Novamente, milhões de abelhas mortas no RS

Já não bastasse o desastre das primaveras que passaram, culminando em 2018, quando meio bilhão de abelhas foram dizimadas pela aplicação ilegal e indiscriminada de fipronil nas lavouras de soja em uma área que compreende os municípios de Mata, Alegrete, Manoel Viana, entre outros, os apicultores da região voltam a temer a estação mais bela do ano. Uma época de florada e abundância, supostamente de tranquilidade para quem trabalha com a natureza e com os agentes que processam a matéria-prima que vem das flores, que geram o doce mel, mas que passa a ser motivo de ansiedade e insegurança – ainda mais quando os momentos prévios já reservam péssimas surpresas em seus apiários.

Neste fim de julho e início de agosto de 2020, foi registrada nova mortandade de milhões de abelhas em virtude da aplicação de agrotóxicos em lavouras lindeiras aonde estão instaladas as colmeias. Um dos apicultores mais atingidos – hoje e então – foi Adi Pozzatto, 75 anos – destes, 55 trabalhando diretamente com mel. Ele estima em cerca de 100 colmeias perdidas, mas, em conversas com outros produtores da região, já contabiliza mais de 250 caixas completamente dizimadas – multiplique-se este número por 60.000, que é a estimativa que se tem de abelhas por caixa, e chega-se ao número estarrecedor de mais de 15 milhões de abelhas mortas. Isso somente em 3 dias de ação do veneno.

Adi Pozzatto e outros apicultores acionaram um grupo de advogados que os acompanha nesta inglória luta já há alguns anos. Agora, espera-se confirmar através de laudos oficiais o efeito devastador ocorrido neste meio de inverno e que se consiga não comprometer ainda mais uma estação que favorece a produção de mel e que economicamente afeta não somente os apicultores, mas a toda uma cadeia de produção que depende, inclusive, da polinização que as próprias abelhas oferecem. Neste caso, Leonardo Pillon, um dos advogados acionados, estima que somente o Sr. Adi teve um prejuízo direto de R$ 50.000,00. Pillon informa ainda que apenas aguardam o resultado das coletas encaminhadas junto a EMATER e Inspetoria Veterinária para serem tomadas ações diretas com relação ao ocorrido – tendo sido lavrado também Boletim de Ocorrência junto à polícia – visto que se está constatando que a aplicação dos venenos se deu de forma ilegal em áreas de plantação de nabo em época de floração.

Em se tratando de abelhas, casos como esses sempre apresentam números tão grandes como os prejuízos ambientais e econômicos que geram. As aplicações de agrotóxicos em lavouras com florada como o nabo e a soja fazem, muitas vezes, com que as abelhas não morram na hora e carreguem para as suas colmeias o veneno, causando a morte de todos os indivíduos da colônia e inutilizando inclusive todas as caixas e o mel restante. As agroindústrias que beneficiam o mel da região, além de trabalharem com os mercados locais, realizam exportações na casa das toneladas – desta feita, na primeira semana de agosto, a quebra já está se calculando em cerca de 10.000 kg e, mais uma vez, um risco gigantesco para a reputação do mel gaúcho.

É uma hecatombe que segue ocorrendo como se fosse a boiada passando pela porteira escancarada.

A seguir, um relato direto de Adi Pozzato para a nossa reportagem:

Aqui abaixo, a video-reportagem que produzimos com os apicultores atingidos e em coprodução com a APISMA, APISBio e UITA, sobre os ocorridos em 2018:


Fotos: Adi Pozzatto e Cristiano Rossignollo
Reportagem: Marcelo Cougo e Gustavo Türck

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