Alabê Ôni à vontade na chuva

Por Eliana Mara Chiossi.

Hoje é quinta-feira, e, desde terça-feira, o sol brilha ostensivamente. Voltamos de algum lugar de Triunfo na terça, no final da manhã, justamente porque a chuva apareceu na noite anterior, fora do previsto. Fora do que nós havíamos planejado. E isso nos obrigou a interromper os trabalhos. Voltamos antes da hora. Dentro do carro, nos primeiros instantes, estávamos em silêncio. Ou resmungando, ainda frustrados. Mas logo nossa conversa, revendo os fatos passados, foram trazendo uma compreensão positiva do que acontecera. Retraçamos algumas metas, refizemos cálculos e, afinal, o ânimo voltou. A vontade da chuva fez sentido. A força da chuva foi respeitada.

Prólogo (segunda-feira)

Primeiro dia. No intervalo, depois do café da manhã, tudo funciona: almoço com Marcelo, fotografia pinhole com Leandro, coleta de imagens com Têmis, registro e textos comigo, e os músicos em roda, bebendo e beliscando uns amendoins torrados: Richard Serraria, Pingo Borel, Kako Xavier e Mimmo Ferreira. Traduzindo: um encontro entre amigos. Traduzindo melhor: produção do DVD para o Projeto Alabê Ôni.

Estamos no sítio de amigos. Que abriram as portas para as filmagens. As filmagens abriram as portas para o trabalho em equipe. Na parte de trás da camiseta de Leandro está escrito: “Redes solidárias que acolhem sonhos”. Os músicos chegaram hoje. Não sei se foram eles ou meu gesto de bruxa, ao jogar sal grosso na frente da casa e pedir para a chuva ir embora, mas temos sol. Precisamos de sol e noites sem chuva, para executar bem as cenas e marcações planejadas.

Ontem, testamos as luzes, verificamos equipamentos, agendamos todas as refeições do dia de hoje. Pedimos, sinceramente, para o tempo melhorar. Uma bebida doce e alcoólica, o Grapamel, típica do Uruguay, passou de mão em mão, como passou de mão em mão, antes, o mate quentinho.

Os três cachorros da casa acompanham tudo e tentam se intrometer em algumas situações: Sol, Preta e Beagle fazem a festa, pedem carinho e, se nos descuidamos, mastigam as poltronas, as cadeiras, os colchões e outras coisas que possam ser mordidas.

O grupo Alabê Ôni – Tambores do Sul irá circular pelos 24 estados do Brasil, levando o Tambor de Sopapo para o conhecimento de todo o país. Junto, segue a história da tradição percussiva do Cone Sul, que inclui o Candombe Afrouruguaio, Batuque de Nação Oyó, Ijexá, Quicumbi e Maçambique.

Na contramão da capital, abrimos a segunda-feira numa residência artística de quatro dias. A residência já é artística pela beleza do sítio, bem cuidado e cercado de pequenas maravilhas. Ao lado, no sítio vizinho, há 60 galinhas. Coisas de um homem simpático e singular, que gosta de entregar ovos de qualidade para família e amigos. E, neste sítio vizinho, tem cachorros incríveis também.

Houve a chuva e a péssima previsão do tempo. Mas o sol chegou e, após o almoço coletivo, Led Zepellin na caixa acústica. Com as guitarras ampliadas desenhando um mundo abstrato, alguns caem na piscina. Piscina quase verde, limo nos pés. Mas quem se importa? Piscina vira rio na visão de pessoas que querem se divertir enquanto a tarde chega, sabendo que vamos entrar madrugada a dentro nas filmagens.

