MAIS QUE UM JOGO | O canto da sereia ameaça o Clube do Povo

Na mitologia antiga as sereias ou sirenas, mulheres com a metade peixe ou pássaro, emitiam um canto que seduzia e encantava os marinheiros, atraindo-os para armadilhas letais, findando das mais simples, até as mais complexas embarcações que desbravavam os sete mares.

Durante a semana, tivemos veiculado na grande mídia pelo 2º Vice-Presidente do Internacional, uma sinalização pública que o clube está ouvindo esse canto e apontando seu “navio” na direção dele. No entanto, esse canto não advém de nenhuma sereia ou sirena mitológica, a música que soa fácil e doce vem das cifras apresentadas pelo mercado imobiliário que, de maneira muito astuta, vê os ventos soprarem a seu favor no contexto político e econômico do país, do estado, do município e dos clubes.

O Sport Club Internacional é uma instituição com 110 anos de história, organização associativista desde sua fundação, em 04 de abril de 1909. Detentora de uma torcida de mais de 7 milhões de pessoas que contribuem ativamente, de maneira direta e indireta, com clube, e que possui ainda quadro social com mais de 100 mil ativos, com DIREITOS e deveres frente a instituição e, sobretudo, com o poder de indiretamente comandar os rumos dessa “embarcação”. Cada um(a) dos colorados foi responsável, ao longo de todos esses anos, por edificar o patrimônio do clube, que é NOSSO, que nos enche de orgulho, nos fortalece institucionalmente e que não foi nada fácil de ser conquistado.

O atual projeto de construção de dois “espigões” no pátio do Beira-Rio é muito perigoso para o futuro do nosso patrimônio e do Inter, abrindo um precedente nefasto e histórico para que tudo que os irmãos Poppe, Ildo Meneghetti, cada colorada e colorado ajudaram a construir ao longo desses 110 anos, admitindo como ativo/produto ($$) algo que não deveria ser tratado como um.

Com o objetivo de alertar toda a torcida colorada sobre os severos riscos desse projeto, trazemos os seguintes tópicos, explicando as movimentações que estão sendo feitas pelo Conselho de Gestão do clube e dos impactos que esse projeto deve acarretar, se aprovado:

– O Inter possui licença de uso da área do complexo Beira-Rio, licença concedida no ano de 1956, quando iniciou a fase de aterramento e construção do que, há mais de 50 anos, chamamos de nossa casa. Portanto, o clube não pode comercializar essa área. Porto Alegre concedeu a área para a torcida colorada ter o seu espaço e não para que o clube a loteasse e comercializasse. Dentro da proposta redigida, o clube propõe, inclusive, devolver área que é do Inter para a prefeitura, mediante contrapartida para que a mesma, através da Câmara de Vereadores, permita a mudança da licença de uso, para uma licença que permita comercialização e também a moradia no local (foco do empreendimento é a moradia);

– O Inter NÃO possui autorização legal para efetuar a construção da <<Maior Torre de Porto Alegre>> e nem da outra torre, menor e adjacente. Ambas ferem frontalmente o Plano Diretor de Porto Alegre. O clube possui atualmente um EVU aprovado (Estudo de Viabilidade Urbana) que foi autorizado em 2012, com o processo de reformas para a Copa do Mundo de 2014, e que prevê outro modelo de construção, prédios menores e compactos, que tinham como objetivo serem hotéis. Mesmo nesse EVU que foi aprovado em 2012, existem uma série de pendências, como por exemplo: laudo arqueológico da área, estudo de impacto ambiental, contrapartidas que não foram realizadas até hoje, entre outros pontos. Portanto, o clube NÃO PODE executar a obra hoje e, mesmo que quisesse executar o modelo de obra pensado em 2012, ficaria a mercê de prestar contas junto ao Ministério Público, referente a estes pontos não executados na aquisição do EVU anterior;

– O modelo de construção dessas torres não é como o projeto de reforma do Beira-Rio, ou como o projeto que vem sendo ventilado para o Ginásio Gigantinho, uma parceria de exploração comercial, onde uma empresa parceira pode explorar comercialmente a área por alguns anos e ao fim do contrato toda a estrutura volta a ser do Clube. Nessa jogada dos “espigões” o clube estará “transformando” uma área utilizada pela torcida colorada para vários fins, em dinheiro para fins que nem sequer se tem destinação no momento. Na prática, o Internacional perderá uma parcela do seu patrimônio PARA SEMPRE. E é este o ponto que mais nos choca, se uma torcida de 7 milhões de pessoas e mais de 100 mil associados conceder o poder de VENDA do patrimônio institucional à dirigentes que ficam, quando muito, 4 anos a frente do clube, correremos sérios riscos de num futuro não tão distante ficarmos sem patrimônio algum. A citar o nosso rival, que pelos devaneios de um ex-presidente vendeu seu estádio, mudou de bairro e firmou um contrato totalmente duvidoso com uma construtora. Está há anos sem estádio próprio, tendo que gestão após gestão trabalhar pra tentar reverter esse cenário, tentando adquirir em definitivo a sua casa novamente;

– Somos frontalmente contrários a comercialização do nosso patrimônio, mas, mesmo que o leitor considere essa alternativa como viável, comercialmente esse negócio não faz nenhum sentido nesse momento. A área do Beira-Rio e do seu entorno está gradativamente se valorizando, há anos todo desenvolvimento da urbanidade tem se voltado para a Zona Sul. Nesse momento temos as três etapas de construções, todas de grande porte, que valorizarão todo esse trecho da orla do Guaíba, a constar: o já inaugurado Novo Gasômetro e as outras duas fases que irão revitalizar a orla até a altura do Barra Shopping Sul. O clube estaria comercializando um patrimônio antes dele passar por um iminente processo de valorização. Nada justifica essa atitude precipitada! A não ser uma visão imediatista de quem quer ter receitas em mãos e desconsidera o ontem e o amanhã do clube nessa estratégia;

– Enquanto sociedade, esse projeto cafona de prédios arranha-céus, que não dialoga com o entorno urbano e seus fluxos, é altamente promíscuo, pois basicamente transforma uma área que foi cedida pela cidade, portanto uma área de todos os contribuintes, em uma moeda para o bel-prazer de alguns dirigentes do hoje, para que os mesmos possam utilizar o dinheiro no que avaliam como importante. Sem contar, que um projeto desse porte, que tem como público-alvo a alta sociedade gaúcha, comprometeria tudo o que acontece nesse trecho da cidade, seja alterando a forma como hoje funcionam as operações de jogos no estádio Beira-Rio, seja contribuindo com a nefasta gentrificação da área, sendo uma etapa óbvia para o argumento de remoção das Escolas de Samba, do Quilombo Lemos no outro lado da rua e, até mesmo, dos moradores de trás da antiga Fase.

Todos nós estamos sujeitos as armadilhas ardilosas das sereias e do mercado, se não formos ávidos na defesa do nosso patrimônio e das nossas vidas, o rochedo e os espigões são os iminentes destinos que nos aguardam. Que os dirigentes do clube repensem essa estratégia equivocada de tornar em ativo comercial nosso amplo, rico e histórico patrimônio, que não sejam ludibriados pelo brilho das moedas e, principalmente, que não coloquem o Clube do Povo em oposição aos interesses de Porto Alegre, do Estado e da população.

Quem é o Inter? Para onde o Inter vai? O que o Inter possui? Precisamos pensar, depende de nós…

Frente Inter Antifascista

*originalmente publicado no site do Repórter Popular, aqui

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