3 anos do desaparecimento forçado do anarquista Santiago Maldonado

No dia 1º de agosto de 2017, pelotões da Gendarmeria Nacional argentina invadiram, sem ordem judicial, a comunidade Mapuche Pu Lof em Resistência de Cushamen na província de Chubut, ao sul da Argentina. As forças policiais armadas irromperam na comunidade e reprimiram os integrantes da comunidade com balas de borracha e perdigões de caça além de queimar seus pertences. Santiago Maldonado, “Lechuga” como era conhecido por seus amigos e companheiros, anarquista e solidário da luta do povo Mapuche, acompanhava a comunidade no processo de recuperação das suas terras e, após ser detido pela Gendarmeria Nacional, despareceu nas mãos do Estado argentino durante 78 dias. Em 17 de outubro do mesmo ano, seu corpo foi encontrado no rio Chubut.

Santiago Maldonado, “el lechu”

O desaparecimento forçado de Santiago Maldonado tem indignado o país, que lembrou dos tempos tenebrosos da ditadura. A Argentina se levantou, e milhares de pessoas saíram nas ruas exigindo do governo argentino a aparição com vida do jovem anarquista. Ecoando para outros lugares do mundo, inclusive no Brasil, manifestações e ações diretas foram realizadas apontando o Estado como responsável pela sua desaparição. Até nos estádios de futebol, os jogadores e torcedores se manifestaram durante a 89a temporada do futebol argentino.

Foto: Coordenação Guevarista
Foto: Telám – Victor Carrera
Fonte: argentina.as

Longe de se considerar um “cidadão de bem”, Santiago Maldonado acreditava na ação direta, na autogestão e na solidariedade combativa. Era anarquista. E é isso que o levou a juntar-se ao povo Mapuche acompanhando a Pu Lof em Resistência na luta pela recuperação dos seus territórios, como afirma Matías Capelli. Também artista, músico e tatuador, Santiago expressou suas ideias nas peles dos seus amigos, nos muros das cidades e nas rimas de rap.

Desenho de Santiago Maldonado em homenagem ao anarquista Severini Di Giovanni

A luta do povo Mapuche em Cushamen

A comunidade ao lado da qual Santiago estava lutando, recuperou parte do seu território ancestral em 2015, reocupando a estância Leleque, então propriedade da empresa de moda italiana Benetton. A companhia, que registrou em 2016 um lucro liquido de 1,6 bilhão de euros (R$ 9,84 bilhões), possui mais de 900.000 hectares na Argentina e atua na região sob o nome de “Compañia de Tierras Sud Argentina”. Em Chubut, a Benetton possui 356 mil hectares e, desde 2004, foi isenta de pagar o imposto imobiliário rural, uma isenção que existe apenas por uma decisão política do governo da província já que não há lei ou decreto que a justifique.

Fonte: El Coyote

Na Pu Lof em Resistência de Cushamen, chegou, em 2016, o Lonko Facundo Jones Huala que tinha sido detido no Chile em 2013 acusado pelo Estado chileno de “violação da lei de controle de armas e ingresso ilegal ao país (sic)”. A justiça argentina outorgou uma ordem de detenção contra a liderança Mapuche assumindo que poderia ter participado da queima do refúgio turístico Neumeyer nas proximidades da cidade de Bariloche. 3 meses depois, o jovem Lonko foi liberado. Um mês após esses acontecimentos, em junho de 2016, o Grupo Especial de Operações Policiais (GEOP) junto à Guarda de Infanteria da Policia Provincial invadiram a Pu Lof em Resistência com violência em busca do “gado da Benetton”. A operação deixou muitos feridos e 7 pessoas foram detidas, mais de 242 cartuchos foram encontrados no local.

Fonte: Notícias del Bolson

Em setembro do mesmo ano, a comunidade Mapuche bloqueou o passo do trem turístico “La Trochita”, que, na tentativa de negociação do gerente do serviço, Bruno Peláez, a comunidade afirmou que deixariam o bloqueio somente no caso da empresa pedir autorização para a comunidade a cada passagem do trem, negando-se a qualquer outra forma de diálogo. Outros bloqueios de estradas seguiram acontecendo na Ruta Nacional 40, sendo estes reprimidos pela Gendarmeria Nacional.

