O peso do underground

texto de Homero Pivotto Jr., jornalista e vocalista da Diokane e Tijolo Seis Furos (TSF).
Foto de Billy Valdez

Me parece um tanto óbvio: o futuro da música vive, há tempos, no underground. Criativamente, é quase incontestável essa percepção. E, comercialmente, se torna cada vez mais viável, já que é no meio independente que se permitem as inventividades sonoras capazes de sacudir a poeira da mesmice que entope o ouvido da massa. Ou será que o povo quer mais do mesmo? Essa discussão fica pra depois. A seguir, música, como diz o Ron Selistre. Segue o baile!

Bueno…. Costumo dizer, quando converso com entusiastas dos sons bacanas ou com reclamões que afirmam não haver mais nada interessante a se escutar, que é no submundo onde estão as pepitas capazes de fazer nossa audição se emocionar. Mas né: quem é o Homero — pai do Benjamin e filho do carbono e do amoníaco… não pera… —, na fila do pão?

Só que agora tio Lee Ronaldo, guitarrista do hoje finado Sonic Youth, deu a morta em entrevista recente: “O rock soa cansado e o melhor do gênero está no underground” (leia mais sobre aqui).

A fala do músico estadunidense foi dada em razão de sua mais recente passagem pelo Braséu, para divulgar o longa-metragem “Ainda Temos a Imensidão da Noite”. Ronaldinho colaborou com a trilha desse filme que narra a história de uma banda punk/psicodélica de Brasília, conforme informações do vasto descampado que é a internet.

Embora eu, monstro de escuridão e rutilância (mas que coisa, sai deste corpo, Augusto dos Anjos), acredite que a percepção se aplique também a outros estilos além do que tem roll como sobrenome, vamos nos ater ao gênero conhecido pelas camisas pretas com nomes de banda. Até porque é nesse metiê que encontro parte considerável dos artistas que satisfazem minhas predileções. Logo, supostamente, é o que tenho mais intimidade para comentar sobre.

Façamos o recorte ainda mais segmentado, com foco em nomes nacionais. Vamos reduzir o escopo ainda mais porque tá pôco (tenho quedas por rima pobre, malz ae)?
Sim! Então, lancemos luz sobre nomes da cena local gaúcha, principalmente, de Porto Alegre. Só na capital do sul do mundo, onde moro, há um punhado de bons exemplos para citar. Então, vamos a eles, sem esquecer de alguns surgidos em outras partes do território nacional.

Não ficou satisfeito? Foda-se.
Digo, faça sua lista e publique em seu perfil nas redes de espionagem social. Ou contribua citando grupos interessantes nos comentários.

Death Ecstasy— Death/thrash de Canoas. Juventude cheia de disposição para sons velozes e vorazes. Em uma definição simplória: um Toxic Holocaust dos Pampas.
Escute:

Death to Lovers — “Life can’t be only this”, diz o verso da faixa de mesmo nome – e minha preferida dos caras. Se a vida fosse só ouvir uns rock gótico/post-punk como o que essa turma faz, por mim não haveria problema.
Ouça:

@facedaex — De experimental? Se é, não sei, mas caberia bem aqui. Uma experiência que mistura post-punk, indie, rock alternativo e outras variações do mesmo tema. E que, ao vivo, é um ‘expetáculo’ catártico.
Confira:

The Murder Ballads Club — O nome inspirado no disco de Nick Cave and The Bad Seeds não é à toa. A musicalidade aqui tem verve dark e folk. É sombria e imponente na mesma medida que elegante e envolvente.

Dá uma ouvida

Manger Cadavre? — hardcore/crust metalizado politizado e consciente, manja? Essa turma sim, e coloca na prática de um jeito bem barulhento.
Manja aí:

Lo Que Te Voy A Decir — manifestação de quem tem o que dizer na forma de um punk/hc urgente. Segundo a descrição dos próprios: “grito surdo, um soco fictício no estômago, uma porrada sonora com o que nos cerca e corrói dia a dia”.
Escute:

Surra — Violência sonora modulada num thrashcore empolgante e sem firula.
Maltrate os ouvidos:

Test — Duo grind/death de inclinações experimentais. Rápido, inventivo e avassalador.
Faça o teste:

SAPO BOI — Oh, boy: a raziada aqui aposta num rock alternativo sujo e ruidoso.
Ouça:

