Passeio aéreo com lupa

Por Eliana Mara Chiossi.

Hoje é terça-feira. E a crônica semanal tem de estar publicada. E até agora não estou certa de qual tema trabalhar. Talvez possa dizer que não haja tema. Penso em sair de casa para tentar encontrar alguma inspiração. Talvez ir até o aeroporto. Talvez até a rodoviária. Ou ao Mercado Municipal. Fazer umas fotos e escrever sobre as fotos. Escolher fotos que fiz e falar sobre elas. Se eu pudesse, gostaria de conversar com pacientes terminais, com presidiários. Também sei que encontraria material com velhinhas felizes num asilo bonito, crianças de alguma escola legal, desenhando e fazendo pinturas.

Hoje é terça feira. E a crônica semanal tem de estar publicada logo. E não sei sobre o quê escrever.

Andar pelas ruas, com olhar atento, com escuta aguçada, com uma boa dose de observação e espírito compassivo permite que sempre possamos encontrar motivos para escrever. Gestos, pedaços de conversas, alguma discussão, moradores de rua dormindo em pleno sol de meio dia, comerciantes vendendo coisas variadas nas calçadas, o sino das igrejas tocando, pessoas esperando nos pontos de ônibus. É um mapa vivo, infinitamente se repetindo, infinitamente se alterando.

Começo a seguir uma pessoa fazendo compras até que ela chegue ao caixa. Imagino a rota que ela fará até chegar em casa.

A jovem, usando roupas confortáveis, sugere que chegou do trabalho ou da escola (pela idade e postura é universitária). Vai para o freezer de comidas congeladas e pega duas pizzas de sabores diferentes. Não mora sozinha. Depois coloca na cesta: dois refrigerantes, uma caixa grande de sorvete sabor napolitano, um pacote de esponja para lavar louças, um desodorante feminino. Quando está indo para o caixa, faz um gesto de quem se lembrou de algo e volta. Compara preços e acaba levando o papel higiênico de sempre.

interna-eliana-passeioNa fila do caixa que, a essa hora (18h30 aproximadamente), está cheia, para, com olhar distraído e semblante feliz. Levanta os ombros e suspira. Dá a impressão de que está em outro lugar. Até que o celular toca. Fica agitada. Pega o celular na bolsa e atende. O ar de apaixonada está muito perceptível. Diz o sabor das pizzas e do sorvete. Olha o relógio. Parece que confirma algo muito íntimo e carinhoso que ouviu: “Eu também”, frase que diz com mais recato, querendo esconder-se das pessoas. Chega no seu apartamento. Vai ficar sozinha por um tempo. Gosta desse tempo que vai ter para se arrumar. Entra no seu quarto e separa a roupa que vai usar. Dá atenção especial à lingerie e escolhe a melhor que possui. Coloca o que é preciso na geladeira, guarda as outras compras. Entra no banheiro, põe seu pendrive no rádio. Fecha a porta. A festa, para ela, já começou.

Entra no supermercado e todos olham, mesmo sem querer. É muito alto, um pouco acima do normal. Está usando a camiseta do seu time, que vai jogar à tarde. Antes de começar as compras, olha o celular. Aparenta frustração por uma ligação que não veio. Decide ligar para o  amigo e faz perguntas para saber o que comprar exatamente. Tem uma voz potente. É mais fácil observá-lo. Ele decide anotar. Ouço: cervejas, sal grosso e frango. Estão dividindo, pelo jeito. Ele pergunta pela carne, e outros vão levar. Apesar de ser muito alto, tem um andar elegante, e presumo que seja atleta, pela postura. Fico impressionada com o tamanho dos pés. Na hora de comprar parece um pouco impaciente. Ou distraído. Demora mais do que deveria, com a quantidade do que precisa. Leva apenas o estritamente necessário. Vai para o caixa. Enquanto espera, olha o celular mais uma vez. Parece ansioso com esta ligação que não chegou. Fico em dúvida. Namorada? Esposa? Namorado? Algum contrato? Seria difícil uma ligação comercial no final de semana. Decido ficar atrás dele, coloco poucas coisas na cesta e me posiciono bem próxima.

Quando ele abre a carteira, posso ver duas fotos que mostram dois meninos da mesma idade, muito parecidos com ele. Parece que têm em torno de 12-13 anos. Só aí compreendo. É domingo, dia do jogo do seu time. Mas também é dia dos pais. Decido segui-lo. Ele está com o seu carro no estacionamento do supermercado. Fico próxima e finjo procurar a chave do meu. Posso ouvir seu choro, agarrado ao volante. Decido ir embora. Não há nada para fazer ali.

A senhora elegante e bonita tem olhos azuis incríveis. Traz seu cão, prende a coleira no lugar destinado a isso, próximo à entrada do supermercado. Entra, pega um carrinho e começa a fazer suas compras. Usa aliança. Faz as compras com paciência. Mas observando melhor, não é paciência, é cansaço. Vai colocando as coisas no carrinho sem ânimo algum. Há muita comida congelada e opções rápidas de cozinhar. Tenho a impressão de que ela sabe cozinhar. Para diante de ingredientes e temperos sofisticados e os abandona, frustrada. Perdeu o encanto há muito tempo. Não vale mais a pena. Parece querer isolamento. Diante das flores, sorri. E este é o único momento em que se vê plenamente sua beleza. Escolhe lírios e dirige-se ao caixa. Pede para um empacotador levar as compras para o carro enquanto ela vai buscar a Dolly. Quando chega na garagem do prédio, liga para a faxineira e pede ajuda. Deixa o carro aberto. Enquanto espera, acende um cigarro, meio às escondidas. A faxineira sabe, há muito tempo.

Quando toda a compra foi levada, diz a Judite que vai passear com Dolly. Na verdade, se fosse possível, não passaria nem um minuto a mais com aquele homem asqueroso.

Desligo a máquina e vou dormir. Quem estará me observando quando ando por aí?

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