A lógica segue sendo: “façamos dessangrar a nossa natureza” – entrevista com o antropólogo aymara Clemente Mamani Colque desde Bolívia

Primeira edição do Podcast do Coletivo Catarse gravou, na sexta-feira 14 de agosto, conversa com o antropólogo Clemente Mamani Colque, desde El Alto, Bolívia. O pesquisador e professor de história nos traz uma perspectiva andina e indígena da política boliviana, fazendo uma análise dos alcances e das limitações do governo de Evo Morales Ayma. Clemente também nos dá umas dicas para enfrentar o Covid-19 sem depender das empresas farmacêuticas, valorizando, assim, os saberes tradicionais dos povos originários no intuito de se romper com a dependência colonial imposta aos países considerados do “terceiro mundo” desde a conquista. Nesse sentido, o depoimento do nosso convidado traz à tona temáticas extremamente importantes – desde uma crítica radical ao desenvolvimento, ao imperialismo e à dependência, ressaltando dessa maneira que a luta do povo boliviano vai muito além da escolha do próximo presidente…

E o Podcast do Coletivo Catarse estreia, assim, um espaço novo do Coletivo para aprofundar diversos dos assuntos pertinentes de cobertura!

Fonte: Rueda de prensa

Segue a entrevista transcrita e traduzida ao português:

Gustavo Türck: Ok, boa noite para quem escuta de noite este podcast, bom dia para quem assiste de dia. Sou Gustavo Türck, sou jornalista do Coletivo Catarse, e a gente está dando início ao primeiro Podcast do Coletivo Catarse. A primeira vez que a gente vai fazer uma entrevista, uma conversa nesses moldes que você está assistindo aqui. Então, a gente tem ainda alguns problemas técnicos que a gente está resolvendo, mais ainda a questão de que a gente não está na sede do Coletivo Catarse, a gente está utilizando a estrutura que as pessoas têm em casa, e, às vezes, não é tão indicado, mas aqui nos parece que está tudo ok. Até acertar, as coisas ficaram ok. Hoje, então, Gustavo Türck, estou do lado da minha colega Clémentine Tinkamó, antropóloga, que vai nos apresentar sobre o que a gente vai falar e com quem nós vamos conversar.

Clémentine Tinkamó: Boa noite, bom dia, saudações a todo mundo. Hoje, temos a honra de ter conosco Clemente Mamani Colque, antropólogo, boliviano e que mora na comunidade Aymara Soncachi Chico-Tajara. Também dá aula de história na Universidade Pública del Alto. Se tu quiseres te apresentar melhor, Clemente, fique à vontade.

Clemente: Bom dia, boa noite para todos, todas, um prazer e muito obrigado pelo convite. Vamos conversar um pouco sobre a realidade boliviana e entender o que está acontecendo. Um prazer estar com todos e todas.

Gustavo: Bom, o Podcast do Coletivo Catarse é uma proposta nossa, que vai para além do Heavy Hour. Nosso público que conhece sabe que o Heavy Hour tem uma hora e meia, é descontraído, tem música. O Podcast do Coletivo Catarse, que estreia agora, é uma tentativa de aprofundamento de várias das tématicas que a gente encontra no nosso dia a dia, que a gente não dá conta de cobrir ou com texto ou com uma troca de mensagens nas redes sociais, ou que a gente gostaria de falar mais, mesmo, sobre as coisas, do que interrompê-las com música ou outras questões que aparecem sempre no Heavy Hour. Então, a gente vai ter uma hora aqui de conversa com Clemente, e acho que a Clémentine pode já ir soltando, porque a situação da Bolívia não está fácil. A gente está conversando, agora, na metade de agosto. Já faz uns bons meses que aconteceu um golpe institucional, que retirou Evo Morales na Bolívia. Muita violência, muita participação e resistência das comunidades indígenas, entre outras comunidades, e, agora, a gente está vendo isso de novo. Quem tem redes sociais, porque isso não passa nos canais de mídia de massa aqui… Quem tem rede social está enxergando muita coisa chegando, muito vídeo de muitas outras mobilizações e muita violência ainda acontecendo. E, aí, a gente vai tentar falar com Clemente um pouco.

