Andanças campeiras na luta contra a megamineração: Primavera no Taquarembó

Já tínhamos passado do centro de Lavras fazia tempo. Na estrada de chão, as horas fluíram entre as flores da primavera pampeana e os campos ondulados. Parecia que ainda faltava bastante, até que avistamos o mata-burro, sinal de que havínhamos chegado.

Mário Witt, fotógrafo e pecuarista, nos recebeu com carinho e atenção. Depois de cumprimentar a nós e aos colegas do MAM, Amigos da Terra Brasil e CCMRS – que vinham no carro de trás -, voltou-se às lidas da casa. Descarregamos as coisas e ajudamos nosso anfitrião a preparar o ambiente, encantados com a vassoura feita com ramos de carquejas amarradas.

Sentamos na varanda e começamos a nos ambientar. As cuias circulavam junto com as ideias. Trovas fiadas e causos misturavam-se com planos e encaminhamentos para enfrentar o Projeto Fosfato. Ligamos para o vizinho Luciano Jardim e marcamos uma conversa com ele e sua esposa Laís Moraes. Antes de iniciar os preparativos para a janta, ainda presenciamos um pôr do sol espetacular.

Luciano e Laís nos contaram sobre a situação da luta contra o Projeto Fosfato entre os vizinhos das Três Estradas. Luciano também comentou a Licença Prévia emitida pela Fepam em outubro de 2019 e falou sobre todas as mudanças no projeto desde que a licença foi emitida. Circulavam rumores na região – alimentados inclusive por comunicados da empresa – de que o projeto não teria mais barragem de rejeitos nem pilha de estéril. No entanto, nos sites oficiais e documentos, não constava nenhuma alteração.

Os dois pecuaristas familiares também questionaram a maneira como as decisões estavam sendo tomadas. No caso, apesar de fazer parte do município de Lavras do Sul, a área que a empresa cobiça está mais perto de Dom Pedrito. Essa proximidade não se resume à distância, mas também por conta da hidrografia: as diversas nascentes da região de Três Estradas alimentam os rios Jaguari e Taquarembó, que desaguam no Rio Santa Maria. Já o centro de Lavras se abastece do Camaquã das Lavras.

“Imagine um prédio de 4 andares. Se houvesse uma infiltração no terceiro andar, gerando vazamentos e riscos para 2º e o 1º andares, não seria estranho se o quarto andar tomasse a decisão sobre o que fazer? Ainda mais se o quarto andar decidisse ignorar o sofrimento de quem está abaixo”, comparou Luciano Jardim. Para ele, uma Audiência Pública no centro de Lavras não pode decidir sobre algo que traz riscos a Três Estradas e Dom Pedrito.

Na sequência, conversamos com o pecuarista Edegar Franco. A barragem de rejeitos do Projeto Fosfato seria construída no fundo da sua propriedade. Além de falar da riqueza de espécies vegetais do campo, também comentou a pureza das águas da região: “A Universidade de Santa Maria fez uma análise, a água da cacimba aqui é quase mineral”. Edegar também explicou algumas das dificuldades de diálogo com os vizinhos que se colocavam a favor do empreendimento. “A Águia paga mensalmente um salário para a grande maioria das pessoas nas Três Estradas. Como é que tu briga com um cara que recebe salário? Outra coisa, vou me atracar a brigar com o meu vizinho?”.

Agora, quase uma primavera depois, o Projeto Três Estradas assume uma nova importância na luta contra a mineração no Rio Grande do Sul. Em junho deste ano, a empresa anunciou que estava em contato com a FEPAM, fazendos as adaptações no projeto para conseguir a Licença de Instalação. Se a licença for concedida, Três Estradas pode ser a porteira aberta para que passem os outros projetos de megamineração.

Texto: Bruno Pedrotti
Fotos: Billy Valdez

 

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