Tulipa – Leve e despretensiosa

Texto: Têmis Nicolaidis
Revisão e fotos: Gustavo Türck

Tulipa Ruiz em Porto Alegre, no Opinião, em 21 de julho de 2018.

Casa tradicional de shows da capital gaúcha, local de bailes de arromba, rock and roll, festas até terminar a noite. E esta apresentação se iniciou às 21h, terminando antes das 23h, porque depois viria outra função… Fiquei imaginando um ambiente de baile, num salão bonito ou mesmo ao ar livre, um espaço vazio ao centro destinado a um arrasta pé, mesas ao redor e numa das extremidades o palco. Fiquei imaginando que aquele show da Tulipa Ruiz bem que poderia estar acontecendo neste clima, merecia isso. Meia luz, coloridos, sombras e panos. Mas era ali, no palco italiano.

Nem por isso deixei de curtir o som, que ia do forte ao delicado com vocais incríveis e arranjos lindos. Apesar de estar apresentando um novo trabalho, o trio, composto por Tulipa Ruiz, Stéphane San e Gustavo Chagas, apresentou versões muito interessantes das músicas de outros álbuns, como Pedrinho que abriu o show. Defino o som dela como preciso e despretensioso, aquele que se coloca para fazer o almoço, faxina a casa ou curtir o nada num dia de chuva, por isso me agrada.

A vontade era de dançar abraçadinho, de curtir a levada, de sentir o momento, de formar um baile. Tulipa contou que esse trabalho surgiu da necessidade de, em tempos de apocalipse, olhar no olho de quem está próximo e produzir, ritualizar. De fato, senti na condução do show, através das músicas, a ritualística, que poderia ser potencializada com uma iluminação mais intimista, já que ela é uma grande intérprete. Não é só voz, é presença e força, sem falar de um estilo inconfundível na maneira de cantar. Basta poucos minutos para saber quem é. Acho esta uma característica bem interessante em tempos de cultura pasteurizada, de identidades seriadas, quando já se fez e viu de tudo.

Me identifico mais com a sonoridade fácil das músicas dela do que propriamente com o público que a segue ou até mesmo com a narrativa das músicas, que em alguns momentos parecem que representam um universo mais particular do que universal. Senti bastante falta de uma quebra no tom da levada do show, que até o fim se manteve romântico, dançadinho, calcado naquela formação de trio. Ainda assim, foi uma bela noite, deu pra sair bem, leve, feliz. A ritualística cumpriu o seu papel, e no outro dia o mundo continuava lá, me deu impressão de ser possível atravessar o apocalipse apesar de tudo.

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