Tinkamó: Gustavo apresentou o tema do qual vamos falar, mas eu gostaria de voltar antes de novembro de 2019, e que você nos contasse o que motivou essas mobilizações contra Evo Morales. Como você viveu e viu esse processo e, já que temos pouco tempo, vou enganchar em outra pergunta. Tu poderias caraterizar essa direita boliviana de (Luis Fernando) Camacho e (Marco) Pumari, que Camacho, por exemplo, é uma pessoa que pediu ajuda ao chanceler do Brasil para entender a Constituição da Bolívia? Então, me estou perguntando que tipo de pessoa é, com quem estão articulados e que interesses estão por detrás dessas pessoas?

Clemente: Entendemos toda essa situação desde a lógica que exige dentro das comunidades andinas, Aymara e Quechua, da administração e do cargo de levar adiante o “ser autoridade”. Nesse sentido, nas comunidades, o cargo de autoridade está designado à pessoa casada, quer dizer, a pessoa quando já está casada ou quando já tem seu parceiro, já pode entrar no ciclo de vida de exercer autoridade na comunidade, como a junta escolar, e vai subindo de grau, junta diretiva, secretário de atas, secretário de fazenda… E assim vai subindo. Então, aí, se maneja a lógica do Chachawarmi. Quer dizer, homem e mulher na dualidade de participação, e esse cargo não dura mais de um ano. Esse é o tempo que se tem. Um ano e, ao concluir sua gestão, não é que você o deixa, mas você renuncia a seu cargo, e a outra pessoa se faz responsável. Anteriormente, essa situação se fazia buscando às pessoas mais prestigiosas da comunidade. Logo, entrou com a situação da divisão de terreno, digamos, nos anos 1950, sob o parcelamento que tem havido. Então, cada cabeça de família se fazia cargo da autoridade, então, rotava. Rota anualmente, cada família das comunidades vai rotando o cargo de autoridade.

Cerimônia do Willka-kuti na comunidade Cancosamarka. Foto: C.J. Carpio

Nesse sentido, o que vivemos com a gestão do nosso ex-presidente Evo Morales é que ele não viu esse cargo desde a visão ancestral, mas que viu uma lógica como de se eternizar no poder. Quer dizer, ficar no governo. Desde esse ponto de vista, vemos essa lógica que está no transfundo de Evo Morales Ayma, que não é o fato de ser indígena e refletir essa realidade desse costume ao nível comunitário, mas o está pensando sob uma lógica mais individualista e esse olhar sindical. Quer dizer, chega no poder com a lógica de: “Eu, migrante aymara, que fui no Chapare para produzir coca para o comércio e sob o olhar sindical da vida, e é sob essa visão que eu chego no poder”. Em outras palavras, a forma de administração que teve do Estado boliviano, o Estado plurinacional de Bolívia, é essa lógica administrativa sindical pelo qual faz nexos para chegar no poder, se alia com todos e posteriormente cada um pede sua parte.

Evo Morales antes de ser presidente. Foto: APU

Nessa lógica administrativa de Evo Morales, seu mandato, sua posição de se eternizar no poder e, em alguma medida, viver sob isso, que faz aparecer toda essa situação da fraude eleitoral que se montou, que já se deu a conhecer. Apesar de que eles não trataram de assumir essa situação, tendo o poder eleitoral, puderam facilmente manipular essa situação. Apareceram papeletas falsas e tudo. Porém, nessas relações, também temos que ter em conta que o olhar que se proponha com o governo do MAS (Movimiento Al Socialismo) de revalorizar o indígena chegou só no ponto de um discurso. Quer dizer, se pensou essas proposições desde a lógica educativa, desde um olhar simbólico, de usar símbolos, mas não se deu na realidade e também não se tocou no tema econômico, social e da realidade, mas só num olhar simbólico como tal, e, desde ali, se levou a um discurso, o “bem viver”, o sumaj qamaña ficou no discurso.

