Uma releitura dos eventos de Junho e de Julho

*Por Tania Jamardo Faillace.

Em que circunstâncias, as pessoas saem espontaneamente às ruas para protestar ou desafiar autoridades?

1. Quando as condições concretas de sua existência estão insuportáveis: fome, desabrigo absoluto, violência institucional generalizada, catástrofes sem socorro. Essa saída à rua equivale a uma “fuga para a frente”, de quem não tem mais o que perder. Uma espécie de “estouro da boiada”.

2. Quaisquer outras circunstâncias implicam em organização e pensamento convergente através de associações ideológicas ou classistas, confissões religiosas, provocação política, luta revolucionária.

As manifestações de junho/julho no Brasil, consideradas de modo geral, não se encaixam nas condições do item 1. Não se tratava de cidadãos desesperados, mas de jovens bem alimentados e com boa saúde, que desfrutaram do movimento até de uma forma bem humorada e lúdica.

Em relação ao item dois, podemos descartar o associativismo classista, o embate religioso, e a luta revolucionária, uma vez que não estamos dentro desse processo. Ficamos de momento com a hipótese da provocação política.

Agora… Considerando que a provocação política tem sempre um objetivo e autoria mobilizadora e organizativa, quem foi seu autor?

Ainda que, no desenrolar dos acontecimentos, outros elementos se agregaram ¬– como o protesto pessoal contra Sérgio Cabral no Rio por razões muito definidas e localizadas – o anonimato e a indefinição foram sua marca registrada.

Outros elementos chamam a atenção: por que só jovens? Por que só jovens de classe média? Por que a insistência num mote que não faz parte da pauta de reivindicações populares no Brasil: o passe-livre?

Informa-se que o veículo mobilizador foi o Facebook. O que oferece elementos para indagações e suposições, mas não é conclusivo, já que o meio, em si, é dispersivo, versátil e volátil: serve para qualquer coisa, mas não por muito tempo. Já a máscara usada por muitos indicam a inspiração de origem norte-americana, pois os Anonymous foram usados por lá em primeira mão, através de uma revista de quadrinhos sobre contestação social futurológica.

Mesmo lá, porém, não se trata de uma ficção natural e espontânea, porque essa máscara do suposto contestador é um protótipo da máscara de Mefistófeles, o diabo elegante da tragédia Fausto, de Goethe, que prometia riquezas e sucessos amorosos em troca da alma do tentado.

Uma mente publicitária. Sim, a criação publicitária  profissional está assinalada na escolha dessa logomarca. E também um certo sentido de humor, já que a duplicidade e a hipocrisia são as características do personagem clássico, que propõe prazer, sucesso e poder sem limites – mas conduz à perdição eterna; enquanto o personagem moderno, contestador e sofrido, teria o sinal contrário, reforçando-se a duplicidade do ícone.

Em 2010, no IV Foro das Américas, em Assunção, tive a oportunidade  de ouvir uma explanação, justamente de um publicitário profissional, da vizinha Colômbia (o mesmo país que dispõe de uma filial da Escola das Américas)[1], sobre como provocar uma grande manifestação de rua, composta por jovens completamente alienados e desinformados, desde que bem trabalhados em termos de seus próprios ìcones e “cultura jovem”. Em suma, elevando-se a altos níveis o uso da “psicologia de massas” – base fundamental do trabalho publicitário eficiente: levar as pessoas a consumir produtos e idéias de que, em verdade, não sentem a menor necessidade.

Nossos vizinhos do Norte são peritos no assunto – ou ninguém jamais teria começado a ingerir a rebarbativa Coca-Cola, e usar as roupas adultas infantilizadas, os carros de passeio que desmontam a qualquer batida, os espigões envidraçados que é preciso climatizar o ano inteiro, etc..

Desde o primeiro think tank conhecido internacionalmente, o Instituto Hudson, o tal que queria afogar toda a Amazônia com uma represa energética – entidades de pesquisas, de cunho científico e sociológico, se multiplicaram naquele país, e se incorporaram a suas práticas políticas, internas e de geopolítica. Haja visto os desdobramentos políticos da implosão das Torres Gêmeas, e a ditadura “de fato” que se instalou lá. Tais think tanks abarcam praticamente tudo: da Geociências à Pedagogia.

Admite-se  que possa existir no momento, um movimento binacional brasileiro-norte-americano contra a sociedade tal como ela é hoje, com poderes institucionais definidos, os quais, em sua interpretação, serviriam para manter o status quo da ditadura capitalista. Esse movimento seria natural e espontâneo, nascido da convergência e identidade dos ideais professados, dentro do raciocínio de que, combatendo as instituições legais, sua base material – o sistema capitalista – viria abaixo como consequência.

Uma simplificação extrema da realidade, e pior, encarada de cabeça para baixo. Não são as instituições e normas legais que sustentam o capitalismo – mas o capitalismo que impõe as normas e instituições que o interessam… até certo ponto. Quando essas normas são consideradas restritivas para o livre arbítrio da classe capitalista, elas são revertidas através de violências e/ou cooptação de grupos sociais.