Em 10 e 11 de janeiro de 2017, a comunidade foi novamente alvo de uma truculenta operação policial realizada pela Gendarmeria Nacional e a polícia da Provincia de Chubut. Os Mapuche, inclusive as crianças, foram atacados a tiros pelas forças policiais que também destruíram suas pertenças. Vários integrantes da comunidade foram detidos.

Policiais atacam a Pu Lof em Resistência em Cushamen. Fonte: El país, 13 de janeiro de 2017

Em finais de junho de 2017, Facundo Jones Huala é novamente detido, uma detenção que não deixou indiferente os Mapuche, que organizaram manifestações exigindo sua liberdade. No dia 31 de julho, foi organizado um bloqueio na frente do Julgado Federal de Bariloche em solidariedade com Lonko. Os manifestantes foram reprimidos, e, mais uma vez, a Gendarmeria Nacional deteve a muitas pessoas. Foi, então, no dia seguinte, que se produz uma nova invasão na Pu Lof em Resistência onde encontrava-se Santiago Maldonado e onde foi feito desaparecido pela Gendarmeria Nacional e o Estado argentino.

A multinacional Benetton, por sua vez, reclama os direitos de propriedade sobre o território da Pu Lof em Resistência, afirmando que desconhece os “direitos reclamados pelos indígenas” e que os considera “usurpadores”. Para proteger a multinacional, a Gendarmeria Nacional instalou um destacamento irregular no casco da estância da empresa.

Em relação aos resultados da investigação do chamado “caso Maldonado”, até hoje todos os policiais envolvidos na sua morte seguem impunes assim como os funcionários políticos responsáveis como a então Ministra de Segurança Patricia Bullrich.

Se o desaparecimento de Santiago revoltou milhares de pessoas, na Argentina e país afora, a repressão e perseguição política vivida pelo povo Mapuche forma parte de um cotidiano que se enraíza na estrutura colonial dos Estados-Nações e que costuma deixar a “sociedade envolvente” na mais profunda indiferença. Uns meses após, em 25 de novembro de 2017 foi assassinado o jovem mapuche Rafael Nahuel nas mãos do cabo Francisco Javier Pintos durante o desalojo da comunidade Lafken Winkul Mapu nos arredores do lago Mascardi na província de Rio Negro, um desalojo que deixou mais dois Mapuche feridos com impactos de bala.

Rafael Nahuel – Fonte: en estos días
Rafael Nahuel é assassinado em 25 de novembro de 2017 – Fonte: El Coyote

Hoje, Facundo Jones Huala, encarcerado na prisão de Temuco, está realizando uma greve de fome chamando seus peñi à perpetuar a weichán, a guerra ancestral Mapuche e solidarizando-se com o Machi (liderança espiritual Mapuche) Celestino Córdova, em greve de fome há 88 dias.

Lonko Facundo Jones Huala em 19 de julho de 2020. Fonte: Radio Kurruf

Nova desaparição forçada…?

Facundo Astudillo Castro, jovem de 22 anos, está desaparecido há 3 meses na Argentina. Foi visto a última vez num quartel policial onde lhe lavraram um auto por ter violado a quarentena. Conforme o jornal argentino infobae, o último que se soube de Facundo foi que, no dia 30 de abril, o jovem saiu da sua casa para ir visitar sua companheira em Bahía Blanca. Foi detido por um controle policial por não ter respeitado o isolamento social. Na sua última comunicação com sua família, o jovem fala por telefone com sua mãe e lhe conta que não iria voltar a vê-lo nunca mais: “Mamá, vos no tenés idea dónde estoy, no me vas a volver a ver más”. Assim, a família do jovem está convencida que seu filho foi desaparecido propositalmente pelas forças da ordem, e o advogado da família, Leandro Aparício, denunciou que ao menos 9 oficiais da polícia de Buenos Aires despregaram um plano de encobrimento que inclui “demoras nas rastilhagens, pistas e testigos falsos”.

Cumpre-se hoje, sábado 1º de agosto de 2020, 3 anos do desaparecimento forçado de Santiago Maldonado. Para se saber mais sobre sua história, o que o levou a lutar ao lado do povo Mapuche assim como sua caminhada na luta anarquista, deixamos uma recomendação de leitura, um livro escrito por seus companheiros e amigos. “Wenüy. Por la memória rebelde de Santiago Maldonado”,  editado por lazoediciones”.

Deixamos também o programa de rádio Aire de Libertad, que realizou na quinta-feira um especial pela memória rebelde de Santiago Maldonado.

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