Marcha contra a estrada do plano IRSAA, que ia cortar o Território Indígena e Parque Isiboro-Secure (TIPNIS), chega em La Paz, outubro de 2011. Foto: Dario Kenner

Numa outra etapa aparecem os indígenas, com toda essa situação, o movimento indígena, sim, afirmou sua identidade. Bolívia mostrou seus 36 grupos indígenas como tal, o orgulho de ser indígena tem sido muito, muito forte, sobretudo no tema identitário da população: “Bom, eu tenho minhas origens”, e, a partir disso, sim, podemos pensar o passado e pensar no futuro. Então, esse é um aspecto muito positivo que se resgata.

Cerimônia na comunidade Cancosamarka. Foto: C.J Carpi

Mas, com o tema das eleições como tal, o que se propõe é quebrar toda essa estrutura, desde esse olhar pelo lado indígena, de onde está essa questão de rotação do cargo? Onde está este tema da dualidade na administração, do homem e da mulher? Por outro lado, não basta o discurso romântico, se querem das comunidades indígenas e, por outro lado e sobretudo, vendo desde as ações como esses discursos… Vão se camuflando em pequenas situações, e o que passa em novembro, nas disputas eleitorais, é que o MAS tentou manter essa situação dizendo: “Sim, nós temos o apoio indígena e ganamos”. Então, como estavam no poder, manipularam esse olhar eleitoral, os meios de comunicação e, por outro lado, estavam as pessoas migrantes, sobretudo, as pessoas endinheiradas de direita, “las pititas”, que diziam: “Não, se foi um fraude, tem que demiti-lo”. Foi uma situação que foi descoberta e que o partido como tal, com sua lógica sindical, foi se desgastando. Então, aí aparece o problema.

Disso, lamentavelmente, surge ou ressurge a extrema direita na Bolívia. Em tudo isso, o que acontece é que, bom, reconstruamos a lógica andina, fortaleçamos nossa identidade e um olhar do desenvolvimento do viver bem, mas se rompe de imediato no sentido que entra Jeanine Áñez com a bíblia e diz: “Bom, eu com a bíblia vou governar”. E aqui o demais se desconhece e entra a um espaço de presidência transitória onde fica até o dia de hoje. E ali é onde aparece o olhar de Camacho. Já Camacho, antes, dava a conhecer a Evo Morales que renunciasse, que o que fez é uma fraude, o que fez com que a direita se empoderasse fortemente e aproveitando essa situação. O que sucedeu foi que Evo Morales falou: “Eu não vou me postular a novas eleições”. Pois, se postula novamente a presidência e perde, sob a lógica de Camacho e Áñez e da direita, começa a ressurgir essa lógica neoliberal de pensar em que nosso novo horizonte é os Estados Unidos.

Atual presidenta da Bolívia, Jeanine Áñez, afirma que a bíblia voltou ao Palácio Presidencial. Foto: Aizar Raldes/AFP

Se bem que antes de Evo Morales era muito isso da ajuda dos Estados Unidos. Sobretudo, para isso, da erradicação da coca, com Evo Morales, se rompe toda esta situação em uma primeira etapa de uma maneira bem pensada na Bolívia, mas, em uma segunda etapa, influenciado por Cuba, influenciado por Venezuela, um pouquinho por Brasil, Argentina e posteriormente recebendo ajuda de muitas das empresas chinesas, o que se diz é que, com Evo, entrou “full chinos”. Quer dizer, empresas chinesas. E, com Áñez, se vai e pede a mão dos Estados Unidos para que entrem também eles e se nega a entrada dos chineses.

