Uma carta para minha filha

(escrita de um lugar que nem todos estão, mas que eu estou)

Oi, minha filha. Tudo bem? Escrevo este texto inspirado no que me falaste numa tarde recente. Numa brincadeira, em homenagem a um dia que não comemoro, porque o creio falso, me disseste, na frente de coleguinhas com seus pais e da sua profe, que gostarias que eu seguisse sendo o melhor pai do mundo.

Claro, uma ideia repetida entre todos praticamente. Todas aquelas crianças e seus pais encaixotados em pequenas telinhas dentro de um telefone celular ou de um notebook. Assistimos à tua valente profe lutar com o entendimento de todos da ferramenta e desbravar a nossa própria vergonha de nos expormos, uns aos outros, com este singelo desejo repetido pelo Victor, pelo Pedro, pela Maria, por você…

Hoje, em 2020, essa ideia é a mesma de quando eu pensava do que queria do meu pai em 1986 – e nos anos seguintes. Aliás, sempre pensei isso. Imagino que todo mundo siga pensando isso. Mas, muito provavelmente, uma parte muito pequena tenha realmente visto isso acontecer – pois eu vi. E sigo vendo. Meu pai é, sim, um herói. Muitos pais foram e seguem sendo heróis, mesmo depois de suas histórias terem se terminado aqui neste mundo concreto.

E nós, minha filha? E eu?

E que época para ser o melhor pai do mundo, não é mesmo? O que eu posso fazer? Como ser parte de tua segurança? Um ser tão pequeno, tão em construção, abismado com as cores que descobre, os bichinhos, a vida… Tudo é um universo novo. Como é possível manter esse lindo deslumbre por mais quanto tempo?!

Pela luta de teus avós, da tua mãe e minha, até aqui, nossos caminhos são relativamente tranquilos – não, sejamos francos, são incomparáveis com uma boa maioria da população que cruzamos diariamente nas ruas, quando caminhamos de mãos dadas observando o que nos cerca. A delicadeza do teu toque, da tua mãozinha, contrasta com a rudeza daquele mundo ali fora, que a cada esquina nos pede dinheiro, que constroi casa e banheiro por sob marquises, que a gente sente o cheiro e comenta a tristeza – esse é o mundo real, que nunca, tua mãe e eu, deixamos de te mostrar.

E talvez aqui esteja o meu grande papel de seguir sendo o melhor pai do mundo – de não te esconder absolutamente nada. Tu tens a pele branca, tu és privilegiada. Tu vais à escola particular, tu és privilegiada. Tu tens gente que te ama constantemente ao teu redor, tu és privilegiada. E o mundo, meu amor… O mundo não é assim – não é como este teu mundo até aqui.

Nesse mesmo lugar em que vivemos e que procuro te mostrar, as pessoas são violentadas constantemente por terem cor de pele diferente, por serem de gênero diferente – papai é um homem branco, papai é, ao mesmo tempo, o teu amor e porto seguro, mas também a representação daquilo que de pior existe neste planeta, possivelmente a maior ameaça à tua vida. Difícil entender isso, não?

Fofinha, o mundo é terrível, sim. Há violência por todos os lados. O dinheiro faz com que pessoas se utilizem umas das outras para propagar mortes. Usam governos para o seu próprio prazer, jogam bombas, oferecem veneno como se fosse remédio para doenças… E eu aqui, pai, pensando em como te proteger disso tudo!

Mas aqui, agora, ouvindo a trilha sonora de Moana, entendo que sou também aquele que te deu o Sol. Que te deu a Lua. Que te viu vir à tona de dentro da pessoa mais importante em tua vida – talvez aqui esteja minha grande vantagem para tua mãe, ela não viu o que vi, ela não assistiu de camarote o que assisti, mesmo que aquela “dor” que sentia fosse o ápice da existência e só pertencesse a ela naquele momento. Os primeiros olhos a tocarem a tua imagem foram os meus…

Os gatinhos sentam no sofá, os peixinhos curtem uma noite quente dando botes na superfície no nosso pequeno lago, achando que as pétalas de pitangas são a sua comida, o balanço da praça aqui perto há de ranger novamente alguma hora da noite outro dia. Há mais rios para conhecermos, mais árvores para subir, mais bolas para chutar ou cachorros para dar carinho. Há mais gente para a gente conhecer.

Minha filha, pequena grande menina. O que eu posso fazer para seguir sendo o melhor pai do mundo é exatamente o que já fazemos – tua mãe, eu, teus avós e uma boa rede de pessoas que te amam. Nós te mostramos o mundo, nós constantemente te afirmamos que a temos ao nosso lado.

São histórias emaranhadas, de várias pessoas, que se entrelaçam em NÓS e que nos dão a certeza de que JUNTOS a gente vai passar por isso tudo…

Um beijo,
pai.

3 comentários em “Uma carta para minha filha

  • 09/08/2020 em 15:09
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    Muito lindo, Gustavo. Grande mensagem para todos pais, filhas, filhos e avós.
    A verdade é aquela: tudo que precisamos é amor. O amor gera seres amorosos.

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    • 09/08/2020 em 16:22
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      Grande, Melga!
      Estamos mais juntos que nunca!

      Resposta
      • 09/08/2020 em 16:38
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        Lindo e emocionate texto Gustavo! Abraçosss

        Resposta

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