Entre poeira de carvão e estrondos de dinamite. Breve relato dos impactos da mineração em Arroio dos Ratos.

Alguns integrantes do Comitê de Combate à Mega Mineração no Rio Grande do Sul visitaram, nesse domingo (dia 15/09/2019), a cidade de Arroio dos Ratos. Os habitantes sofrem as consequências diárias da extração de carvão desenvolvida pela empresa Copelmi, que há aproximadamente dois anos retomou suas atividades no local.

O município é um lugar histórico de exploração de carvão, e os moradores mais antigos já estão acostumados com a mineração. Sueli, de 90 anos, relatou que seu marido trabalhou 30 anos pela empresa mineira. Antigamente, os trabalhadores desciam nas entranhas da terra dentro de “gaiolas”, ficavam o dia inteiro dentro das galerias e cavavam a golpe de picareta. Sueli inclusive lembra da morte de mais de 100 trabalhadores, colegas do seu antigo marido. Em 1936, uma enchente inundou completamente as galerias. Os trabalhadores foram afogados dentro da mina. O episódio faz parte da memória histórica e coletiva de Arroio dos Ratos.

Dejalmo Vieira dos Santos trabalhou 29 anos com a empresa Copelmi, hoje está com 61 anos, se aposentou por “invalidez” há 6 anos, sem receber nenhuma indenização por parte da empresa. Porém, como operador de máquina, ele teve a coluna machucada e sofreu de paralisia nos braços e nos dedos, devido aos esforços repetidos. Relatou à reportagem que costumava trabalhar mais de 8 horas sem pausa, tendo que “engolir a comida sentado na máquina”.

O pai da professora Bárbara Gomes, também moradora impactada pelo empreendimento da Copelmi, trabalhou durante 15 anos no posto mineiro de Santa Bárbara em Charqueadas. Enquanto medidor, ele era encarregado de entrar dentro da mina depois das explosões. “Tinha vezes que ele chegava, e minha mãe colocava um cobertor na cama, ele deitava, dormia uma hora e voltava a trabalhar. Ele chegava com a pele suja de carvão. Anos depois dele se aposentar, eu brincava de fazer massagem nas costas dele e saia dos poros dele aquela coisa preta do carvão”. Lembra a professora.

Os laudos médicos da empresa afirmavam que ele não tinha carvão no pulmão, porém, Bárbara viu seu pai sofrer de repetidas bronquites. “Laudo médico da empresa fica difícil de a gente acreditar” – aponta. Apesar de tantos anos dedicados à empresa, o pai de Bárbara não ganhou nenhuma indenização médica.

Hoje, ainda se sente o cheiro de enxofre pelas ruas da pequena cidade. Para os moradores do “bairro dos excluídos” – apelido dado por quem vive nessa comunidade a menos de 200 metros do empreendimento mineiro – a tranquilidade acabou. Desde que a empresa de mineração Copelmi retomou suas atividades de extração de carvão no local – há cerca de dois anos, os habitantes de Arroio dos Ratos sofrem com poeira, barulho, rinite e têm as suas casas rachadas por causa de explosões diárias de dinamite.

Rosana Beatriz Crescêncio da Silva mostra o piso do seu banheiro novinho, porém afundado e rachado.

Dejalmo comprou sua casa há menos de um ano, já tem rachaduras nas paredes e os vidros rebentados por causa das explosões.

Além disso, o barulho impede os moradores de descansarem, entre os estouros que fazem tremer as casas e o ruído dos caminhões no meio da noite, os habitantes de Arroio dos Ratos perderam o sono. “A casa treme, a gente se assusta, tem poeira, uma poeira cinza-preta que fica na roupa” – relata Rosana. “Minha casa toda treme, os cachorros ficam horrorizados, e aquele barulho fica a noite inteira, aquele apito das rés das maquinas e caminhões” – explica Bárbara.

Rosana também comenta que, desde que a Copelmi retomou suas atividades, ela e seu marido sofrem com ataques agudos de rinite e bronquite devido à poeira tóxica do carvão.

Antes de se instalar, representantes da empresa visitaram algumas casas e tiraram mais de 120 fotos – esse foi o único contato que os moradores tiveram com a empresa. Apesar de morar a menos de 200 metros das escavações, a sensação geral é a de que a empresa nunca considerou a vida dessas pessoas como suficientemente importantes para serem levadas em conta.

O lugar onde a empresa cava dia e noite sem parar era  um espaço de sustento e lazer dos habitantes de Arroio dos Ratos. Na “Barreira” ou no “esqueleto”, como era conhecido pelos moradores, o pessoal ia pescar, tomar banho e curtir o arroio. Bárbara relata: “Começaram [os empreendedores] destruindo uma parte histórica, que seria o esqueleto, uma coisa que tinha no meio da fazenda que é perto da minha casa. Meu pai cruzava a fazenda para ir pescar no arroio, agora não tem como entrar lá, eles não deixam entrar, como meu pai e todo mundo fazia para ir pescar, curtir o arroio”.

Um dos comerciantes da cidade nos relatou que até a festa da melancia parou nos últimos anos por causa da mineração. E a atividade da Copelmi também trouxe um grande desequilibro ecológico. Os bichos que moravam no lugar das escavações tiveram que fugir do empreendimento buscando refúgio nas casas dos moradores e no antigo lugar onde costumava ser realizada a festa. A invasão de cobras, que fogem das explosões e das máquinas, impossibilita até hoje a realização desse importante evento cultural da cidade.

Além disso, a promessa dos empregos também não se realizou. A maioria dos trabalhadores não são de Arroio dos Ratos. Existem denúncias de que a Copelmi tenha até contratado uma empresa de ônibus para levar e trazer seus trabalhadores dos municípios vizinhos. Rosana relata uma realidade que muitos moradores do município vivem: “Não deu emprego não, eu estou saindo daqui para ir para Charqueadas para trabalhar porque aqui não tem”.

Dessa maneira, o município de Arroio dos Ratos está se transformando pouco a pouco em uma cidade dormitório, na qual os moradores resistem entre poeira de carvão e estrondos de dinamite. Teme-se, dessa forma, que Arroio dos Ratos seja um exemplo do tipo de situação que se poderá viver também em Eldorado do Sul se o projeto de licenciamento da Mina Guaíba for aprovado pela FEPAM.

*reportagem de Clementine Tinkamó (texto) e Bruno Pedrotti (fotos)

3 comentários em “Entre poeira de carvão e estrondos de dinamite. Breve relato dos impactos da mineração em Arroio dos Ratos.”

  1. Esse “empreendimento” foi realizado sem que tenha havido qualquer discussão prévia sobre a sua viabilidade numa área central do Município. Moro há 60 anos em Arroio dos Ratos e nunca ouvi falar da realização de audiências públicas que possibilitasse a participação da Comunidade e dos órgãos ambientais. Resta uma pergunta: essa situação aparentemente irregular e evidentemente danosa à saúde e ao patrimônio dos cidadãos foi levada ao conhecimento do ministério público???

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