Ciclo de Debates Sobre Conflitos Agrários – Nas Terras do Bem-Virá


Entrada Franca

Sinopse do filme: Um dos documentários mais completos para se entender a questão dos conflitos agrários no Brasil. Trabalhadores sem opção de sobrevivência em seus estados partem para a Amazônia, no Pará, para trabalhar nas fazendas iludidos pelo sonho de se poder conseguir o sustento de suas famílias. Mas a realidade é outra, grande parte não volta mais, torna-se um contingente de trabalhadores escravos, inseridos em um ciclo vicioso de trabalho e dívida com seu patrão. Após serem explorados durante décadas, muitos tornam-se indigentes. Muitos dos que tentam escapar desse sistema, são assassinados. O chamado “Agronegócio” do latifúndio está quase sempre associado a diversas práticas nocivas a sociedade e ao planeta: quase todas as fazendas da região são produtos da grilagem, ou seja, são terras da União que de alguma forma foram fraudadas em nome de alguém; os pistoleiros, quando não a polícia do Estado, promovem a “limpeza” humana das áreas, ameaçando, assassinando os colonos que lá antes habitavam. Esse modelo está ligado a derrubada de florestas, extinção de espécies, queimadas, contaminação dos recursos hídricos, a concentração de terras e de renda. Para fazer frente a isso, surgem os grupos sociais, como o Movimento dos Sem Terra, a Pastoral da Terra e personalidades internacionais, como Dorothy Stang, que enfrentam o poder dos fazendeiros, políticos corruptos, assassinos e a mídia tradicional (Fonte: http://docverdade.blogspot.com/2010/01/nas-terras-do-bem-vira-2007.html – Trailler: http://www.youtube.com/watch?v=dhSFmz5-yn4&feature=related

Contexto e Justificativa: Embora os processos e formas de expropriação a que estão submetidos grupos subalternos que vivem nas áreas rurais do país possam variar e se transformar ao longo do tempo, historicamente, a realidade brasileira tem sido marcada por inúmeros conflitos agrários, concentração da terra e violências de toda ordem cometidas contra trabalhadores rurais, agricultores pobres, posseiros e populações tradicionais. Por trás destes fenômenos encontra-se o avanço das chamadas “frentes de expansão”, cujo agente pioneiro na fronteira agrícola costuma ser, desde a Lei de Terras de 1850, a grilagem de terras. Tais frentes, ao integrarem regiões aos circuitos capitalistas de produção sem que haja a inserção efetiva do Estado presente enquanto agente garantidor de direitos, além de desestruturarem modos de vida tradicionais e regras costumeiras, por vezes, seculares, trazem consigo uma série de efeitos sociais e econômicos perversos para as populações locais, bem como a destruição de ecossistemas e parte dos biomas aos quais se acham associados.

Especificamente no caso das situações de violência no campo, segundo dados da Comissão Pastoral da Terra (CANUTO et al., 2009), só no ano de 2009 ocorreram 25 assassinatos envolvendo algum tipo de conflito agrário no país (no Rio Grande do Sul, o agricultor sem-terra Elton Brum faz parte desta estatística, morto pela Brigada Militar durante manifestação do Movimento Sem-Terra numa fazenda em São Gabriel). A mesma CPT aponta que, neste mesmo ano, foram registradas 9.031 famílias ameaçadas pela ação de pistoleiros, sendo que a isto se somam inúmeros casos de fazendas onde são cotidianamente encontradas pessoas vivendo em regime de trabalho escravo. Submetidas a condições desumanas de trabalho e a alguma forma de exploração por dívida (sendo a mais conhecida delas o “sistema de barracão”), dados do Ministério do Trabalho (http://www.mte.gov.br/fisca_trab/quadro_resumo_1995_2010.pdf) revelam que, entre 1995 e 2010, cerca de 39.200 trabalhadores foram resgatados pelo “Grupo Móvel de Fiscalização Móvel”.

Paralelamente a isto, assiste-se atualmente a um revigoramento do modelo desenvolvimentista inaugurado nos anos 1970 com os governos militares, o qual investe no financiamento de grandes projetos agropecuários e de infra-estrutura (mineração, barragens, estradas, ferrovias etc.). A despeito de supostos benefícios que possam trazer ao país, fato é que tais empreendimentos têm desencadeado sérios conflitos envolvendo a expulsão de agricultores de suas terras, confrontos (por vezes, genocídios) entre empresas públicas ou privadas e várias etnias indígenas, além de migrações em massa (em Rondônia, por exemplo, o consórcio encarregado de construir a hidrelétrica de Jirau, que recentemente esteve na mídia por conta de manifestações envolvendo seus empregados, mantém em seu canteiro de obras cerca de 22 mil trabalhadores, a maioria deles trazidos da região Nordeste).

Por sua vez, este incremento no número de conflitos, espoliação, desmatamento e violência se insere num contexto nacional de invisibilidade dos movimentos sociais e de suas demandas, cujas organizações, associações e sindicatos tem sido alvo de uma preocupante a crescente criminalização tanto parte da dita grande mídia como por setores dos Poderes Legislativo e Judiciário.

É dentro deste contexto que se insere o documentário Nas Terras do Bem-Virá, o qual traz à tona tais questões. Deste modo, considerando a premência se discutir temas como os acima citados (entre eles: conflitos agrários, violência no campo, concentração fundiária, expansão da fronteira agrícola, trabalho escravo e destruição de recursos naturais) e da urgência de torná-los visíveis enquanto problemas socialmente relevantes, a apresentação e o debate qualificado deste filme e dos processos que ele aborda seria uma oportunidade essencial para que não só a comunidade universitária, mas a sociedade de Porto Alegre como um todo, possa ter acesso e participar ativamente de tais discussões.

Ficha técnica:
Diretor: Alexandre Rampazzo
Brasil: 2007, 111min.
Produtora: Tatiana Polastri
Empresa produtora: Varal Filmes
Roteiro: Alexandre Rampazzo e Tatiana Polastri
Diretores de fotografia: Fernando Dourado e Alexandre Rampazzo
Montagem: Fernando Dourado
Música: Nanah Correia, Julian Tirado e João Ba

Prêmios:
– It’s All True – Festival Internacional de Documentários – Brasil – Menção honrosa
– Festival dos Três Continentes – Venezuela – Prêmio de melhor filme
– Mostra Etnográfica da Amazônia – Brasil – Prêmio de melhor filme
– Mostra Contra o Silê ncio de Todas as Vozes – México – Menção Honrosa
– Prêmio “Luta Pela Terra” – janeiro de 2009 – concedido nos 25 anos do MST – Sarandi-RS
– Mostra FICA – Brasil
– XXIII Festival de Inverno da Chapada dos Guimarães – Brasil
– Mostra do Audiovisual Paulista – Brasil

Divulgação: Cleyton Gerhardt (Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural – PGDR -, Universidade Federal do Rio Grande do Sul)

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