Cidadão bem de merda

Quando lançaram o petardo em clipe “5 Tiros“, virei para um dos integrantes da Hempadura e disse: ih, quero ver superarem isso que vocês acabaram de produzir!

Pois esse é um dos grandes dilemas das artes: obras tão boas, tão impactantes, que passam a assombrar os seus autores.

Confesso que a curiosidade me embalou por um tempo numa morbidez hardcore, tentando entender o que as mentes duras de hempa estavam tramando mais uma vez – “Ha-ha! Lá estão eles, de novo, atrás das telas dos computadores, matutando o que fazer… Pffff, 5 tiros de verdade, e o sexto de festim…” – subestimava.

Que nada! Desgraçados, destroçadores de críticos-crônicos de música. Mais uma vez, conseguiram.

A narrativa do novo clipe é tão foda quanto a própria música. A estética já é de um selo conhecido de quem segue a banda – imagens sujas, galera gritando cantando em semicírculo, em plano médio, muitos filtros… Não é ruim, muito pelo contrário, é uma marca, um tipo Hempadura de “clipar”.

Na história, a estupidez humana de um tipo dominante, infelizmente, na sociedade brasileira. Não que todos esses que se identifiquem ao estereótipo “de bem” sejam misóginos, racistas e estupradores, mas é, de fato, um conceito que catapulta essa violência pela cortina da defesa de costumes. Que se levanta e serve direitinho para escamotear atitudes de perversão sexual – se você duvida, pergunte para qualquer profissional Assistente Social que lida com abusos de crianças e adolescentes, que não seja ligado a alguma igreja, e a confirmação virá. Sem falar que as informações estão todas ali, em vários momentos do clipe, sem nuances de linguagem.

E, então, talvez o “pior” do clipe seja isso: é preciso assisti-lo algumas vezes para assimilar tudo o que é exposto. Mas, vamos combinar, com uma obra dessas num momento destes, a adrenalina agradece!

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