A interpretação de que tal movimento de convergência entre norteamericanos e brasileiros seria espontâneo, não se sustenta.

Um, tem havido outros movimentos de massa, inclusive no Oriente Médio, que não levaram efetivamente a uma ruptura com o poder das Sete Irmãs[2] – por exemplo – mas serviram à manipulação das políticas internas e eliminação de velhos inimigos de carteirinha dos gringos e das transnacionais do petróleo, como bem exemplificou o brutal assassinato de Kadhafi, que teve como consequência a desorganização de sua federação de tribos – já que o mundo ocidental é profundamente avesso a culturas tradicionais, étnicas ou religiosas. O que se compreende porque é muito mais fácil manipular um meio homogêneo que se conhece que um heterogêneo e estranho.

No Egito, a contradição chegou ao ponto de, uma vez obtida a imposição de uma democracia “à ocidental”, com eleições livres e poderes diferenciados, os derrotados não aceitassem mais as regras do jogo, e partissem para uma nova ruptura, mais do agrado das forças ocidentais.

Mas, mesmo que considerássemos mera coincidência tantos movimentos populares simultâneos, cuja utilidade tem sido a de ajustar alguns países e continentes aos interesses de países mais importantes – não podemos, no caso brasileiro,  ignorar a coincidência da máscara de Mefistófeles/Anonymous com o movimento do Facebook., isto é, a premeditação profissional subjacente. Evoquemos um primeiro ensaio feito há poucos anos com a ascenção internética meteórica de uma tal de Yoani Sanchez, da oposição cubana. E, paralelamente, a extraordinária resistência dos profissionais médicos que não querem aceitar nem a concorrência cubana, nem a sujeitar-se a se internar no interior brasileiro[3].

Na atualidade, quais as metas dessa junção de Mefistófeles/Anonymous com uma juventude classe média? Segundo foi reiterado diversas vezes: a deslegitimação do governo, como estrutura política de poder, exatamente o que pretende o neoliberalismo anarquista de caráter ideológico, com a proposta do desmonte das normas e instituições nessa sua versão pós-moderna, cuja musa é Ayn Rand, e que foi antecipado num filme antológico de Sidney Lumet, Network.

Contraditoriamente, o movimento não fez  uma única alusão ao poder das transnacionais e do sistema bancário/financeiro internacional.

Quer dizer, age-se como se o governo em si, fosse uma entidade autosuficiente e onipotente, que determinasse inclusive a formatagem das estruturas econômicas vigentes, as quais dependeriam de sua autorização para existir.

Essa idéia é tão infantil, tão reino dos contos de fadas (o rei todo poderoso e bondoso, o rei todo poderoso e malvado), que dificilmente podemos aceitar que alguém realmente creia nisso.

A destruição ou desmoralização de uma estrutura do governo, porém,  pode causar uma crise política funcional, de gravidade variável, autorizando um golpe político-institucional com ruptura, e a substituição das lideranças políticas e a dança das cadeiras para grupos políticos, mas, certamente, não alterará uma vírgula das estruturas econômicas, num país regido pelo sistema capitalista privado. O mais provável, aliás, é que qualquer ruptura, a estas alturas dos acontecimentos, desemboque num sistema de repressão política extremada, como já vivemos outras vezes.

Torna-se então quase inevitável, perguntar: a quem aproveita?

Sem propostas político-institucionais ou econômico-estruturais objetivas, as manifestações – que começaram dentro do espectro já conhecido de reivindicação econômica pontual (o preço das passagens) – passaram a um terreno pantanoso e indefinido, que faz lembrar o saudoso Chacrinha: “eu não vim para explicar, eu vim para confundir”.

Enfim, confirmando-se o caráter espetaculoso, não funcional e midiático das manifestações, e seu nenhum interesse em lutar realmente por alterações político-institucionais consistentes, insistimos, a quem aproveita? Quem se daria a tanto trabalho, com tão poucas perspectivas?

A nível do território brasileiro, temos os grupos usuais, que aspiram a um poder ainda maior sobre o estado brasileiro para atender sua pauta de reivindicações, entre as quais: a derrubada dos 3 mil vetos presidenciais.

Não esqueçamos que, dentro de uma porção de ninharias localistas, como a licença de táxi herdada e outras, temos a REVISÃO DO CÓDIGO FLORESTAL, estratégica para o setor ruralista e a indústria da construção de mega-empreendimentos, e a exploração mineral, hoje predominantemente estrangeira.

Além da riqueza anunciada do pré-sal, a ser irracionalmente vendida a preço de banana, não há que esquecer a formação geológica da própria bacia amazônica, que já foi um mar tropical, e portanto, favorável à formação de jazimentos do insumo universal de hoje – o petróleo. Não esqueçamos que o Landsat, no tempo em que esteve em atividades, mapeou o subsolo de toda a América Latina, e mais especialmente, o do Brasil. Então a derrubada daquele veto específico é de uma importância estratégica para gregos e troianos.

A menos que se opte por uma ruptura institucional de fato, com apoio de fora – como também já nos aconteceu.

