Breque na exploração

Jornadas de trabalho de 15 horas, Joelhos arrebentados aos 18 anos, “bloqueios”, superexploração, perseguições, abusos de todo tipo. Em 2020, esta é a vida de mais de 3,8 milhões de trabalhadores brasileiros. Consequência direta da virtualização das relações de trabalho, os entregadores são a nova mão de obra descartável da modernidade. Não são humanos, são números de pedidos.

Sábado, 25 de julho, o “breque dos apps” em Porto Alegre. Na frente do McDonald’s da 24 de outubro, rodeados pela Brigada Militar, os entregadores grevistas nos relatam suas condições de trabalho. “Eu me sinto um burrinho de carga”, diz a jovem Luana, 18 anos, que foi demitida do seu emprego há 4 meses e decidiu, para não morrer de fome, se cadastrar nos apps. A jovem conta que faz uma média de R$ 50 por dia, levando em torno de 12 pedidos para casas de terceiros, correndo, em media, 50 km de bicicleta pelas ruas da cidade. Com as horas pedaladas, Luana estourou o joelho, mas, sem acesso a um seguro de saúde, é forçada a seguir trabalhando para sobreviver. Ainda, nos relata que recebeu pedidos impossíveis de cumprir, como o de um saco de 10kg de ração a carregar de bicicleta e subir no sexto andar de um prédio com o elevador estragado. O medo de ser bloqueada faz com que siga testando os limites de seu corpo.

Ao meio dia, o protesto segue em marcha, motos e bicicletas à frente, até o McDonald’s da Avenida Silva Só. Dessa vez, tem trabalhadores de aplicativos de transportes somados no breque. São poucos, mas seguem firmes, cientes de que há muito o que construir em relação à organização e engajamento da classe. No caminho, alguns entregadores, estacionados na frente de um restaurante, fazem gestos de incentivo, mas não aderem à caminhada. Já na esquina da Ipiranga com a Silva Só, o ato se dá em frente ao sinal fechado. Bags são colocadas umas em cima das outras, e, de posse de um megafone, um entregador explica aos motoristas parados o porquê daquele ato.

Sem serem reconhecidos como trabalhadores pelas empresas iFood, Rappi, Uber eats, entre outras, os entregadores são submetidos a todas as decisões tomadas pelas empresas. Onde ir, tempo de espera de pedidos, valores pagos por corrida – informado apenas após a entrega realizada.

É o que nos conta Daniel, um entregador que trabalha com carro, ao denunciar a remuneração muito baixa das corridas que ele fez. Na sexta, 24 de julho, foi chamado à meia-noite para uma corrida de 8,6 km pela Uber eats no bairro Moinhos de Ventos. Sem saber quanto ia ser pago, aceitou a corrida e dirigiu rumo ao local da entrega. Quando finalizou a corrida, apareceu na tela do celular: “Seus ganhos: R$ 4,43” – ou seja, um preço inferior à passagem de ônibus, inferior a um litro de gasolina. Daniel, basicamente, pagou para trabalhar.

A dinâmica dessas start-ups, que tratam os seus “colaboradores” como “empreendedores de si mesmos”, ainda impõe a necessidade de que bags com custo de R$ 150 e jaquetas de R$ 120 sejam pagas pelos trabalhadores. Fora as despesas de manutenção das motos, bikes e carros. Muitos entregadores têm que seguir trabalhando apenas para pagar as dívidas da compra da bike, do aluguel ou compra do carro ou das reparações dos acidentes (de trabalho).

Pouco depois do meio-dia, a marcha segue pela Ipiranga até o Burguer King, sempre escoltada por viaturas da EPTC e da Brigada Militar. É nesse momento que conversamos com Mame, um jovem senegalês que foi demitido do seu emprego no início da pandemia e resolveu baixar os aplicativos para fazer entregas de bicicleta. Ele nos contou que são muitos os senegaleses que viraram entregadores e pede aos clientes um pouco de solidariedade e compreensão. Afinal, os entregadores não querem que os clientes paguem mais dinheiro para seu lanche, mas apenas que os donos dos aplicativos repartam a riqueza que ganham nas costas (literalmente) dos entregadores. Exigem o devido reconhecimento, pois, como bem nos dizem os entregadores, “sem nós, não existe iFood, não existe Rappi, não existe entrega…”.

