Teleguiados “democraticamente” até quando?

Por Alass Derivas, jornalista e fotógrafo autônomo.

Visualizo muito em breve telões eletrônicos na Orla do Guaíba. Através de um indexador (uma hashtag, pode ser), vídeos curtos estilo Tik Tok ou fotos postadas no storie do Instagram são apresentadas quase que ao vivo. Na tela, vários rostinhos e versões do sol que cai ali na frente. Vez que outra uma propaganda. Ou ainda “telão, uma campanha oferecimento tal empresa”. Da Uber, por exemplo, empresa que já é responsável por grande parte da manutenção da Orla do Guaíba da Usina do Gasômetro até o monumento das cuias.

Uma empresa coloca um telão na minha cara para eu ver o que pessoas enviam sobre tudo ou sobre o sol que se põe no agora. Seria mais uma tela na nossa vida. Informações para os meus olhos que nem perguntei. Empresas privadas invadindo o espaço público visual. Ali estampadas em troca de dinheiro. O que são os altidores (outdoors)? Que se dane o sol!

Aí, numa digna tentativa de dar resposta à falação comprada, se a pessoa pixa o muro privado (que nos cerca ou nos priva), é presa por depredação. Meio de enviar mensagem proibido, quem o faz é perseguido.

Desigualdades da balança.

Como, nesta sexta, outra: a reintegração de posse de 450 famílias do Acampamento Quilombo Campo Grande, em Minas Gerais. Onde se plantava o sustento, referência de plantio agroecológico de café, numa terra recuperada com 22 anos de trabalho, a Polícia Militar desabriga estas pessoas para devolver o terreno da falida Usina Ariadnópolis ao dono, Jovane de Sousa Moreira, que não pagou direitos trabalhistas a estas pessoas, fato que motivou a ocupação da área. Plantaram, construíram uma escola, uma comunidade. Jovane deve 400 mil por processos trabalhistas. A justiça decide pela reintegração colocando famílias na rua para devolver a terra a um estelionatário. Com a conivência mentirosa do Governador Zema, que declarou na quarta que não aconteceria mais reintegração, mas a ação prosseguiu.

Na mesma semana, Temer é enviado para o Líbano como representante diplomático do Brasil em ajuda humanitária. Escolhido por Bolsonaro, o ex-presidente pediu licença à justiça porque estava impedido de cruzar as fronteiras por seus réu em duas ações na justiça por corrupção.
Nos últimos tempos, Bolsonaro quietinho abraçado em Maia e Alcolumbre e em toda corja do centrão, uma das principais máfias deste país. O que parece muito distante, mas é alimentado pelo mesmo sistema: nas vilas, pré-candidatos a vereadores distribuem cestas básicas na pandemia em uma manobra tática de caridade em troca de voto. Pessoas votam em quem asfaltar a sua rua. Dane-se o saneamento de todas as outras vilas.

Com tudo isso rolando – e não é de hoje -, ainda se coloca as fichas nas eleições de 2022 como o ponto da reviravolta. Ou 2026. Em paralelo, Bolsonaro sobe nas pesquisas, negros seguem sendo mortos e territórios indígenas invadidos. Com a conivência das instituições, como a justiça. E o auxílio do aparato violento do estado, o exército e as polícias. É papo para além do não votar ou votar nulo, por não acreditar neste sistema e nessa democracia. Quais outras experiências de organização para além desse Estado podemos experimentar a cada segundo e a longo prazo?

A foto que ilustra essa crônica é de Wael Hamzeh em Beirute, Líbano, 11 de agosto de 2020.

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