Voltando às manifestações, a que ponto os participantes teriam consciência de todas essas implicações?

Nossa interpretação é que muito poucos estariam sabendo delas, a maioria acreditando piamente em seu papel de vanguarda de uma reviravolta na história humana moderna.

Mas por que não foram encontradas bandeiras mais convincentes? Provavelmente porque o conhecimento político da maioria dos participantes era muito rudimentar, e não foi considerado interessante aprofundá-lo pelo risco de haver contestação aos encaminhamentos.

É muito provável, porém, que, na esteira de um movimento o qual, afinal de contas, não causou maiores impactos além dos psicológicos, surjam outros menos inocentes, aproveitando-se dessa cobertura, e de contatos feitos levianamente, inclusive com as máfias organizadas que sabemos.

A morte de Chávez abriu renovadas esperanças à Nova Ordem Mundial com relação à América Latina[4].

*Escritora e jornalista brasileira.
________________________________________
[1] Escola das Américas – instituição norte-americana para treinamento de suas forças de segurança, policiais e militares, que foi alvo de muitas manifestações por parte de militantes sociais, exigindo seu fechamento.
[2] Sete Irmãs – apelativo comum usado em relação às grandes transnacionais de petróleo.
[3] Não se obteve tal unanimidade quando a luta era o combate ao abandono dos doentes mentais a sua sorte, por volta de 2005, quando se plasmou a monstruosidade chamada de reforma psiquiátrica, que negou o status de doente aos portadores de enfermidades mentais congênita ou adquiridas.
[4] Como curiosidade marginal, defendendo o movimento contra a incompreensão dos circundantes numa reunião de representantes comunitários e outros, um cidadão evocou a célebre frase de James Monroe como justificativa: “A América para os americanos” – deixando de lado o contexto neocolonizador em que foi cunhada, e a própria história das racistas 13 Colônias.

2 comentários em “Uma releitura dos eventos de Junho e de Julho”

  1. Tania, muito longe de tacanho, sensacional!

    Enfim alguem de destaque com neuronios nao cooptados.

    Agora entendo a vizinhanca com Adriano Benayon.

    Quando vi o depoimento de Tania Faillace em:

    http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/occupy-o-espirito-da-epoca/

    Pensei de imediato:

    (um palavrao interjeitivo)!

    Como vejo alguem falar de:

    – Clube Bilderberg,
    – Bretton Wood e
    – obsolescencia planejada

    num mesmo paragrafo ?

    Depois em outro texto vejo falando em “Demolicao das
    torres gemeas” o tal 911 (e as 40 evidencias da
    demolicao com o professor Steven Jones).

    Tania é um elo perdido, elemento raro numa mutacao
    genetica.

    Nem no “Brasil Nacao” do Beto Almedia & Cia na TV Paraná educativa dos tempos Requiao vi algo tao
    transparente na lingua patria. E eles tiveram a
    coragem de divulgar o livro que toca na ferida do
    assassinato do JK: Serafim Jardim “JK onde esta
    a verdade”.

    Conheco pouca gente que entendeu 911, fiquei triste
    ao ler Emir Sader em cartamaior.com.br falar em
    “ataques terroristas de 11 de setembro”.

    Nao posso aceitar que alguem com tamanho ciclo de
    influencia ainda acredite no discurso da Rede Globo.

    Infelizmente meu julgamento é de conivencia, fulcrando
    sentido no que David Icke disse:
    “os opostos sao iguais”.

    Sobre as passeatas midiaticas ?

    Nem dei a minima!

    As tais passeatas, atrapalharam a vida conturbada
    do transito das cidades, uma tremenda falta de bom
    senso.

    Tenho absoluta conviccao que se haviam estudantes,
    eram todos estudantes gazeteiros, aqueles que vivem
    incomodando o trabalho dos bedeis.

    Foram as passeatas dos midias, da “democracia” da urna
    eletronica, dos manipuladores das mentes vazias e
    outros entes sociais de expressao mediocre.

    Vivemos numa sociedade do consentimento.

    Tudo aqui e’ consentido, inclusive a democracia:

    – com voto secreto;

    – urna eletronica, que nao imprime os resultados
    parciais a cada voto, portanto nao tem como recontar
    votos,

    – apuracao eletronica.

    Esta’ na cara que e’ eleito aquele que a aristocracia
    consentir.

    Mas o consentimento que mais deu na cara, como 911 foi
    o crime no RJ.

    A classe media pena com tiro de fuzil na janela dos
    apartamentos por 30 anos e a Marinha resolve a peleja
    em uma semana ? Com pano de fundo 2014 e a copa…

    A real e’ que nessa sociedade consentida, o crime e’ um
    ente importante que mantem a classe media com medo o
    tal “power or nightmares”.

    Sem o crime nao haveria o produto bancario: seguro de
    automoveis por furto ou roubo.

    Sem o crime os cartoes de debito nao fariam tanto
    sucesso.

    Parabens Tania, enfim alguem pra ler os textos na web.

    []s

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