Se vai com Tupã o Grande Guerreiro Kaingang Nelson Xangré

Iracema Nascimento e Nelson Xangré em 2019, foto: Alass Derivas.

Símbolo da luta anti-colonial kaingang, aos 75 anos, Nelson Xangré deixa este mundo para uma viagem até a aldeia dos defuntos…
Falar de Nelson Xangré, é falar da história do Brasil. De um país que perpetuou, ao longo dos últimos séculos, a dominação sobre os povos originários que os submeteu à superexploração do trabalho e transformou suas florestas em um deserto verde.


É falar de promessas que nunca se cumpririam e de velhas técnicas de submissão empregadas pelos dominadores para manter em pé a ordem colonial. Mas, sobretudo, é falar de rebeldia, da insurgência indígena e dos sonhos de liberdade de um povo que buscou, em plena ditadura, romper com o sistema de exploração e dominação implementado pelo Estado brasileiro nos seus territórios. Os Kaingang foram um dos primeiros povos a se organizar e levantar-se contra a opressão do Regime Tutelar em plena ditadura militar, Ângelo Kretã, Nelson Xangré, José Domingos, para citar alguns, se organizam para retomar seus territórios e libertá-los, não só dos intrusos que ali se encontravam mas, também, da opressão a qual os representantes do Estado os submetiam. “A nossa luta é uma só, é a luta da miséria contra a fortuna”, essas são palavras do companheiro de Xangré, Ângelo Kretã, assassinado em 1981 em Mangueirinha (PR). O fervor revolucionário dos Kaingang ecoaria em todo o país e se multiplicariam os levantes indígenas. A insurgência dos Kaingang impulsionaria também os levantes camponeses que dariam nascimento na região, alguns anos mais tarde, ao Movimento Sem Terra (MST).
A história nos ensinou que a cada revolução segue uma contra-revolução, a dos Kaingang não foi diferente. Após a retomada de Nonoai, no fim dos anos 70, os funcionários da FUNAI se empenharam para pôr fim aos ímpetos de autonomia e liberdade dos grupos kaingang. As lideranças mais radicais, incluindo Xangré, foram rapidamente afastadas da política ou mesmo transferidas para outras áreas. Algo que Xangré denunciará. Numa entrevista com o jornal Porantim em 1980, ele declarou que foi alvo de múltiplas ameaças de morte: Isso aí foi por uns funcionários da FUNAI. É que eu não deixava a FUNAI torcer meu braço”. Seguindo fiel ao seu pensamento e seus valores até o fim da sua vida, Xangré inspirou muitos jovens kaingang que perpetuaram sua luta. Ergueram-se novas lideranças como Augusto Opẽ da Silva, antigo cacique de Iraí que lutou sua vida inteira pela “globalização das lutas, contra a globalização da opressão”, ajudando os Kaingang a demarcarem territórios nos quatro cantos do Rio Grande do Sul. Luís Salvador, o Cacique Saci, segue hoje a caminhada iniciada por Xangré e travada por Augusto, ajudando a multiplicar as retomadas kaingang no estado e a (re)construir a autonomia do seu povo. Da mesma forma que Xangré sonhava em expulsar os colonos e os representantes da FUNAI para seu povo ser livre e praticar novamente o ritual do Kiki, Saci, em julho de 2016, acompanhado dos seus companheiros Kaingang de outras terras, libertou seu território que logo reflorestou com mudas de araucárias, a árvore sagrada dos Kaingang.Deixa este mundo um dos maiores líderes indígenas do país mas, como se diz: “só morre quem é esquecido”, com certeza, a trajetória de Xangré, sua coragem, seu espírito guerreiro e seu pensamento ficam marcados, para sempre, na memória das jovens lideranças determinadas a lutar para descolonizar o Brasil.

Xangré e seus companheiros durante a retomada de Nonoai. Foto: Ricardo Chaves.

Para quem quiser, deixamos pendurado o documentário de Zelito Viana: “Terras dos Índios” realizado em 1978. Neste, encontram-se depoimentos de Nelson Xangré .

Texto: Clémentine Tinkamó

Um comentário em “Se vai com Tupã o Grande Guerreiro Kaingang Nelson Xangré

  • 24/07/2020 em 21:15
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    Xangrê meu amigo se foi ontem. Fica seu legado em prol das políticas de terras indigenas e mobilizações políticas dos indígenas! Um líder dos grandes. Saudades!

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