Paisagens de um ambiente ameaçado

A mineradora australiana Águia está buscando a Licença de Instalação para minerar fosfato em Três Estradas, zona rural de Lavras do Sul, próxima ao município de Dom Pedrito. Ao longo do contato, o território impactado vem revelando toda sua riqueza socioambiental. Seja nos cliques de Billy Valdez ou em um registro recente que circulou nas redes sociais, a zona demonstra um enorme patrimônio cultural e ambiental a ser defendido. Nas fotos, tiradas em novembro do ano passado, os horizontes dos campos dobrados revelam toda a sua beleza. Nos campos preservados pelos pecuaristas familiares, os animais de criação e os nativos convivem em harmonia.

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No último domingo, 16/08, foi feito um registro em um dos campos nos quais a empresa quer se instalar. No local em que a Águia prevê a barragem de rejeitos, um morador encontrou um tamanduá-mirim ou tamanduá-de-colete. O animal revelou um comportamento de defesa típico de sua espécie: se erguer sobre as patas traseiras ao se sentir ameaçado.

Segundo o que consta no Relatório de Impacto Ambiental (RIMA), elaborado pela empresa canadense Golder Associates: “Considerando-se a implantação do Projeto Fosfato, tem-se como aspecto inerente a sua instalação a redução dos ambientes naturais”. Além dessa redução de áreas de campo nativo, capões de mato e banhados, o documento aponta impactos como “afugentamento de fauna”, “disseminação de doenças” e aumento nos atropelamentos de animais. Ao elaborar o relatório, a empresa registrou também a presença de graxains, veados, pacas, capivaras e gatos do mato. Entre as mais de 30 espécies de mamíferos terrestres contabilizadas, seis são consideradas como ameaçadas de extinção. Além do tamanduá-mirim também estão listados como ameaçados o gato-mourisco, o gato-maracajá, o gato-do-mato-grande, a paca e o rato-do-mato.

Caso o empreendimento consiga se instalar e iniciar suas operações, existe um grande risco de que outros projetos de megamineração se instalem na pampa, que vem sendo vista como a nova fronteira da mineração no Brasil. Essas decisões podem iniciar um novo ciclo de exploração econômica altamente impactante sobre um bioma que possui poucas leis de conservação e proteção.

Em algumas décadas, poderemos observar a extinção não só de tamanduás, pacas e gatos do mato, mas também dos conhecimentos de doma de cavalos, de tosquia (ou esquila) e diferentes técnicas de lida com gado em campos e de uma riqueza de espécies vegetais inigualável no planeta.

Diante de tantos perigos, cabe lembrar que o tamanduá não é só um bicho ameaçado, mas também um ícone de resistência gaúcha. O animal é símbolo da União Pela Preservação do Rio Camaquã (UPP Camaquã). Desde 2016, o movimento vem alertando e mobilizando a sociedade sobre o tema da mineração e tem conseguido impedir a instalação de um empreendimento de mineração de chumbo às margens do rio.

Dessa forma, notabiliza-se que o “Tchê Manduá” siga carregando sempre a sua mensagem de ordem: “Não tá morto quem peleia”.

Texto: Bruno Pedrotti
Fotos: Billy Valdez

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