Primeiro Ensaio Fotográfico Retomada Kaingang de Canela

 

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Retomar, para os povos indígenas, é um ato muito mais complexo e profundo do que podemos perceber. Um território contém não apenas recursos e espaço, mas memória, cultura, espíritos dos antepassados.

O ato de retomar é mais do que a exigência da garantia dos direitos que os povos indígenas fazem frente ao estado e à sociedade, é uma maneira de fazer isso ao mesmo tempo em que se renovam os laços com os antepassados, com as práticas tradicionais, com o modo de vida e com os seres da natureza que fazem parte dele. Retomar uma terra é também retomar tantos aspectos que são a fortaleza que permitiram que os povos indígenas sobrevivam séculos de colonização e ainda manterem sua cultura.

Os campos e as florestas onde hoje se ergueram os modernos municípios de Canela, também de Caxias do Sul e outros, foram, até a primeira metade do século XIX, territórios de resistência dos Kaingang. Hoje em dia essas cidades se orgulham de sua ascendência européia e escondem a parte violenta da colonização, a expulsão e perseguição dos indígenas que viviam nesses territórios. Talvez por isso seja tão importante a tão difícil a retomada de um território nessa região. O cacique Maurício Salvador segue os passos de seu pai, Zílio Jagtỹg, que há mais de dez anos já lutava para que esse território volte a ser um espaço onde a cultura Kaingang possa florescer, e onde a memória de resistência dos antigos – como do cacique João Grande/Nicué – não seja esquecida, para que a história não vire uma sequência de empreendimentos que destróem a natureza e os seres que nela habitam.

Essa sequêcia de fotos foram tiradas em alguns encontros de pesquisadores e parceiros da luta indígena no final do ano passado e início desse ano. No momento, há forte interesse de empresários e políticos, incluindo o ministro do meio ambiente (que já foi condenado por improbidade administrativa) na concessão da Floresta Nacional de Canela para a iniciativa privada explorar o turismo. O ICMBio, órgão que administra a floresta está altamente sucateado e não tem condições de cumprir sua função, que é manejar a floresta, importante local de preservação da araucária e de outras espécies importantes, que são conhecidas pelos Kaingang há milênios. Devido à pandemia e a pressão dos Kaingang e seus aliados, o processo de concessão está suspenso por enquanto, mas continuamos observando e alertando para que esse patrimônio ambiental e cultura dos Kaingang não caia na mão de interesses escusos.

Guilherme Maffei, historiador.

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