhos da água e da terra, da presença e da ausência, da memória e do esquecimento.


Fotos de Sarah Brito, do Coletivo Catarse. Outras podem ser vistas aqui.

Para as peças que virão

Não como crítico, mas como espectador. Como quem se encanta com o espírito crítico, com a insurreição dos textos, das encenações. Como quem assiste à quarta peça seguida da Tribo e quer ver as que virão.

Queria ver também outros protagonistas. Tânia é sempre visceral, apaixonante. Paulo sempre se encaixa bem nos personagens. Sei que ambos têm história, tem talento, reconheço, admiro. Mas gostaria de ver Marta, Clélio, Renan e outros que também devem estar prontos assumindo alguma vez a narrativa. Parece que todas as peças acabam sendo escritas para os dois primeiros. Sempre a criação coletiva os escolhe para os papéis em destaque. Ela é maravilhosa, ele é bom, mas fico imaginando até onde outros atuadores também talentosos poderiam nos levar se seus limites se estendessem, ocupando o espaço de um personagem principal. É um desejo.

A opção pela alegoria que aproxima passado e presente é ótima escolha. Funcionou perfeitamente em Kassandra, A Missão, O Amargo Santo e Viúvas. Todas encenações que assisti e que me impactaram. Agradeço pela experiência e entendo o recurso de linguagem. Mas confesso outro desejo. Penso em temas como reforma agrária, opressão urbana e mídia corporativa não apenas sob a perspectiva da história do presente pelo passado, mas trabalhando com a memória do presente pelo presente. Não apenas os vivos falando dos vivos a partir dos mortos. Mas os vivos falando dos vivos a partir dos vivos.

Sinceramente e com um abraço,
Jefferson

Vestido de pássaro

(Para Liege. Fragmento excluído do texto sobre a performance Viúvas.)

Trapiche. Chegada.

No tecido azul, centenas de pássaros batem as asas. São garças no seu vestido?, queria perguntar à garota, que recolhia os tickets amarelos. Esses pássaros voando sobre a sua pele são como os maçanicos que vi a pouco, em rasantes sobre a água? Um mergulha, o outro se banha, outro quer o peixe, a presa em escama na boca em asa. Ouço as águas roçando contra a pele do barco.

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