Lição de arrogância (ou: como descer à lama sem perder a empáfia)

Por Rodrigo Navarro, retirado originalmente do site Somos Todos Clube do Povo

Temos ouvido que ontem foi um dia histórico para o Sport Club Internacional e, mais do que isso, para o futebol brasileiro. Triste, muito triste. É lamentável que tenhamos chegado ao ponto de comemorar a punição de ex-dirigentes por atos de improbidade. Quem ganha com isso? Claro, diante de tudo o que aconteceu, comemora-se o que deve ser um marco no processo de moralização e transparência do clube, mas podemos nos alegrar em abstração? Eu não me alegro.

Os termos em que se deu a condenação dos ex-dirigentes já se tornaram públicos antes mesmo do fim da sessão do Conselho Deliberativo, portanto desnecessário “chover no molhado”. Da mesma maneira com os fatos que levaram a esse resultado. A torcida colorada já sabe o que o ex-presidente Píffero e os seus companheiros de gestão fizeram (e deixaram de fazer) para que lhes fosse imposta a sanção aplicada ontem. Ou melhor, a torcida sabe o que veio a público até agora, pois dizem pessoas melhor informadas que há mais, inclusive no âmbito das investigações promovidas pelo Ministério Público, mas nesse mérito nem vou entrar.

Eu quero me ater, neste momento, à atitude do ex-presidente Vitório Píffero. Imaginava-se que alguém que é levado ao plenário para responder acusações pesadíssimas que lhes foram feitas pelos seus pares (a Comissão Especial que investigou o caso) tivesse uma postura menos arrogante do que aquela a que nos acostumamos a ver. Erramos feio! O homem subiu à tribuna mais prepotente do que nunca. Em pouco mais de meia hora, disse diversas vezes que a única acusação que respondia era a de “saber de tudo”. E a sua defesa limitou-se à afirmação de que de nada sabia. Penso em esmiuçar um pouco mais essa “tese” de defesa, mas não encontro maneira, porque não há como extrair algo mais das palavras (não) ditas pelo ex-presidente. A ironia, que se constitui numa característica do dirigente punido, esteve presente na sua manifestação em muitos momentos. Ao dizer, por exemplo, que para algumas pessoas o custo de 100 reais para uma refeição pode ser considerado baixo, Píffero escancarou a sua inadequação para dirigir o Clube do Povo. E nem estou falando aqui da situação do país, em que milhões passam fome, me refiro apenas à condição de um homem que se manifesta diante de um plenário que hoje pode ser considerado plural, composto de pessoas de várias camadas sócio-econômicas. Respondendo diretamente a um conselheiro que se manifestou naquele momento, disse o ex-dirigente: “Depende do restaurante que tu vai.” Por aí se vê o pensamento elitista de alguém que já presidiu o clube mais popular do Rio Grande do Sul.

A maior surpresa, porém, para mim, estava reservada para o momento final da sua fala. Ao ter o seu pedido de prorrogação de tempo indeferido pela Mesa do Conselho, Píffero, notadamente nervoso, a tal ponto que o Marcelo Cougo e eu acharmos que ele poderia ter um mau súbito a qualquer momento, fez referência a mim, Rodrigo Navarro, ao conselheiro Arthur Caleffi e a um terceiro conselheiro, nomeado apenas como Guilherme, dizendo ter em mãos um B.O. (Boletim de Ocorrência), lavrado contra nós, por conta de suposto envolvimento e um processo de extorsão de um empresário que realizou serviços no Parque Gigante durante a sua gestão. Disse que teríamos exigido dinheiro desse empresário e ameaçado que se ele não “entrasse no esquema” (que esquema seria ele não disse), colocaríamos a Polícia Federal no encalço dele. Essa conversa teria acontecido num café localizado no Hospital de Clínicas. Mais sobre isso não posso falar, porque o que relatei aí é basicamente o que foi dito por ele.

É importante deixar bastante claro que o ex-presidente cometeu, no meu entendimento, o crime de calúnia, ao imputar a mim e aos outros dois conselheiros citados, uma conduta criminosa da qual não temos o menor conhecimento. Para ilustrar o absurdo das acusações, o conselheiro Caleffi e eu, embora sejamos colegas de Conselho, nos conhecemos pessoalmente na reunião de ontem. A gravidade da atitude do ex-presidente aumenta quando sabemos que a reunião de ontem foi transmitida ao vivo aos sócios e sócias – outro marco importantíssimo na história do clube, eis que esse procedimento foi adotado pela primeira vez -, e, segundo informações que obtivemos lá mesmo, a transmissão estava sendo vazada em tempo real para a imprensa. Ou seja, além de nos caluniar frente aos nossos colegas conselheiros e conselheiras, as acusações tiveram um alcance que sequer podemos mensurar neste momento. Obviamente, de minha parte, ele terá de responder por isso, da mesma forma que outras pessoas eventualmente envolvidas. Espero que os conselheiros Caleffi e Guilherme também o façam.

Não quero me alongar demasiadamente neste texto, que tem por objetivo apenas mostrar que o ex-presidente Vitório Píffero, além de continuar sendo a pessoa arrogante e prepotente que conhecemos e de ter gerido muito mal o clube na sua última passagem pela presidência, do que não deixa dúvidas a condenação de ontem, ainda agiu ontem como um caluniador e tudo isso diz muito do que aconteceu no Inter nos anos recentes que antecederam 2017.

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