Machi Celestino Córdova, liderança espiritual Mapuche, interrompe greve de fome após 107 dias

Na última terça-feira, o Ministério da Justiça do Chile informou que o Machi Celestino Córdova interrompeu sua greve de fome após 107 dias. Segundo a imprensa nacional, Celestino depôs a greve após longas negociações com o governo do Chile.

Fonte: Radio Kurruf

Em um vídeo difundido nas redes sociais na manhã desta quarta-feira, a vocera do Machi Celestino Cordova, Cristina Romo, leu uma carta da liderança espiritual. Celestino agradeceu a mobilização em solidariedade com os presos políticos Mapuche no Wallmapu, em território chileno assim como ao redor do mundo, e anunciou que depôs a greve de fome após realizar um acordo com o governo do Chile.

Conforme informa a carta do Ministério de Justiça e Direitos Humanos chileno, assim como a imprensa chilena, o Machi ficará no Hospital Intercultural de Nueva Imperial (província de Temuco) até se recuperar física e espiritualmente. Logo será transferido a um Centro de Educação e Trabalho (em regime semiaberto) onde lhe serão autorizadas saídas para seu Rewe, de 30 horas cada vez, sendo custodiado pelos carcereiros de Gendarmeria.

O acordo assinado com o governo inclui também a criação de módulos especiais para os Mapuche nas prisões de Temuco e Angol, buscando “avançar na incorporação de critérios de pertinência cultural nos estabelecimentos penitenciários” conforme informa a carta do Ministério da Justiça chileno. Ainda afirma-se que os integrantes dos povos originários condenados à prisão conseguirão integrar de forma mais fácil os chamados Centros de Educação e Trabalho.

Entretanto, estas medidas estão ainda muito longe de contemplar os direitos internacionais dos povos originários contemplados pela Convenção 169 da OIT, que afirma por exemplo no seu Artigo 13, paragrafo 1 que: “Os governos deverão respeitar a importância especial que, para as culturas e valores espirituais dos povos interessados, possui a sua relação com as terras ou territórios, ou com ambos, segundo os casos, que eles ocupam ou utilizam de alguma maneira e, particularmente, os aspectos coletivos dessa relação”; e, no seu artigo 14, que define que: “Dever-se-á reconhecer aos povos interessados os direitos de propriedade e de posse sobre as terras que tradicionalmente ocupam”.

Fonte: Red Latina Sin Frontera (Foto da Comuna de Vilcún)

Até que os territórios Mapuche não sejam reconhecidos como tal e assim libertados da invasão chilena (ou estrangeira), estes direitos não serão plenamente contemplados. Os Mapuche lutam há séculos pelo seu território e pela sua autonomia, se autodeclarando como Povo Nação Mapuche, rechaçando assim uma identidade chilena e, em decorrência, seu pertencimento ao Estado nacional. Historicamente, o Estado chileno tem se empenhado em reprimir com violência os impulsos de libertação anticolonial do povo guerreiro, que nunca deu um passo atrás, como bem demonstra a determinação do Machi Celestino Córdova.

Na sua carta, Celestino afirma que: “Apesar da pandemia, demonstramos que somos um povo digno, com vida e com disposição para defender a nossa autoridade e a nossa gente”. A liderança espiritual também aponta que seu povo em luta conseguiu assinalar a nível nacional e internacional a negação dos direitos dos povos originários, lembrando que o Estado chileno ainda não assinou a Convenção 169 da OIT. Ainda chamou à continuidade da solidariedade para com o resto dos presos políticos Mapuche em greve de fome nas prisões de Temuco e Angol: “Esperamos que todos os que me apoiaram continuem respaldando aos irmãos por todas suas demandas”. Todavia, Celestino apontou que a luta do Povo Nação Mapuche assim como de todos os povos oprimidos do mundo não parou. Finalmente, informou-se que, em caso de não cumprirem-se os acordos, o Machi não descarta uma nova mobilização.

Seguiremos informando.

Fonte: Mapu Express

Para informações de qualidade sobre a luta do povo Mapuche ver aqui, o site da radio Kurruf.

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