Motorcavera — Rockão que flerta com a experiência sonora pesada. Tem de um tudo nesse trem: barulho, aceleração, intensidade, pedais de efeito aos borbotões e melodias grudentas.
Comece a viagem

Cine Baltimore — Melhor definição é a do próprio material de divulgação da banda: “simplicidade dos Ramones, o experimentalismo do Sonic Youth, o futurismo do Daft Punk, a melancolia irônica dos Kinks e a brasilidade universal dos Mutantes”.
Confira

LAUTMUSIK — Post-punk refinado e cativante adornado com elementos shoegaze. Não por acaso foram escolhidos pelo vocalista Robert Smith para abrir o show do The Cure em São Paulo (2013).
Coloque alto

Gomalakka — Eletro rock post-punk de inspiração urbana. Ora dançante, ora viajante, sempre instigante.
Para curtir na goma e na festa

Furia Rockpaulera — rock paulera com toques de hardcore e elementos do metal (death e thrash, principalmente).
Desce a lenha:

Tigersharks — stoner skate punk que manobra bem pelos lados do Black Flag.
Para deslizar no carrinho ou na vida

Estado Terminal — crust’n’roll de bases motorhedianas e devoto do que mais empolgante a Suécia produziu de similar (do Anti-Cimex ao Wolfbrigade).
Indicado para rodas punk

Hempadura — Hardcore, rap, groove e metal fazendo a trilha para a contestação lírica.
Sente o peso do flow:

Losna — Trio thrash/death há tempos na estrada (desde 2004). Tem à frente duas irmãs.
Escute:

Tormentos Mc’s — Duo hip hop de rimas sagazes e performances viscerais.
Conheça

Warkrust — O nome já entrega: crust d-beat nervoso, sem concessão.
Afaste o sofá e lacre

Paquetá — Surf punk buena onda para dançar para enfrentar a maré.
Vem nessa barca:

Subespectro — Por preguiça de pensar em uma definição, vai aquele recorta e cola safado da page dos caras: “músicas baseadas em diversas referências porém não fugindo da velha escola punk e pós-punk cujos temas são inspirados em experiências abstratas e fenômenos cataclísmicos”.
Dá o play

Conflito — punk/hardcore 80’s, kraut rock, minimalismo e energia juvenil incorporada por gente não tão nova.
Eis:

Dismembration — death metal old school com pitadas de doom e certo groove.
Aqui:

Hideous Monarch — Brutal, como o bom death deve ser.
Escute

The Completers — Dark, post-punk, gótico, whatever que seja sombrio e faça chacoalhar o esqueleto. Para transitar pelo vale das trevas com camisa de botão
Ouça

Syring Vulgaris — Aquele grind/death debochado feito só com guitarra, voz e bateria.
Saca aí

Diokane  — Apesar de não estar na postagem original escrita por Homero, os editores se recusam a esquecer do griteiro dos cusco mais raivoso do Rio Grande do Sul. Um som pra se libertar da focinheira e estraçalhar tudo que ver pelo caminho:

EDIT:
=> Relendo o post, percebi que, inconscientemente, elenquei artistas com as quais já dividi o palco e/ou assisti ao vivo. E acredito ser um excelente critério, pois é ao vivo que uma banda mostra do que é capaz.

=> Além dos que fazem som, o underground se sustenta com iniciativas bacanas que dão visibilidade aos grupos musicais. Seja alternativas de mídia, eventos ou selos. Como os que seguem.

Rádio Armazém — rádio web de Santa Maria eleita a segunda melhor deste ano na categoria “convergência” do Prêmio Profissionais da Música 2019.

Rádio Putzgrila — uma das mais antigas webradios de Porto Alegre. Sempre disponibilizando conteúdo e informação para roqueiros de plantão.

Coletivo Catarse — cooperativa  produtora do Heavy Hour, que traz um conteúdo politica e sonoramente pesado, e de diversos video clipes da cena underground:

Plataforma Records — espécie de palanque criado pelo maestro dos sons estranhos e fora da curva Max Chami para difundir gente que envereda por esse viés sonoro. Tem material do mundo todo!

Sem mais para o momento, despeço-me.

 

 

Texto de Homero Pivotto Jr. editado por Billy Valdez e Bruno Pedrotti.

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