Manifestação pela renúncia de Jeanine Áñez, El Alto. Foto: Luis Gandarillas, AFP

*Nisso ressurge a lógica da direita conservadora e na atualidade temos essa frição de dois ponto, um que é a direita conservadora e o outro é o movimento indígena que ainda confia no partido de Evo Morales sobretudo pelas gestões administrativas de desenvolvimento que se refletem na construção de caminhos, praças, pontes nas comunidades, em postos de saúde, a cancha de futebol, o colégio, isso, na gestão de Evo. Em outras palavras, com Evo o que se fez é de alguma maneira, na administração econômica por em execução essa questão da decentralização aos municípios que já estava em funcionamento desde 1993. Evo entra com tudo isso de dizer: “sim, o dinheiro tem que chegar ao povo”, então sob essa lógica estão os indígenas de alguma maneira confiando no processo político do MAS, sob essa lógica de que sim, ajudou a aumentar os benifícios. E por outro lado está a extrema direita que nos diz: “não! Em todo esse tempo o que fez Evo Morales é só roubar a Bolívia, precisamos pensar de outra maneira, precisamos pensar em desenvolvimento, em empreendimento e para isso precisamos de ajuda de Estado Unidos”. Então é nessa pugna na atualidade que se encontra Bolívia. Em ambos extremos não se pensa em empreendimento boliviano como tal, quer dizer, criar microempresas, gerar produção local mas ambas lógicas são de explorar a matéria-prima, petróleo, mineração, lítio e levá-los a cargo do país e que o país siga vivendo das regalias.

Extração de lítio na Bolívia – Salar de Uyuni. Foto: Infobae

Tinkamó: Eu queria te perguntar duas coisas. Uma coisa que nos chocou a todos aqui no Brasil, foram a queima da Whipala e os policiais que se arrancaram a Whipala dos uniformes. Queria que tu nos comentasse sobre o que significa para os povos originários a Whipala. E queria ver tua opinião em relação aos movimentos sociais, o movimento indígena. Foram cooptados, pacificados pelo MAS? Como isso se reflete ou não nas mobilizações atuais no país?

Grupos de extrema direita queimam a Whipala. Praça Murillo, La Paz, Bolívia. Foto: Elperiodicicr

Clemente: Sobre o tema da Whipala sim há um pouco de debate teórico se é que havia anteriormente essa interpretação simbólica sob as cores que representam. À margem dessa situação é um símbolo próprio ou apropriado embora não com essa diversidade de cores de integração senão que como um símbolo de reivindicação indígena: as comunidades. Ainda está em debate isso se é ou não junto com o processo colonial, mas sim, há símbolos que fazem essa referência de uma bandeira do movimento indígena. Nesse sentido, essa apropriação principalmente surge nos anos 1970 com o movimento de Tupac Katari, a reivindicação do movimento de Tupac Katari, os Kataristas de colocar símbolos andinos nos movimentos sociais, quer dizer: “nós não somos indígenas mas nós somos camponeses, nos disseram “indígenas” então nos vamos a reivindicar como indígenas” e temos certos símbolos. Aí aparece o poncho, o chapéu, o chicote e o emblema como tal, a Whipala.

Tupac Katari e Bartolina Sisa – Reprodução

Com Evo Morales, sim chega a Whipala além das comunidades, entra na cidade não só com uma marcha mas já é parte dos símbolos bolivianos assim como a bandeira de pertidud da amazônia mas a principal é a whipala. Lamentavelmente, sob o uso da Whipala, Evo Morales ou o governo do MAS, capitaliza este símbolo das populações andinas e quando houve toda essa situação dos conflitos do fraude eleitoral do ano passado, a população indígena não ter-se-ia levantado, a população indígena estava assim: “o quê que está fazendo Evo Morales com essa lógica sindical que sim quer estar no poder?” Porém, as ações da queima da Whipala nos conflitos na praça Murillo e do que se cortaram a Whipala os policiais fez com que a população se levantasse.

