Chamas da inquisição atual queimam as bruxas da História

Viralizou nas redes a triste notícia do incêndio na instituição de pesquisa mais antiga do Brasil. O fogo queimou o Museu Nacional, localizado no Rio de Janeiro, junto com 20 milhões de obras — entre elas o acervo de meteoritos e de botânica, fósseis humanos e animais, registros de culturas indígenas e reinos africanos.

A perda científica e de conhecimento é inestimável, mas também é triste ver mais uma confirmação de que o Brasil segue no mesmo modelo colonialista de inquisição: queimar a diversidade nativa para impor uma monocultura.

E não adianta culpar o PT ou a esquerda pelo que aconteceu, já que uma rápida pesquisa aponta justamente para o contrário. Segundo dados disponíveis no portal do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), os investimentos em museus cresceram 980% entre 2001 e 2011, período que abrange maioria do período das gestões Lula e Dilma.

Ao analisar, ainda, informações disponíveis no Siga Brasil, portal do orçamento do Senado Federal, se nota que a maior queda no orçamento anual do Museu acontece no ano de 2015. No ano de 2014, quando Dilma se reelegia, o orçamento anual do museu foi de 1 milhão e duzentos e 11 mil reais. Já em 2015, momento em que o golpe estava sendo articulado, o orçamento caiu para 750 mil reais.

No cenário político pós golpe, vale ressaltar a PEC 241. A proposta de emenda constitucional aprovada no final de 2016 congelou por vinte anos as despesas do governo com gastos sociais. Assim, o país não pode incrementar investimentos em saúde, educação e cultura pelos próximos 18 anos.

Pensando dessa forma, pode-se entender o incêndio no Museu como mais uma das consequências do golpe. E, cabe ressaltar que, apesar de toda a midiatização do episódio e da comoção construída a partir disso, o que queimou já seria uma cultura morta.

Não é querer menosprezar o episódio — é uma merda que o fóssil de Luzia, com toda sua antiguidade e importância para as pesquisas sobre as migrações para o continente americano, tenha queimado —, mas Luzia já está morta. Enquanto isso, por todo o Brasil, vemos denúncias de guardiãs e guardiões da cultura viva sofrendo diversos ataques.

É uma pena que tenhamos perdido registros de culturas indígenas já extintas, mas não seria também produtivo nos mobilizarmos para proteger as etnias que restam? Para que estas não virem fósseis a serem queimados em um outro museu em outro futuro apocalíptico como o de agora?

Na Amazônia, estamos vendo seguidamente denúncias de garimpo e desmatamento dentro de terras indígenas. No Mato Grosso do Sul, o Estado brasileiro está retirando as crianças Guarani Kaiowá de suas mães e colocando-as para adoção. Com isso, o Estado está literalmente assassinando as culturas vivas ao agir para impedir sua continuidade seja retirando as crianças ou destruindo as florestas.

E estes são só alguns exemplos…

Temos também denúncias de intolerância religiosa contra religiões afrobrasileiras — inclusive por parte do Estado por meio de tentativas de proibir os sacrifícios rituais dessas religiões.

Ou seja, a velha inquisição segue a todo vapor e não queima apenas museus, mas também as pessoas que lutam pela sobrevivência de culturas não individualistas. O que vemos no Brasil é a continuação do colonialismo e do extermínio, e o Museu foi apenas o exemplo mais espetacular e, justamente por isso, midiatizado por aqueles que nunca o valorizaram.

*cartum de Carlos Latuff (@LatuffCartoons)

**texto produzido por Bruno Pedrotti sob supervisão do Coletivo

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