Tchê, tu ainda não viste o Viventes?

O longa-metragem Dossiê Viventes – O Pampa Viverá teve sua estreia on-line na segunda feira 7 de setembro de 2020 nas redes do Comitê de Combate à Megamineração. O filme de quase uma hora e meia retrata a luta das comunidades tradicionais do pampa, de pesquisadores, professores, gestores e instituições das mais diversas pela defesa da parte mais preservada do bioma – ameaçada pelo projeto de instalação de uma mineradora de chumbo e outros metais pesados entre Caçapava do Sul e Bagé.

O bioma pampa foi reconhecido apenas em 2004, com poucas unidades de conservação, já possui menos de um quarto da cobertura vegetal original. Segundo Paulo Brack, biólogo e doutor em ecologia, a região na qual a mineradora Nexa quer se instalar foi definida em 2007 pelo Ministério do Meio Ambiente como área prioritária para a conservação da biodiversidade e para o uso sustentável – que já acontece com as comunidades tradicionais vivendo no local. “Ali é um dos últimos locais em que o bioma pampa mantém integridade de fauna, flora e também de populações que estão vivendo a partir da pecuária familiar – que é importantíssima! São formas de vida que se mantiveram sem se submeter à avalanche das monoculturas, de todo um modelo de agricultura que destrói as formas de vida e também a biodiversidade”.

Eduardo Velez, biólogo e doutor em Ecologia, destaca que, “nos últimos 15 anos, o pampa perdeu um milhão de hectares de campos nativos, que deram lugar à agricultura e à silvicultura (basicamente soja e eucalipto)”. O biólogo explica que essas monoculturas causaram “vazios de biodiversidade, áreas naturais de pouca qualidade, muito pouco conservadas”. Ao explicar o déficit de áreas protegidas – 1% do pampa está protegido em áreas de proteção ou reservas, quando a meta nacional seria de 17% – reforça que a região em que a mineradora quer se instalar seria um dos poucos “bolsões de natureza e de biodiversidade” na área do pampa gaúcho. Assim, conclui: “Esta é uma região que, de uma situação de quase santuário ou quase paraíso ecológico, pode virar um inferno ambiental da noite para o dia, em pouco tempo”.

A antropóloga Flavia Rieth reforça a presença de populações tradicionais como quilombolas, indígenas e pecuaristas familiares. Mostrando, assim, “um pampa diverso em termos de ambiente e de presença social”. Já o agrônomo Carlos Nabinger reforça a ligação entre a formação histórica do gaúcho e o ambiente dos campos: “Parece que o gaúcho é uma figura mítica que surgiu de repente. Não, ele surgiu porque existia o campo”. Além disso, o escritor e cineasta Tabajara Ruas, que já gravou filmes naquelas paisagens que contam uma parte importante da história do RS, também destaca o valor simbólico de um cenário pampeano que quase não existe mais: “Ali é um pedaço profundo do Rio Grande, e é obrigação dos governos e da sociedade civil ter esta noção”.

Para Marcos Borba, pesquisador da EMBRAPA e doutor em Agroecologia, “a mina destrói com o território, ou seja, com as relações entre as pessoas e das pessoas com o seu meio. Portanto, a mina significa destruir com o futuro desta região”. Para ele, a região da Serra do Sudeste, também conhecida como Alto Camaquã, é estratégica para o Rio Grande do Sul, seja na dimensão econômica ou social, com grande capacidade de reter e atrair pessoas se houver relação entre economia e ecologia.

Estes e outros depoimentos compõem a obra produzida pelo Coletivo Catarse em parceria com diversos coletivos mobilizados na defesa dos territórios do alto camaquã. Justamente por reunir mais de 30 entrevistados, o filme recebeu o nome de “Dossiê”. Ainda não viu?! Assista e conheça essa luta em defesa do pampa.

Sinopse: Em novembro de 2016, uma comunidade do interior do Rio Grande do Sul declarou, às margens do Rio Camaquã, resistência à implantação de uma mineradora de chumbo na parte mais preservada do Bioma Pampa, de rara beleza cênica. O medo da contaminação, da perda da identidade e da formação cultural do gaúcho, e a ameaça a um projeto de desenvolvimento territorial sustentável e solidário em curso, uniram povos, municípios, cientistas, gestores, políticos e instituições com pluralidade, expressividade e consistência poucas vezes vista na história da luta ambiental e socioeconômica do país. Dossiê Viventes é um documento vivo que, assistido com o coração e a razão livres, promete arrebatar novos defensores para a causa. O rio, artéria que nutre esse território, é o testemunho de que o Pampa viverá.

Ficha Técnica
Direção: Tiago Rodrigues
Assistente de direção: Jefferson Pinheiro
Produção Executiva: Ingrid Birnfeld
Finalização de som e imagem: Sérgio Guidoux Kalil
Trilha sonora: Guilherme Collares
Arte gráfica: Rafael Corrêa
Site: Lúcio Amaral

Um comentário em “Tchê, tu ainda não viste o Viventes?

  • 19/09/2020 em 11:47
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    parabéns a todos os envolvidos nessa causa!!!!!! Belíssimo trabalho…

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