Resgatando a câmera do lixo e seguindo as palavras das guardiãs dos saberes e das florestas

Enxergando na luta e na vida dos povos indígenas o caminho do futuro para a humanidade, a jovem cineasta e antropóloga Paola Mallmann realizou sua primeira curta-metragem “Nhemonguetá”, em colaboração com três aldeias Mbyá-Guarani da Região Metropolitana de Porto Alegre (Itapuã, Estiva e Cantagalo), no ano de 2017, em parceria com Eugênio Barboza.

“Nhemonguetá são as palavras de sabedoria guarani”, explica Paola, que deu este nome a seu primeiro documentário realizado no quadro da sua pesquisa de mestrado em antropologia na Universidade Federal Fluminense (UFF, RJ). Na obra, que foi elaborada sob o incentivo das mulheres e lideranças Mbyá-Guarani de Itapuã (RS), Paola quis retratar o Nhanderekó, analisado por alguns pesquisadores como o “bem viver” guarani. Detalhando, a cineasta nos explica que “são os conselhos para ter saúde e caminhar com Nhanderu, assim me disseram os Guarani”.

A sua paixão pelo audiovisual vem de muito tempo atrás. Começou a usar a câmera de forma profissional para realizar filmagens de eventos no Museu Antropológico do RS (MARS), onde ela estagiava. Mas, como muitas mulheres, Paola sofreu um relacionamento abusivo. O seu então namorado, com ciúmes da câmera, lhe forçou a jogá-la no lixo sob ameaças de bater nela e até mesmo matá-la. Apelou à Lei Maria da Penha e, após um tempo, resgatou a câmera ainda mais determinada na sua vocação de cineasta. Foi quando começou a elaboração do documentário, um processo restaurador para Paola, que enxergou nos saberes e nas lutas cotidianas das mulheres guarani o caminho que todos nós deveríamos seguir.

Empunhando a câmera como uma arma de guerra, Paola viajou até Brasília, em agosto do ano passado, para acompanhar a primeira Marcha das Mulheres Indígenas, cujo lema era “Nosso Corpo, Nosso Espírito”. Preparando seu próximo documentário, a jovem cineasta lembra da experiência como “a mais forte que viveu”. Isso pela presença de milhares de mulheres indígenas de América Latina reunidas ecoando gritos de dignidade. E porque, ao ouvir a deputada Joênia Wapichana mencionar o parlamento Sámi – o povo indígena nórdico que habita territórios localizados principalmente na Noruega, Suécia, Finlândia e no noroeste da Rússia e do qual seu pai é originário –, sentiu-se pertencer um pouco mais à harmonia ali tecida.

Paola Mallmann empunhando a câmara na I Marcha das Mulheres Indígenas. Brasília, 2019

Enfrentando as “epidemias trazidas pelos europeus”, entre elas, o capitalismo, o racismo e o machismo, ao lado dos povos indígenas, Paola acredita firmemente na potência do nosso cinema latino-americano e confia nos ensinamentos dos olhares indígenas.

Hoje, a jovem cineasta participa de vários projetos de cinema independente, forma parte do Ponto de Cultura Ferrinho, e ressalta a importância da sua formação em teatro na Escola de Teatro Popular do Oi Nois Aqui Traveiz no fortalecimento da sua caminhada.

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Deixamos aqui dois vídeos curtos que Paola realizou na I Marcha das Mulheres Indígenas para ajudar na espera do próximo documentário…

Para entrar em contato com Paola Mallmann:
paolamallmann@gmail.com
Instagram @paola.mallmann

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