Mineração se expande rumo à campanha gaúcha

Águia Fertilizantes se articula para obter Licença de Instalação em Lavras do Sul. A empresa também busca licença para outras quatros minas de fosfato e oito de cobre na região da campanha. Pesquisador da FURG adverte: “Se um desses empreendimentos se instalar, tem um cenário muito favorável para a instalação dos outros”.

Sérgio Barcellos é professor de Sociologia na Universidade Federal do Rio Grande e coordena o Grupo de Pesquisa em Dinâmicas Políticas, Estado e Movimentos Sociais (DIPEM/FURG). Desde 2016, vem estudando o tema da mineração no Rio Grande do Sul, tendo acompanhado a resistência contra o Projeto Caçapava do Sul e o surgimento do Projeto Três Estradas.

Em entrevista realizada por chamada de vídeo, o pesquisador falou sobre o contexto da expansão da fronteira minerária do Brasil para o Rio Grande do Sul. Reforçou a importância de se pensar os cenários nacionais e mundiais que constroem projetos de negócios que impactam diretamente a vida nos territórios: “Existe todo um plano de crescimento gradual do PIB Brasileiro a partir da mineração, da Balança Comercial da mineração. O Brasil se situa nesse cenário internacional da mineração e desses investimentos, não só de transnacionais, mas do Banco Mundial”.

Sérgio explicou que os projetos de mineração não são fins em si, mas que estão articulados. Citou uma recente abertura de ações da Águia na bolsa de valores australiana: “Essa abertura de ações é no sentido de eles instalarem outros empreendimentos na região para a extração de cobre, não é só mais fosfato”. 

No site australiano da empresa, estão disponíveis apresentações corporativas para os acionistas, que detalham melhor esse interesse no cobre gaúcho. Entre Caçapava e Lavras, a empresa possui 8 projetos de mineração de cobre em fase de pesquisa. Rancho Grande, Carlota, Andrade, Primavera, Passo Feio, Seival, Canhada e Lagoa Parada compõem o Projeto Rio Grande, de exploração de Cobre no Escudo Cristalino Sul Riograndense. Segundo informações passadas aos acionistas em março de 2020, a empresa pretende apresentar o EIA Rima do projeto em 2021 e espera estar minerando cobre até 2024.

 

De acordo com Sérgio, existe uma valorização da liga do cobre no mercado internacional. O pesquisador também levanta a hipótese de que exista um interesse em minerar ouro no local, já que locais com reserva de Cobre costumam ter também depósitos de ouro.

Para fazer essa exploração, no entanto, a empresa precisaria superar alguns problemas de logística na região, já que essa exploração demandaria alto consumo de energia elétrica. Outra hipótese levantada pelo professor da FURG relaciona a mineração com os projetos de hidrelétricas no Camaquã e em outros rios do pampa, bem como o investimento chinês em linhas de transmissão de energia no interior do estado.

Além disso, a Águia também possui outros 4 projetos de mineração de fosfato entre Caçapava e Lavras. Destes, Santa Clara, Porteira e Joca Tavares ficam em Lavras, próximos a Três Estradas – para se ter uma noção, Joca Tavares está a 35 km de Três Estradas. A empresa também anuncia o projeto Lucena, para produção de fosfato na Paraíba.

Sérgio adverte para a importância de se pensar os mercados internacionais. Segundo ele, esse fosfato pode estar mirando os mercados chineses: “A China voltou a investir em agricultura, voltou a investir na sua produção e na sua soberania alimentar. Não vai ser só um fosfato para essa região. O fosfato vai ter um mercado certo, que é esse nicho na China”.

Estratégias para a L.I.

Em maio deste ano, a Águia protocolou uma série de alterações no projeto de mineração. As alterações apontam para uma primeira fase do projeto em tamanho reduzido, sem barragem de rejeitos, sem uso de água. Para Sérgio Barcellos, professor da FURG, que vem acompanhando o projeto desde 2017, a ação é estratégica:

Eles já deixam preparada uma alteração pra uma remodelação, para tornar o projeto mais aprazível. Em um primeiro momento, mas, na segunda e na terceira fase de implementação, o projeto é tão parecido com a proposta inicial ou mais ampla, com extração por mais tempo, envolvendo inclusive a possibilidade de extrair mais minerais – ou em maior quantidade – o mineral proposto”.

Apesar da fase 2 estar prevista para 20 anos após o inicio da operação, Sérgio recorda casos em outros locais do Brasil em que o tempo previsto entre uma fase e outra foi radicalmente encurtado: “Essa fase 2 seria daqui a 20 anos. Mas, em uma das lives do Comitê de Combate à Megamineração, a Marta de Freitas, da Coordenação Nacional do MAM (Movimento pela Soberania Popular na Mineração), relatou que esses vinte anos daqui a pouco são cinco, são quatro…”. Na visão do pesquisador e professor, isso acontece por conta das “fragilidades e brechas que se tem na legislação ambiental brasileira”. 

De acordo com Sérgio, a empresa está se preparando para ter a Licença de Instalação até o final do ano ou início do ano que vem. Caso ela consiga a segunda das três licenças ambientais para se instalar, pode criar um ambiente favorável para que os outros megaprojetos de mineração se instalem. Não é uma relação direta, mas a partir daí surge um “ambiente favorável para os investimentos”.

 

Fotos: Billy Valdez
Texto: Bruno Pedrotti

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