Começa a noite. Por-do-sol filmado com câmera fixa. O set vai sendo montado, e, de repente, temos um set bem servido, com tudo disponível e disposto em ordem correta, funcional. Bonito de ver. Os músicos tocam lá adiante. Correria para ligar aparelhagens, trazer tripés, colocar as gelatinas, afinar as luzes. Pano para projeção, busca de imagens para as projeções. O set iluminado por um azul que a gelatina quase torna verde, em contato com o mato. Um animal estranho faz um barulho desconhecido. O café está quente. Tudo pronto para chamar os músicos e começar a gravar. Mas, antes de dizer a palavra mágica “Ação”, gotas de chuva dão o alarma geral, e começamos a desmontar o set. A chuva dá um intervalo, e nos iludimos. Quase montamos tudo de novo. Mas ela insistiu. Pingo faz contatos com os seres elementais. Cada um de nós pede que a chuva seja compreensiva. Mas não tem jeito. Desmontamos tudo. Vamos para a casa maior, onde um grupo de homens para diante da televisão e assiste a um jogo cujos nomes dos times são ignorados. Ninguém presta atenção no jogo. É só uma fuga. Pensam em jogar WAR – rapidamente é preciso cerveja. Uns saem para buscar no posto mais próximo. A decepção se alterna com brincadeiras. No fundo, há uma esperança de que a madrugada traga bom tempo e céu estrelado.

Epílogo (terça-feira)

Mas, afinal, a madrugada confirma a chuva, mais forte. Dormem todos. Cada um descansa como pode, cada um produz um sonho diferente, e alguns perdem o sono e ouvem as vozes dos bois sendo mortos no matadouro próximo. A manhã chega, sorrateira e ainda úmida. Cada um que sai da casa e segue para o lugar onde são feitas as refeições é recebido pelos três cachorros que pulam e fazem festa, alheios aos pensamentos de todos nós. Alheios às expectativas humanas.

Depois do café na mesa grande, reunião. Decidimos que é preciso remarcar as gravações. Todos revisam suas agendas, e uma nova data é marcada. A manhã vai sendo preenchida de música, porque o Alabê Ôni está ali, e várias músicas são tocadas. Os tambores falam, os tambores emocionam. Eu e Têmis dançamos com nossas saias rodadas. Leandro fotografa. Marcelo se dedica a alimentar todo mundo com amor e boa comida. Últimos momentos antes de voltarmos para a cidade. A energia dos tambores e dos cânticos vai apaziguando os sentimentos. Almoço coletivo, com risos e fé. Os músicos vão embora, primeiro. Na despedida, a certeza da volta e a fé no sol e na chuva. Ficamos para arrumar, colocar tudo no carro e seguir viagem de volta. Não chove mais. Poderíamos dizer: que ironia! Que sacanagem do tempo! Mas, respeitosos, seguimos confiantes de que, na data prevista, o Alabê Ôni volta, junto conosco, para honra das palavras sagradas dos tambores e da história que precisa ser contada.

Axé para os próximos passos desta equipe que entende o discurso forte e sábio da natureza.

3 comentários em “Alabê Ôni à vontade na chuva”

  1. Maravilha de texto Eliana … minha mãe sempre me disse: “tudo tem um lado bom” .
    Foram momentos ótimos que passamos e também uma preparação para o que vai acontecer. Talvez estivéssemos precisando de um pouco mais de tempo para estarmos todos juntos, sem as interferências externas desta vida louca.
    Semana que vem vamos de novo, fazer um ótimo trabalho para a eternidade.
    Axé para todos!!
    Salve Catarse, salve Alabê.

  2. A prosa que brota da convivência mostra que a força da arte reside na partilha. Assim, acredito que precisávamos disso: tempo juntos. Depois daquela manhã última em que ficamos 3 horas tocando tambores e conversando tive a certeza na volta conversando com os alabês que comigo dividiam o carro rumo a Porto Alegre que tinha que ser assim: mais tempo juntos, mais convivência, mais partilha. Tudo que vier depois disso vai vir com a força do convívio. Quinta que vem tem de novo. Tenho saudades já disso tudo. Foi bom, vai ser melhor! Não tenho dúvidas! Abraço a todos e até breve!

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