Faixa exigindo o respeito à Whipala. Fonte: La Izquierda Diário

Aí a população indígena começa a fazer uma massiva marcha porque era como um atentado a sua identidade cultural. E foi bem interessante essa situação porque o pessoal tinha que ir do campo à cidade e todos minibuses que faziam o trajeto tinham que ir com a Whipala e a esses ninguém os apedrejavam nada, os deixavam passar nos bloqueios. Na parte da cidade, na zona sul que é onde moram as pessoas com mais dinheiro e iam e apedrejavam mas se viam uma casa que tinha a whipala, não a apedrejavam, a respeitavam, porque consideravam que nessa casa se reconhecia que somos uma diversidade cultural. Embora que não seja exatamente assim, pelo menos reconheciam que sim, que os indígenas têm sua bandeira e são parte do Estado plurinacional. Então sim se capitalizou bastante e o tema de ter queimado a whipala foi um fato que mobilizou esse sentimento do indígena tanto da parte andina quanto da amazônia.

Manifestações com a Whipala, novembro de 2019, La Paz. Foto: Juan Karita/AP

Gustavo: Clemente! Estamos chegando na metade da nossa conversa. Te pergunto pelo que estás falando, aquelas mobilizações que a gente viu logo após a derrubada ou a fuga de Evo Morales a primeira vez que a gente viu, pelo menos a mim chegou várias imagens de mobilizações de população indígena descendo ou indo a La Paz, a capital, na realidade elas eram um contraponto à queima da bandeira que é super simbólica ou uma reação à agressão direta aos povos indígenas, não havia nada a ver, não tinha relação com o fato de um golpe de Estado naquele momento?

Clemente: Sim, tu tens muita razão, o que mobilizou às pessoas indígenas foi essa agressão à Whipala, então o MAS estava ali, Evo estava no tapete da corrupção de que houve fraude eleitoral mas o movimento indígena não dizia nada porque entendia que o poder não é para se eternar ou que o governo não é para a eternidade, é uma transição. Mas quando viu essa questão da queima de Whipala, aí sim a população se moveu e entramos a essa outra etapa na qual temos a uma presidenta que sob essa situação do Covid e se aproveitando da situação está ficando até agora, as eleições tinham que ser em maio e não se levaram adiante.

Bloqueios em Cochabamba em 10 de agosto de 2020. Foto: Jorge Ábrego/ EFE

O que está mobilizando às pessoas na atualidade é essa situação de como o Estado está-se aproveitando de Bolívia estendo a mão, quer dizer, pedindo prestamos em nome de Bolívia e querendo dar benefícios à população, às crianças, a famílias e por outro lado essa questão de engano que lhe está dando à população que se compraram respiradores que respiradores acima dos preços que não funcionam, podia, em tudo esse tempo, ter construído bons hospitais e não se fez nada disso, se lançou, e isso é muito doloroso o que vou dizer, que a pandemia vai passar ficando encerrando-se na sua casa, e não podemos estar na nossa casa porque a economia boliviana é 75% da economia informal, quer dizer que todos os dias temos que nos levantarmos para sair a vender um produto, seja para comer, seja algum produto agrícola, seja roupa, temos que levantarmos. Somente 25% da população tem um seguro, são professores, militares, policiais, mestres e alguns juristas mais, o demais é uma economia informal e essa economia se viu freada e quando tu é freado nisso, tua alimentação também é freada, podes sobreviver um mês, dos meses mas depois as tripas apertam tu tens que sair, muitas das pessoas são pequenos empreendedores, trabalham com minibuses, têm pequenos negócios, têm dádivas com o banco e o banco ainda não lhe afeta.

Feira 16 de Julio na cidade de El Alto. Foto: Edu.com.bo

Por outro lado, nas comunidades tu não podes dizer: “estamos em quarentena fica na tua casa”. Se tu vai ficar em casa teu produto agrícola vai se perder. A vaca que tu tens não vai não comer até o meio dia e logo vir tranquila até seu curral. No campo tem um ciclo de vida, uma forma de alimentação e lamentavelmente vai estar até as 6,7 da noite assim. Então essa lógica não foi bem incrementada, não foi pensada sob essa realidade de uma população que tem outra forma de viver. Não é como se a maioria da população tivesse salário fixo e diz assim: “bom então fico olhando a televisão durante a pandemia e pinto minha casinha e acaba o mês e eu recebo meu dinheirinho e vou no supermercado e me compro”, é outra lógica de vida é uma lógica que todos os dias temos que sair a pelear. Isso somado à questão de corrupção que está havendo no governo de Añes e essa questão de estender a mão para Estados Unidos que é um olhar de endividamento, faz com que a população se mobilize pedindo as eleições.

