Filmografia Social – Cavalo dado não se olha os dentes

Bojack Horseman é uma daquelas animações incríveis. Um monte de gente acharia idiota, sem sentido, pelo simples fato de ser um desenho – como Os Simpsons, por boa parte de sua existência -, fazendo com que muitos perdessem uma obra feita para a reflexão profunda do ser – e entrega isso na sua vinheta de abertura de cada episódio.

A bizarrisse de se misturar personagens que são humanos com seres bípedes animalescos – o personagem principal é um cavalo! -, fazê-los relacionarem-se sexualmente e intimamente nos transes psicossociais deve deixar quem vive dentro dos conceitos de certo e errado impostos pela sociedade judaico-cristã de cabelo em pé.

O fato é que esta é uma tática muito inteligente. Ela distancia o público que assiste da realidade forte que propõe. Ela bestializa relações que passam a ser absurdas para que o subjetivo de quem recebe a mensagem não se identifique diretamente com o que se está assistindo e permita que camadas sensíveis do raciocínio sejam acionadas. A catarse existe, mas não tão violenta.

Porque o tema da série é abandono e solidão. E, talvez, hoje, Álvares de Azevedo e Casemiro de Abreu pudessem ser tranquilamente os roteiristas de seus episódios.

Bojack é um ator de televisão ultrapassado, mas megafamoso por seu protagonismo em um seriado familiar que se passou nos anos 1990. Ele tenta retomar uma carreira que se esvai no esgoto de relações do mundo das celebridades de Hollywood. Há um entrelaçamento de vários personagens e de suas também complicadas vidas, mas, ao mesmo tempo, um tanto superficiais – assim como demanda este tipo de estória.

É poético. Há arquétipos e episódios incríveis, finais apoteóticos, psicodélicos – destaque para um que finaliza com Bojack em uma estrada, dirigindo um conversível, com trilha sonora infalível de Nina Simone, e o episódio da eulogia da morte de sua mãe.

Já são 5 temporadas no catálogo Netflix.

NOSSA AVALIAÇÃO
Gênero: animação
Temática Social: solidão, abandono, drogadição
Público-alvo: adultos com mais de 30 anos, para entender plenamente a sagacidade do humor sarcástico e das autorreferências, é indispensável o conhecimento da cultura pop estadunidense – mãe da cultura pop brasileira – e do inglês (não assista dublado!). Mas, sim, brasileiros podem se autorrefereciar tranquilamente, basta modificar mentalmente o cenário hollywoodiano para o globodiano
Roteiro: 
(o roteiro é um chiste hollywoodiano autorreferenciado, já foi visto em tantas produções diferentes ao longo das últimas décadas – filhotes de Orson Welles -, mas consegue dar poética à uma sátira sarcástica usando elementos bizarros que faz sentido e salta aos olhos)
Dramaturgia: 
(a animação e a performance dos que dão as vozes – e vida – aos personagens é sensacional. Bojack Horseman não precisou deixar os personagens amarelos e com quatro dedos para se distanciar do “real”, a série explorou graficamente uns 3 degraus da escada da abstração e literalmente desenhou seu universo com traços bem feitos, fazendo com que o bichos e pessoas realmente parecessem como tais numa projeção de duas dimensões incrível)
Aprofundamento da Questão Social: 
(a metalinguagem é tão profunda que estouraria a cotação que nos propomos)

Por Gustavo Türck

– Filmografia Social é um conteúdo apoiado pela Graturck – perícia social, consultoria e cursos (www.graturck.com.br) e é publicado simultaneamente no site/redes do Coletivo Catarse e no site/redes da Graturck todas as quartas-feiras

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *