Contraponto: a influência negra na milonga

por João Izé, músico e geógrafo de Porto Alegre

Bem sabemos que a construção da música gaucha chega ao sul do Brasil pela proximidade com a bacia do prata. Por aqui é lembrada a cultura dos gauchos como tendo origem indígena e ibérica, mas é inegável a influência negra na milonga quando atentamos a extrema importância histórica do payador afro-argentino Gabino Ezeiza, nascido em San Telmo (antigo bairro escravo)no ano de 1858, herdeiro cultural direto do também afro-porteño Pancho Luna.

Considera-se que Gabino foi quem introduziu a milonga na payada e, por sua vez, este músico afirmava que a milonga campera tem origem no candombe afro-uruguayo. Sabemos que o Candombe foi influenciado pela clave cubana e a milonga como derivação da habanera (ritmo de La Habana), do punto e da guajira que chegaram pela via portuária ao longo do séc XIX. “El negro” Ezeiza foi payador de disputas de versos com outros trovadores em motes de improviso, sendo que um desses duelos de repentes em 1884 no teatro Solís de Montevideo foi oficialmente tornado o “día del payador” em toda a Argentina, no dia 23 de julio.

Segundo a pesquisa de mestrado de Isabel Oliveira (2016), sobre festas e bailes da comunidade negra no periódico La Broma (Buenos Aires 1876-1882): “Aqui, novamente se pode ver uma crítica à presença de costumes considerados antigos, como seria o de cantar “décimas”. As décimas constituem uma referência às “payadas”, um estilo de cantos em versos individuais acompanhados de violão, podendo ser feitos em “contrapunto”, quando dois “payadores” se enfrentavam. Associadas ao âmbito rural, as payadas se assemelham ao repente brasileiro, e também pareciam gerar certa repulsa por parte dos redatores de La Broma, quanto a sua execução nos bailes e tertúlias. Tratava-se, também, de um divertimento popular associado ao tempo de Rosas – estilo de canto que se converteu, posteriormente, em um dos ingredientes da valorização do “gauchesco” como identidade nacional argentina, no qual os negros se destacaram: Gabino Ezeiza, redator do periódico La Juventud, foi um dos mais famosos payadores na Argentina.”

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