Foto: Mundubat

Tinkamo: E estava te perguntando antes da pergunta do Gustavo se tu sentes que os movimentos sociais foram cooptados pelo MAS e quais são os impactos do governo do MAS nas mobilizações sociais que estamos vendo agora frente a extrema direita?

Clemente: De alguma maneira sim, de alguma maneira estão cooptados os movimentos sociais no sentido de que há uma comparação de como era com o governo de Evo e o que é com o governo de Áñez sob esse olhar de decentralização econômica, de melhoramento de praças, de caminhos e tudo isso, inclusão de que podíamos ir livremente pela cidade com todo o orgulho sem esse prejuízo podíamos entrar num restaurante de 5 estrelas com nossa vestimenta típica e não havia esse olhar de discriminação e existia as instâncias onde podíamos fazer as denúncias então sim, estava se pensando em uma relação social mais igualitária, sob isso, sim houve uma captação do MAS de este sentimento indígena, de um sentimento de inclusão social, de um sentimento de reivindicação cultural e territorial e sobretudo houve esse sentimento de voltar às nossas raízes para nos fortalecermos na população urbana.

Foto: Vila De Utopia

Tinkamo: Talvez não estou entendendo bem mas do que entendo tu estás dizendo que dos dois lados, tanto do MAS quanto da direita, está-se utilizando às populações indígenas ou ao povo para seus próprios interesses. Então eu queria, se tu puder falar um pouco mais desde teu ponto de vista, qual seria um caminho para um processo de decolonização que funcione porque tu comentou no início que o governo de Evo Morales que pretendia “decolonial” acabou reproduzindo lógicas totalmente colonizadoras, então qual seria um caminho para Bolívia, para o povo boliviano no futuro analisando o contexto atual?

Clemente: Partamos com o que está acontecendo na atualidade, estamos numa situação de uma pandemia. Tem um ponto que é quem podem aceder aos medicamentos para combater essa doença e quem não podem aceder e por outro lado quem pode cobrir todo o processo de cura nos centros hospitalares e quem não. Partindo dessa realidade e de que só o 25% da população boliviana tem seguro de saúde e tem muitos que têm um seguro de 4 meses quando trabalham e logo já não tem mais e a maioria não tem. Estamos falando de 70 e mais % da população, então que acontece? Essa população diz: “sim te que nos curarmos” e o primeiro que os apresentam as farmácias são os medicamentos das pessoas que sim consideram aceder, que tinham dinheiro para aceder a uma aspirina e ter seus medicamentos nos seus pequenos botequins nas suas casas. Nisso, o ponto central é que essa dependência de certos medicamentos, de certas empresas farmacêuticas para combater uma doença criada, em outras palavras, tem um negócio atrás disso que está-se se desenvolvendo e que se aproveita dessa situação. O governo boliviano o que fez atualmente é se aferar a esses medicamentos e não ver outras opções de recuperação, ou não ver outras opções de tratamento, que culturalmente, socialmente, da medicina tradicional, da medicina familiar a alternativas como o dioxicido de cloro, pudesse gerar outras opções. Essa é a doença, essas são as opções, sabemos como são as pessoas que se recuperaram porque o quê acontece no hospital? Você vai no hospital, te dizem que tu tens que estar em isolamento e bom aí está teu tratamento e bom um pouco rompe socioculturalmente porque na comunidade ou na família se alguém está doente não é que tu o isola num quarto de 4 paredes, com um tanque de oxigeno e com um ventilador ou com um televisor, mas o que se faz é ajudar a que a doença saia do corpo da pessoa através de ervas e tudo isso.

