Fique em casa! Qual casa?

Fique em casa! Qual casa?
Dia de Luta da População em situação de rua.
Texto e fotos por Alass Derivas.

“- O que tu aprontou?, me perguntou a delegada.
– Olha, vocês devem me achar muito burro, né?, eu falei. Eu assaltar a senhora, andar 5 quadras e depois voltar para o lugar para vocês me pegarem?
A delegada olhou para a mulher e perguntou se eu tinha assaltado ela.
– Eu pensei que ele ia me assaltar.
– A senhora pensou? Sabia que poderia ter colocado um inocente na cadeia?”


A cavalaria avança a trote por cima das pessoas na porta do Mercado Público. Três policias descem do cavalo e colocam um homem na parede que recém tinha passado correndo por dentro do prédio. Era suspeito de roubar alguém. Recém chegado, um senhor pergunta para um grupo de outros senhores:
– Ninguém aplaudiu ainda?
Passo por uma senhora que sussurra:
– Tem que assaltar mesmo.


No Largo Glênio Peres, um caminhão do exército, caminhão da cavalaria, cavaleiros e cavalos, motoqueiros da Rocam e Viaturas da Guarda Municipal. Se em tempos de pandemia não é permitido aglomerar na rua, tem quem esteja ocupando os espaços públicos. Não podemos perder de vista.


“Na frente daquele banco ali a gente não pode mais ficar. Não pode pedir, se roubar, vai preso… O que eles querem que a gente faça para sobreviver?”

Se você pensou em responder “por que não trabalham?”, vamos se respeitar! Vamos olhar para além do seu umbigo, para além do que se parece contigo (ou do que você pensa que se parece contigo!). Pela primeira vez registrada, em pesquisa do IBGE, metade da população ativa do Brasil está desempregada. A prefeitura de Porto Alegre faz semanalmente ações de combate ao trabalho informal pelas ruas do centro. Em tempos de pandemia, de menor fluxo, como vive quem guarda carros, vende balas, etc? Então, ó, vamos se respeitar!

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É 19 de agosto de 2020. Faz 16 anos do Massacre da Sé. Noite em que sete pessoas em situação de rua foram espancadas até a morte na Praça da Sé em São Paulo. Em memória, esta data virou dia nacional de luta da população de rua. Na tarde desta quarta, no ato em Porto Alegre, em frente à Prefeitura, integrantes do Movimento Nacional da População de Rua (MNPR) e apoiadores lembraram, com um minuto de silêncio, aqueles e aquelas que já se foram. Com falas de se ouvir, denunciaram as políticas de descaso do Governo Marchezan com as pessoas sem teto durante o período de pandemia. Uma grande faixa na Prefeitura diz “fica em casa?”. Chapéis que são minipaineis perguntam: “qual casa?”

O prefeito Marchezan não dialoga nem com a Câmara de Vereadores – como no caso da tentativa fracassada de privatização do Mercado Público -, imagina se vai sair do seu apartamento para conversar com pessoas que moram na rua.

-Se o Marchezan não pode vir aqui para falar com a gente, que ele saiba que nós também podemos fazer reunião virtual, fazer live. Temos condições para isso, é só ele querer, afirma Edson Campos, do MNPR.


Na retaguarda, resguardadas, como sinalizou Jamaica, pelos leões de Xangô, as mulheres do Quilombo dos Machado puxam a distribuição do lanche para os manifestantes e para o povo da rua que passa.

Do alto das escadas da entrada da Prefeitura se vê as dezenas de cruzes deixadas como mensagem de luto e luta. Um assessor do Prefeito cochicha com os guardas municipais: – “Vamos ter que chamar alguém do DMLU [Departamento Municipal de Limpeza Urbana]”. Um resumo de tudo nas fotos do slide abaixo:

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