“Sem Tekóa não há Teko”

Breve relato da audiência pública sobre a situação dos indígenas Mbya Guarani da Ponta do Arado*

Nessa manhã da quarta-feira 19 de junho, enquanto Bolsonaro insiste em entregar os territórios dos povos originários para o agronegócio**, aconteceu na Assembleia Legislativa ddo Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, uma audiência pública para discutir a situação política e territorial de uma comunidade Mbya Guarani que há um pouco mais de um ano retomou seu território ancestral na Ponta do Arado Velho na zona sul da capital.

André Mbya Guarani falando durante a Audiência pública

Estavam presentes lideranças Mbya Guarani de várias comunidades da região metropolitana e de Maquiné (RS), vários deputados estaduais, procuradores do estado, representantes do Conselho Estadual dos Direitos Humanos, da defensoria pública da União, da Comissão Estadual dos Direitos Humanos, da FUNAI, do MPF, da Prefeitura de Porto Alegre, de antropólogos, do observatório indigenista e até da Polícia Civil. Os Guarani fizeram ouvir a voz da floresta exigindo que fosse respeitado seu modo de viver sem este ser criminalizado:

“Nós, não estamos pedindo um favor aqui. […] Estamos aqui para mostrar nossa dignidade!” – ressaltou Cirilo, liderança da comunidade de Canta Galo, Viamão. Diante da dificuldade de fazer os brancos entenderem o modo de vida deles, estes exigiram respeito: “O branco não precisa entender, só precisa respeitar nossa nação, que é ela que está salvando o mundo” – apontou o cacique André da Tekoá Ka’aguy Porã, retomada de Maquiné.

Após uma difícil batalha judicial, o processo dos Guarani da Ponta do Arado se encontra na esfera da Justiça Federal, o funcionário e antropólogo da FUNAI, Kaio Hoffmann, pontuou que ainda não há previsão para o início de um GT de identificação da Terra Indígena por parte da instituição, porém, ressaltou a importância de arrecadar todo tipo de elementos e informações que possam apoiar futuros laudos.

Todos os parlamentares presentes e os representantes de instituições estatais e federais afirmaram seu profundo apoio para a luta dos Mbya Guarani da Ponta do Arado e se colocaram à disposição. No fim da audiência, foi encaminhada a criação de um Grupo de Trabalho que visa a juntar todas as competências das diferentes instituições com a finalidade de reforçar, na esfera jurídico-legal, a devolução do território da Ponta do Arado para seus moradores originários.

Ainda, o cacique André ressaltou sua dificuldade para se comunicar na língua dos brancos, mostrando a importante diferença nos significados das palavras no pensamento “dos brancos” e “dos Guarani”. Como maneira de exemplificar, falou da palavra “dívida”, usada erroneamente para os brancos ao se referir ao esbulho colonial: “Para nós, não é dívida, porque o que os brancos fizeram com os povos indígenas é impagável, não tem como pagar, o branco nunca vai poder pagar”.

A luta e a solidariedade na Retomada Mbya Guarani da Ponta do Arado seguem!

Sem Tekóa, não há Teko!

Viva a Retomada e a luta Mbya Guarani da Ponta do Arado!

*Texto e fotografia: Tinkamó – Coletivo Catarse
**Nessa manhã, 19/06, uma nova Medida Provisória voltou a colocar a competência de identificação, delimitação e demarcação das TI para o Ministério de Agricultura.

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