Câmara de desinfeção natural contra o Covid-19, El Alto, Bolívia. Foto: Aizar Raldes / AFP

Então aí rompe fortemente com esses olhares culturais e da forma de entender a realidade. Isso não significa que devemos esperar que passe com as mãos cruzadas por enquanto nos morremos de fome mas significa que, que outras plantas medicinais ou que chás, que tipo de alimentação pode ser bom para que se nos dá a doença, possamos combatê-la? Então essa lógica foi descuidada pelo governo e sob esses descuidos e em relação à tua pergunta sobre a saída eficiente para um processo de descolonização na atualidade, eu acho que tem muito por recorrer porque há um processo político desgastado do MAS, mais nesses dias, sobretudo de essa população mestiça que entra nessa de desconfiança, é uma população que diz: “está utilizando aos movimentos e nos está a nós mesmos fazendo dano” e por outro lado há um governo que pensa que tudo vai se solucionar pedindo a mão ou que outros o vão a solucionar e pensando Bolívia num país desde uma posição social de yankee (dos Estados Unidos). Àñes não sabe trabalhar a terra e não vai entender alguém que trabalha a terra como a sua vida, ela cresceu num colégio particular e sob isso ela está lendo a realidade, então essa leitura de posição nos coloca nesse conflito de não entender a realidade plural, pluricultural de Bolívia.

Camponês na província de La Paz, Bolívia. Foto: Página 7

Nisso há uma relação muito forte, tem que considerar o tema da alimentação e a forma de se alimentar, não tudo é comer frango. Nesse sentido, nas comunidades há um construto territorial relacionado com a alimentação sob isso, o que se tem visto nesse tempo, é essa relação próxima de porque na Bolívia houve tantos infectados? Muitos diziam que era pela alimentação, a forma de vida que se tem. Então desde as comunidades sim há um processo muito forte de relação entre o homem e a natureza e a forma de alimentação que se tem nesse processo cultural que até o dia de hoje está se mantendo e para se dar conta que eles são os verdadeiros produtores, que o dinheiro não te vai dar de comer mas sim, o que tu estás produzindo. Então sob isso, há um processo de fortalecimento muito interessando que está-se dando que teríamos que potencializar desde esse olhar que foi romantizado que é “comida saudável”, toda a lógica do vegetarianismo e tudo. Se estamos falando desde o tinte social, desde o olhar cultural, tem outra conotação e desde ali tem que começar. Vou fechar com um comentário, há um senhor que lhe dizemos o “chuñoman” e ele dizia “eu como chuño (uma batata desidratada que se come nos Andes), e com isso, meu corpo vai rechaçar o coronavírus”, o cara se tornou famoso bom e o senhor apareceu com isso, do lado negativo começou a gerar essa questão do prejuízo e do outro lado, do lado positivo, de “eu e minha forma de comer”, da minha forma de vida. Então ali está também fortemente esse processo de desconstrução desde a própria comunidade desde o saber nos alimentar. Isso é bem triste, o viver bem tem-se ironizado, a descolonização se fez só nos textos, em teses de doutorado, mas, lamentavelmente, na prática não se levou a cabo. O que se levou a cabo foi pequenos experimentos mas é momento de esse tipo de realidade que vamos vivendo na cotidianidade começar a potenciá-los.

Chuño preto. Foto: Bitácora del gastronaúta

Gustavo: Eu queria conversar sobre a eleição, se ela vai realmente acontecer ou não? Qual é a perspectiva disso? Se caiu aí nos ouvidos dos bolivianos que um dos maiores consumidores de lítio do mundo lá nos Estados Unidos, Elon Musk que hoje é o herói do espaço, disse com todas as letras que deram o golpe sim na Bolívia e que eles vão dar golpe em todos os lugares que eles querem dar?

