Futebol a cores

Por Grêmio Antifascista.

O futebol é o espelho da sociedade. Uma sociedade que entre gritos de gol também mostra uma face nefasta tomada pelo racismo. No dia 13 de setembro de 2020, chegou a vez de Neymar sofrer na pele e em campo. Chamado de “MONO HIJO DE PUTA” (macaco filho da puta) pelo jogador do Olympique de Marseille, Álvaro González (o zagueiro já curtiu em suas redes posts do movimento de extrema-direita espanhola VOX).

Neymar reagiu em campo indignado como se era de esperar de uma vítima de racismo, entretanto, imagens mostraram que sua reação foi com ofensas homofóbicas (o que demonstra a complexidade de como somos formados por diversos tipos de preconceito. Tristemente, não é raro que pessoas que se dizem antirracistas cometam ofensas homofóbicas em nossa rivalidade GreNal, por exemplo). Sobre o caso, Neymar escreveu no Twitter:

“Ontem me revoltei, fui punido com o vermelho porque quis dar um cascudo em quem me ofendeu. Achei que não poderia sair sem fazer nada porque percebi que os responsáveis não fariam nada. Não percebiam ou ignoravam. (…) Eu sou negro, filho de negro, neto e bisneto de negro, tenho orgulho e não me vejo diferente de ninguém, ontem eu queria que os responsáveis pelo jogo (Árbitro, auxiliares) se posicionassem de modo imparcial e entendessem que não cabe tal atitude preconceituosa. (…) O racismo existe, existe, mas temos que dar um basta. Não cabe mais, chega! O cara foi um tolo, eu também fui por me deixar ser atingido. Eu ainda hoje tenho o privilégio de me manter com a cabeça levantada, mas todos nós precisamos refletir que nem todos os pretos e brancos podem estar na mesma condição.”

Nos remetemos mais uma vez ao caso do Aranha que em 2014 sofreu ofensas racistas pela torcida gremista. Muitos buscaram num primeiro momento desacreditá-lo, lançar suspeitas sobre seus motivos ao denunciar, acusá-lo de tentar se promover, dentre outras acusações mesquinhas para desviarem o olhar do que realmente importava ali que era um caso de injúria racial. O vice-presidente do Grêmio na época Adalberto Preis, em sua conta no Twitter, chegou a afirmar que o jogador “encenou” para retardar a partida, por exemplo.

Infelizmente, tal qual em nossa sociedade, no futebol permanece a lógica perversa de suspeição inicial sobre toda a vítima de racismo até que consiga provar de inúmeros modos que sua denúncia é verdadeira, ou seja, ela é duplamente penalizada: pelo ato racista e pela suspeição que diga a verdade sobre a violência que sofreu.

A mídia gaúcha posteriormente tratou como defeito ou falta de caráter a não aceitação de pedido de desculpas do clube por conta do episódio sofrido em 2014 na nossa casa, a Arena do Grêmio. Por que pressupomos que quem sofreu uma violência de qualquer natureza deva sempre perdoar? Aquele ou aquela que sofre racismo está legitimado a reagir do modo que lhe parecer o mais adequado e que nós aprendamos a não só pedirmos desculpas, mas sobretudo a reparar as causas que tem na injúria racial um de seus efeitos.

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