As empresas castigam seus “colaboradores” “bloqueando-os” das plataformas e impedindo-os de trabalhar. Cancelou uma entrega, será bloqueado; teve um problema com algum pedido, bloqueado; participou do breque dos aplicativos, bloqueado… Os donos dos aplicativos se vingam dos trabalhadores que ousam exigir direitos, rastreando os entregadores pelo GPS. Vários participantes do primeiro breque dos apps (dia 1º de julho) foram identificados e logo foram impedidos temporariamente de trabalhar nas plataformas. Uma jovem motorista que trabalha nos aplicativos de transporte também nos relata que foi castigada por uma das empresas. Após denunciar um passageiro que a beijou na boca à força, a jovem foi bloqueada da plataforma temporariamente até se “averiguar a situação”. Como se não bastasse o abuso sexual do cliente, o patrão, em vez de tomar providências para auxiliar à trabalhadora, simplesmente se desfez dela.

Logo, a caminhada reinicia e pega a Rua Lima e Silva em direção ao Largo Zumbi dos Palmares. Enquanto entoam cânticos de luta, recebem apoio de pessoas nas janelas e calçadas na Cidade Baixa. Durante a pandemia, os entregadores arriscam suas vidas para que outros possam ficar em casa. Com quarentena ou não, são constrangidos a trabalhar sob quaisquer condições. E os donos dos aplicativos se negam a pagar um auxílios financeiros para os trabalhadores que pegaram o Covid-19, que tenham familiares doentes ou para pessoas consideradas em fator de risco. Além disso, os trabalhadores têm que pagar seus próprios EPIs. Há aquelas que oferecem um kit com uma máscara descartável e um frasco de álcool em gel de 50 ml. Feita a retirada do kit, seu nome entra para o cadastro e não é possível pegar outro. Em uma rápida pesquisa na internet, é possível se observar que em apenas 4 anos a colombiana Rappi já possui um valor de mercado de 3 bilhões de dólares…

O ato se encerra no Zumbi dos Palmares. O grito de libertação será dado em conjunto, quando a maioria dos que fazem girar fortunas, na entrega de alimentos, se organizarem para lutar por direitos. Constituindo-se como uma nova categoria de trabalhadores, os entregadores de aplicativos estão travando uma luta contra um patrão que os recebe com mensagens automáticas e que, quando começam a incomodar demais, os banem dos aplicativos. Inicia-se, então, uma luta difícil que precisa ser acompanhada pela sensibilidade e pela solidariedade dos clientes e da sociedade em geral.

Durante um improvisado salchipão, feito no canto da pracinha do Largo, seguiram aqueles que sonham com melhores dias. Identificados pela linguagem e a vivência nas periferias, é importante passar aos outros que lutar passa por construir juntos maneiras de enfrentar o medo da repressão policial e do bloqueio dos apps. De tecer uma consciência coletiva de classe e pensar na autogestão como uma alternativa à exploração. “Despatronados”, por exemplo, é o nome da cooperativa dos entregadores antifascistas criada recentemente no Rio de Janeiro e procura oferecer os mesmos serviços que os apps, mas sem explorar ninguém.

Esses são desafios de uma luta que é um processo de diálogo real, com o mundo virtual, numa briga híbrida, diz Ezequiel, que há 3 anos faz entregas e aposta no fortalecimento dos contatos diretos com a rede de clientes, como uma forma de alternativa à exploração dos aplicativos. Ao entardecer de um dia frio em Porto Alegre, os laços são fortalecidos no encontro de ideias e objetivos.

Veja também, o vídeo editado por Billy Valdez:
https://www.instagram.com/p/CDErYfzgUTg/?igshid=3jnwxs72e576

Texto e fotos: Marcelo Cougo e Clémentine Tinkamó.

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