O povo pelo povo!

Por Coluna Vermelha.

O Torcedor de futebol, aquele que vive e sente o Clube como uma extensão de sua vida, que se organiza em associação de Torcedores, Barras ou grupos, na maioria das vezes é tratado como um marginal, um estorvo aos novos padrões estéticos de consumo nas novíssimas e padronizadas arenas do futebol moderno. Porta de entrada e vivência no dia a dia das agremiações, tais grupos são sempre retratados como baderneiros, violentos, vagabundos. O discurso higienista que enaltece o cidadão de bem e saúda as famílias nas arquibancadas constantemente sonega a esses torcedores e torcedoras o direito a também serem vistos com trabalhadoras e trabalhadores, estudantes, irmãos, irmãs, pais, mães, filhos e filhas. A narrativa é de que são um bando de arruaceiros. Sendo justamente um dos segmentos que mais vivem o futebol, são constantemente criminalizados pela mídia e por quem tem muito interesse econômico no mercado da bola. Ainda mais agora que alguns grupos de arquibancada vieram às ruas defender o direito à democracia, ocupando inclusive o espaço que outras organizações sociais deveriam estar reivindicando nas ruas, nessa luta contra o fascismo que avança em nosso país, mais visados ficam pelos poderes e pelo seu suporte na área da comunicação: velhos e jovens jornalistas e formadores de opinião elitistas.

Na contramão dessa narrativa vemos muitos desses grupos organizados para atender as necessidades básicas de uma população desamparada pelos governos e lembrada pelos veículos de comunicação para quando é preciso usá-la como arma de alguma desestabilização política que sirva aos seus interesses. Pessoas que se orgulham das raízes populares de seus clubes, de suas torcidas, desde o início do período pandêmico se mobilizam para levar doações ao povo. Empatia de quem sente na pele o desamparo por parte de políticos e também por parte de uma população que sente mais as dores das tragédias quando elas acontecem dos países do centro do poder. Mais vale uma pandemia na Itália do que uma na Restinga. Aplausos e serenatas nas janelas da classe média foram substituídas pelo descaso de quem vê a morte por Covid 19 avançar nas periferias e vilas das grandes cidades. É claro que isso é uma generalização e muitas pessoas colaboram e se mobilizam, de todas as classes, quando quem chama à solidariedade é um grupo de torcedores do seu time. Isso mobiliza e catalisa muito apoio com alimentos, roupas ou mutirões. O futebol é fenômeno social de pertencimento e identidade. Incide diretamente no direito à cidade, na economia, na cultura. Por isso que é campo de disputa por parte de quem quer transformar toda gente em consumidores, passivos nos seus direitos ao lazer, à cultura, à catarse coletiva que o jogo proporciona.

Esse texto foi pensado e escrito a partir de muitas observações e, mais especificadamente à ação realizada por torcedoras e torcedores Colorados, no Quilombo dos Machado, Zona Norte de Porto Alegre, no sábado, dia 15 de agosto. Essa foi uma de dezenas de ações que temos acompanhado por parte de organizadas como Nação Independente, Camisa 12, Super FICO, Força Feminina Colorada e a Guarda Popular do Inter, seus núcleos, comandos, colaboradores e simpatizantes.

Quilombo dos Machado é um território de luta pela terra e pela dignidade humana. Luta que se fortalece através da comunidade e se expande por diversas redes de força que se somam à resistência que é ancestral e dura até hoje. Um país como o nosso, que viveu sob o terror de mais de 300 anos de escravidão, produziu, ou melhor, a elite branca em seu pacto racista pelo poder, produziu o racismo que se entranhou e estrutura nossa sociedade. Esse agravante se sustenta até hoje, o racismo precisa ruir e acabar. A luta dos moradores do Quilombo dos Machado pelo direito à terra, é também a luta diária contra o racismo, que é resistência por dignidade humana, igualdade social, condições de moradia, de trabalho, de saúde e segurança. O Quilombo dos Machado é composto por mais de 300 famílias, hegemonicamente é um território negro, as mulheres são consideradas força motriz da comunidade por conta da agilidade em mobilizar para que as demandas da luta pelo território e pela sobrevivência diária, sejam concretizadas. A batalha contra a especulação imobiliária é uma constante no território, especulação que engole a cidade lucrando com mortes e desalojamentos na periferia. Lutas que se somam. Lutar pelo direito ao Território ancestral nos lembra que as arquibancadas também são territórios populares, sempre com muita gente do povo, negros, indígenas e brancos. É por essas afinidades que estaremos juntos nessa luta, da forma que nos for orientado, lado a lado, com o Quilombo dos Machado. É o Povo pelo Povo! Salve toda a chinelagem do Inter!

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