MAIS QUE UM JOGO – O relato de gremista que enfrenta o preconceito no estádio de futebol

A primeira vez que pisei no Olímpico foi acompanhada do meu pai. Ainda nem tinha camisa do Grêmio, mas montei uma roupa toda combinante de tons de azul pra poder torcer a rigor. No auge dos dez anos de idade, aquele era um evento importantíssimo: torcer pro mesmo time do meu pai, depois de realizar um sonho de infância que era voltar a morar em Porto Alegre e viver coisas de “cidade grande”. Adorei, torci muito. Não sabia o nome de nenhum jogador e me diverti mesmo assim. Pulei empolgada com um gol que veio ao fim do jogo, quando já tava desmotivada achando que ia ter que ficar pra próxima. Foi lindo. Torcemos sentados nas cadeiras, ao lado de vários tiozinhos ligados nos rádios colados aos ouvidos.

Anos mais tarde, aos 18, com um namorado que torcia fervorosamente pelo Grêmio, conheci a Geral (maior torcida organizada do clube). Fui alertada antes de ir: “escolhe uma roupa coberta, não dá sorte pro azar”. Ainda estava por descobrir o feminismo à época, mas já me sentia injustiçada de ter de me adequar aos espaços pelos quais circulava por medo de ser assediada. Adorei a avalanche e me senti bem no meio da torcida por um tempo, mas percebi o ambiente mudar radicalmente pra mim quando o namorado foi ao banheiro e me vi sozinha no meio da multidão. “É O TRICOLOR, GOSTOSA!” foi a chamada pra eu entender: aquele espaço não era meu. Era deles.

Segui indo aos jogos, nunca sozinha, nunca sem um homem. Me emocionei torcendo tantas vezes no (estádio) Olímpico e demorei a me dar conta de que esse condicionante das companhias era, na verdade, uma constante pra muitas de nós. O futebol pode até ser legal pra ti, mas saiba que estás sujeita ao modo deles de se comportar.

A transição pra Arena veio junto de um outro momento de minha vida. Feminista, antifascista, atenta às desigualdades sociais que se produzem e reproduzem também no estádio, fui convidada por um grande amigo pra integrar uma torcida avessa aos ideais da Geral: lá a gente não canta “macaco”, lá tem preocupação contra homofobia e machismo. Foi lindo, mais uma vez. Cada vez mais lindo torcer pro Grêmio, sabendo que partilhava – quase sempre – de uma ideologia com aquele grupo de pessoas. Mas a atenção ao meu corpo e ao meu modo de me portar não me largou. Por que isso?

Ser uma mulher branca. Essa é a minha vivência. Sei que a história de muitas outras não é a mesma, talvez até com toques de muito mais dificuldade. Mas essa é a minha: identifico no estádio ainda um espaço de intenso desafio. Junto de um pensamento de que o estádio pode ser o lugar de “botar pra fora os demônios”, gritar, deixar a emoção tomar conta – algo tão bom e positivo, num mundo tão intenso e cheio de racionalidade o tempo todo –, vem uma desculpa. A desculpa de que dá pra deixar os valores de fora. De que, mesmo que não assediem uma mulher gratuitamente na rua (o que, infelizmente, a gente sabe não ser uma postura generalizada), muitos homens se sentem autorizados a fazê-lo em meio à torcida.

Só que não. Nossa preocupação pra ir ao jogo jamais devia ir além da dos homens. Colocar a camisa do Grêmio, pegar um ônibus até a Arena, assistir o jogo e, com sorte e técnica, sair feliz com mais uma vitória. Só que não, de novo. Ser mulher no estádio, assim como ser mulher no mundo, traz consigo um peso a mais. Uma ameaça a mais.

Com os anos, desenvolvi um comportamento combativo, em que normalmente encaro os assediadores de frente pela via do constrangimento. “Perdeu alguma coisa aí?” pra um olhar inadequado; ou até um xingamento pra um comentário que me enerva. Mas, de novo, por quê? Por que temos de estar em estado de alerta, quando pros homens o estádio só proporciona o sentir – se à vontade?

Mas estamos juntas. Estamos crescendo como movimento organizado e autônomo, como torcedoras que se reconhecem como merecedoras de um espaço seguro pra exercer nossa paixão pelo Grêmio, ou pelo mundo. A gente quer circular e torcer livremente. E seguiremos ocupando esses espaços até que nos entendam. Ou que engulam com farofa. Aí, sim, para mim, vai dar pra pular verdadeiramente empolgada com os gols novamente.

O Repórter Popular, em parceria com o Movimento Grêmio Antifascista e a Frente Inter Antifascista, lança esta coluna para falarmos de futebol e política, desde uma perspectiva mais progressista/à esquerda. Toda semana, um texto assinado pelas próprios coletivos, alternando uma semana entre colorados e gremistas. Texto publicado originalmente AQUI.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *