A burguesia elitista revelou toda sua baixeza contra Manuela D’Avila


Por Jacques Alfonsin

Manuela D´Avila é comunista. Foi campeã de votos, tanto para exercer o mandato parlamentar na Câmara dos deputados quanto para a assembleia legislativa do Rio Grande do Sul. Por aliança do seu partido PCdoB com o PT, abriu mão da sua candidatura à presidência da República este ano para ser vice de Fernando Haddad nas eleições de outubro.

Com um currículo desta envergadura, há de se convir que toda a mulher com tais credenciais, somadas ao fato de que não pesa contra ela qualquer suspeita de corrupção política, seria muito bem acolhida em qualquer ambiente público ou privado, partido, associação, clube, ou mesmo grupo de pessoas que costumam se reunir informalmente por simples espírito fraterno de amizade. Não foi o que aconteceu com a Manuela.

Conforme escreveu Paulo Germano no caderno Doc. da Zero Hora de 11/12 deste agosto, sob o título “O naufrágio da tolerância”, Manuela, seu marido Duca lindecker, sua família, não podem continuar frequentando as dependências, nem gozando da condição de sócios do clube Veleiros do Sul em Porto Alegre, para a qual tinham sido convidados pelo próprio Comodoro da entidade. Tudo resultante de uma pressão exercida por um grupo de outros sócios sobre a direção do mesmo:

“O que pesou é serem comunistas – diz um sócio do Veleiros que pediu para não ser identificado – cada um no seu quadrado. Cada um que procure o grupo que melhor se enquadre nos seus valores. Ou alguém pensa que eu seria bem recebido no Partido Comunista?”

Em pleno século 21, num clube que reúne pessoas de classe média e rica, ainda existe gente portadora de “valores”, como o quadrado que falou isso, convencida de que um apartheid desse tipo se explica e justifica por diferenças ideológicas e, ou, partidárias. Pensar-se que a defesa enfática de uma segregação dessa espécie, um complexo de superioridade desse tipo, um preconceito viciado pelo sentimento de que a diferença de pensamento e ação das/os outras/os é sempre inferior à própria, a ignorância, a parvoíce e a imbecilidade que se revelam aí não são traços remanescentes de uma herança imoral que ainda viceja nesse meio, é um risco do qual a sociedade toda precisa se prevenir.

Mesmo que a iniciativa dos sócios do Veleiros, incomodados com a presença da Manuela e de sua família ali – ao ponto de terem ameaçado a direção do clube de agirem judicialmente se não fossem ouvidos – não conte com a unanimidade das/os outras/os sócias/os, como revela Paulo Germano, o incidente constrangeu de tal forma o casal que esse tratou de impedir os desdobramentos previsíveis de uma queixa absurda como essa. Retirou-se espontaneamente, Manuela, inclusive, em silencio, assim poupando amigos e amigas de se envolverem em sua defesa.

O problema maior, entretanto, reside no fato de transparecer um certo orgulho na voz daquele sócio denunciante do casal, uma agressividade convencida de estar sendo posta a serviço de uma causa merecedora de concordância geral e aplauso. Essa falta de consciência crítica sobre a própria conduta caracteriza grande parte da burguesia elitista, cercada por interesses medíocres do tipo preservar diferenças sobre quantas/os considera “por baixo”, sob um juízo medido exclusivamente por dinheiro, assim garantindo, quando menos na aparência envernizada pelo que considera chique, uma existência servil a “valores” tão baixos como os que inspiraram a denúncia contra o mesmo casal.

Não é de hoje que o pragmatismo rasteiro dessa moral exclusivista de grupo fechado recebe reprimenda exemplar e muito apropriada, tanto para o sócio denunciante que não quis se identificar como para o grupo classista ao qual ele pertence, de regra dependente de cumplicidades secretas:

“A sociedade passa a ser regida por uma rede de normas nunca confessadas, mas frequentemente mais rigidamente aplicadas que as regras declaradas ou oficiais. Na questão dos direitos, por exemplo, a posse pura e simples de um direito não basta para vê-lo respeitado; precisa-se também da amizade ou cumplicidade com alguém que tenha algum poder sobre a efetivação do direito. Não acreditamos que o povo simples seja beneficiário desse tipo de comportamento; pelo contrário, ela pode não observar sempre uma lei que não foi feita para ele, que não lhe é adaptada, não deixa de ser vítima de outras classes. Não há remédio, porque esta grave corrupção do bem comum não é motivo de culpabilização mas de ufanismo por parte de seus adeptos e beneficiários.” (Lepargneur, Hubert, “O descompasso da teoria com a prática: uma indagação nas raízes da moral”, `Petrópolis, Vozes, 1979, p. 71/2).

Manuela e Duca, então, saem engrandecidos desse mau momento e os acusadores fechados no próprio quadrado, ao qual pretendiam despachar quem feria sua moral pretensiosa e exclusivamente subjetiva. Vão ter de suportar a consequência contagiosa quase certa e contagiosa do que fizeram. A imprudente generalização de que o Clube Veleiros do Sul só aceita em seu meio gente quadrada como eles, não sendo possível velejar por lá com um mau tempo desses. Assim, quem pretendia humilhar a deputada, seu marido, sua família, sai desse incidente humilhado.

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