Na cidade, o gado que o patrão abate

7h45min da manhã. Os ônibus entupidos de carne humana correm desesperados pelas ruas. É preciso entregar a tempo a encomenda dos patrões.

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Gente é servida no café da fábrica. Gente que sangra presa às cadeiras do escritório. Nas salas sem sol, embaixo das lâmpadas fluorescentes, o cheiro triste das almas submetidas, que trocam luz por salário, tempo por produção.

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Pedaços de sonhos apodrecem a cada hora, nas ligações de negócios que desprezam a vida lá fora. Vão se apagando, carcomidos pelos vermes dos anos vendidos aos interesses do comércio e da indústria.

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Melhor aceitar a hipnose, garantir o emprego, fazer a prestação. A publicidade já descobriu em que coisas a felicidade se esconde. Agora só falta comprar o carro, o apartamento, a viagem. Ou trocar o tênis, a TV, o telefone. Cada um cabe dentro de seu próprio bolso.

Pior acordar, pensar, sofrer, sentir a dor de ser o lucro de alguém. Não há quem não jogue um minuto desse jogo, não sirva ao sistema. Na teia da cidade, o veneno percorre tudo: cada pano sobre o corpo; cada gole tomado na bica; cada pedra que veio pra calçada tem um tamanho, uma marca, um número na contabilidade capitalista.

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E pra cada cabeça há um tipo de morte, num tempo e lugar que seja.

*texto de Jefferson Pinheiro, originalmente publicado em 2010 (http://coletivocatarse.blogspot.com.br/2010/08/o-gado-que-o-patrao-abate.html)
**as fotos foram cedidas pela internet, e livremente adaptadas ao aniquilamento do espírito humano

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