Clemente: Vamos com a questão das eleições. A COB (central obreira boliviana) há dois dias deu ultimátum para que as eleições se adiantem uma semana. No fundo, a “luta” está orientada sob essa postergação das eleições que tinham que ter sido realizadas no dia 6 de setembro e vão ser realizadas dia 18 de outubro. Então a COB falou que se recorre uma semana e nós levantamos as mobilizações. No dia de ontem, o MAS assinou um convênio com o governo que foi rechaçado porque o que no fundo também está acontecendo é o empoderamento de Felipe Quispe Mallku como símbolo de toda essa mobilização que é a pessoa que está encabeçando tudo isso. É uma pessoa desde a comunidade, formado e tudo mas que está indo contra até dessa mirada que o indígena é indígena. As eleições vão se realizar sim, lamentavelmente também a presidenta é candidata e não sabemos se estamos falando com a presidenta ou com a candidata. A situação vai voltar a um conflito porque não há uma representatividade que unifique a Bolívia. Há um fraccionamento entre todos. Por um lado, a extrema direita, por outro, de alguma maneira, o MAS com os movimentos indígenas e a classe media com Carlos de Mesa, então não há uma unificação, lamentavelmente vamos a ter que chegar a uma pugna de classes de quem é a maioria e vai depender muito de como se entenda o ganhador com os setores ou como se negocia para seguir adiante como país. Senão, tudo o que se está gerando de este processo de queremos eleições vai chegar na nada, vai seguir como está.

Manifestações na Bolíva, contra o adiamento das eleições. Foto: Jorge Ábrego/EFE.

Sobre o litio o que acontece é que Bolívia não está industrializando lítio, Bolívia está levando empresas chinas que estão industrializando lítio e pois o único que se fez é assemblear, que pela competência tecnológica não foi competitivo como tal. Atualmente, Estados Unidos, essa realidade é a que estamos vivendo, que vivemos os países latino-americanos sob o olhar da divisão dos países do primeiro mundo e os países do terceiro mundo e a lógica das ayllus. Vou contextualizar um pouco essa situação, em um momento se criou, estamos falando da colonização que uma forma de adomesticar às pessoas a fazê-los acreditar que são selvagens que tem que salvá-los e a segunda etapa é tem que salvá-los da pobreza e a primeira era salvá-los espiritualmente, então a segunda aparece nos anos 1940, 1950, e aí aparece essa questão de quem obedece e quem não, e entra isso da modernidade, sair da pobreza e me lembro do autor que é “la patada a la escalera” (A patada à escada), e aparece esse tipo de fraude que em realidade que não se pode chegar como tal e sob isso aparecem as “ajudas” que no fundo são uns que vão conhecer uma realidade a ver que é o que podemos tirar disso, que recursos conseguimos tirar. Me parece que atualmente, estamos centrado nessa lógica, reproduzindo esta lógica desde os Estados Unidos, sob a ideia de “ajudamos a Bolívia, façamos prestamos ao FMI e sob os endividamentos que se possa chegar a ter, negociar certos recursos naturais. É um pouco triste essa situação porque esse tipo de realidade já a vivemos anteriormente desde a criação de Bolívia, nos anos 1900 com a lógica de exportemos o estanho, posteriormente a produção madeireira, a produção de petróleo nos últimos anos e não há essa lógica no atual governo de pensar os recursos naturais para os bolivianos mesmo se for para ficar aí mesmo, pois, não se pensa assim, a lógica segue sendo “façamos dessangrar a nossa natureza e entremos nesse jogo”.

Manifestação contra Estados Unidos frente a sua embaixada, 2016, La Paz, Bolívia

Gustavo: Bueno, vamos ensejar o fim…

Tinkamó: Acho que já estourou o tempo, quero agradecer muito o Clemente por ter estado conosco, acho que a gente aprendeu bastante, espero que possamos estar novamente conetados.

Clemente: Um prazer compartilhar com vocês, força, precisamos ver a realidade de outra maneira, precisamos mais espaços de expressão e nos fortalecermos entre nós e nada, sou mais um ser vivoque vive a realidade e que estejamos em contato e compartilhando esse tipo de analises e reflexões e em qualquer momento estou a disposição, um abraço a todos.


Reportagem: Clémentine Tinkamó e Gustavo Türck
Decupagem do áudio: Clémentine Tinkamó
Edição de áudio: Gustavo Türck
Transcrição e tradução: Clémentine Tinkamó
Revisão: Gustavo Türck

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