84 anos depois do estalido da Revolução Espanhola, morre o anarquista Lucio Urtubia

Longe da série do Netflix “La Casa de Papel”, o anarquista de carne e osso Lucio Urtubia, pedreiro, atracador e falsificador, realizou golpes memoráveis contra o Capital.

Lucio nasce na Navarra (norte da Espanha) em 1931, constrangido a fugir do franquismo, atravessa a fronteira com a França, onde chega em 1954 com apenas 23 anos de idade. Em Paris, se encontra com as Juventudes Libertárias da Federação Anarquista e conhece também os escritores revolucionários André Breton e Albert Camus. Recebe e esconde na sua casa o militante antifranquista Quico Sabaté, o qual admirava e de quem herda uma famosa metralhadora Thompson. Longe de almejar uma vida de luxo ou isolado do mundo em alguma praia caribenha, Lucio levava, no coração, um mundo novo. Todas as expropriações realizadas por ele foram destinadas a apoiar as causas revolucionárias.

Mas Lucio é conhecido sobretudo por seus talentos de falsificador. Apoiou os guerrilheiros espanhóis exilados na França falsificando documentos e, logo nos anos 1960, se atarefou à falsificação de dinheiro junto a outros grupos libertários. Em plena invasão da Bahia dos Porcos (1961), ofereceu à embaixadora de Cuba na França destruir com explosivos interesses dos Estados Unidos no país. A proposta foi negada pela diplomata, mas esta resolveu lhe apresentar a Che Guevara, o qual Lucio conheceu em 1962 e com quem travaria vários debates sobre a Revolução Cubana e discussões a respeito das estratégias parar derrubar o capitalismo.

Foi em meados dos anos 1970 que golpeou o Capital com maior força, falsificando 20 milhões de euros em cheques do Citibank (então chamado First National Bank). Por este golpe do falsificador, o banco quase quebrou, pois suas ações caíram vertiginosamente na bolsa.

O dinheiro falsificado ou expropriado nas ações realizadas por Lucio e seus cupinchas sempre era utilizado em prol das guerras sociais, muitas vezes em apoio às lutas travadas na América Latina, como os Tupamaros no Uruguai ou os Montoneros na Argentina, e à luta antifranquista e antifascista na Europa. Ajudou na preparação do sequestro do nazi Klaus Barbie na Bolívia, participou das lutas do Movimento Ibérico de Libertação (MIL) e do Grupo de Ação Revolucionária Internacionalista (GARI) ao lado de muitos companheiros libertários e anarquistas, entre eles, Jean-Marc Rouillan. Apesar de ter recebido 5 ordens internacionais de busca, inclusive uma da CIA, no seu processo judicial, com o apoio de muitos advogados esquerdistas franceses, foi condenado apenas a 6 meses de prisão.

Lucio, orgulhoso do seu trabalho de pedreiro, que enxergava como força de mobilização revolucionária, praticaria sua profissão até os últimos anos da sua vida. Mais recentemente, participou de vários encontros com as novas gerações anarquistas na França e na Espanha. Confiando sempre nos seus ideais, reafirmava a legitimidade dos seus atos contra um sistema que enriquece ao mais rico e empobrece sempre ao mais pobre. Ainda em 2015, em um debate realizado em Barcelona, Lucio instigou os revolucionários de hoje a “pensar, imaginar e fazer”, por exemplo, documentos de identidade para imigrantes presos nos chamados centros de retenção da Europa central.

Aos 89 anos de idade, Lucio Urtubia faleceu no sábado, 18 de julho, na cidade de Paris. Sua trajetória de luta e as utopias por ele travadas ficarão inscritas nos corações dos rebeldes e gravadas, para sempre, na memória revolucionária.

Para conhecer um pouco mais sobre a vida de Lucio Urtubia, vejam o documentário de Aitor Arregi e José Mari Goenaga, “Lucio”, de 2007.

Para quem é mais de leituras, recomendamos os dois livros da sua própria autoria: “La revolución por el tejado” publicado em 2008 pela editora Txalaparta e “Mi utopia vivida” publicada em 2014 pela mesma editora.

Texto: Clémentine Tinkamó

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