Detonautas, a banda de rock que pergunta!

Por Tiago Bueno.

A pergunta sempre foi o motor propulsor da pesquisa, da ciência e do conhecimento. Sócrates marcou a história da filosofia ocidental por sua habilidade incomum de desestabilizar “verdades”, através de perguntas bem formuladas. Na história da ciência moderna, Galileu Galileu, o “ombro gigante da física”, destronou a teologia e a filosofia escolástica da posição de detentoras últimas da verdade, sobre a natureza da realidade, através de perguntas.

Para recordar rapidamente, na época apareceu uma estrela nova no céu, com luminosidade variável. Esta estrela não poderia estar acima da lua. Caso estivesse, derrubaria completamente a visão de mundo comandada pelo poder papal e político da Igreja. A teologia, então, logo se pronunciou, asseverando que aquela estrela “medíocre” encontrava-se em posição sublunar, abaixo da lua. Galileu Galileu, no entanto, enfrentou este argumento de autoridade, afirmando que quem iria decidir se aquela estrela estava acima ou abaixo da lua não era o papa, mas a pesquisa. E a pesquisa demonstrou que o papa estava errado.

Mais adiante, na esteira dos acontecimentos do século XX, no Brasil, Paulo Freire, um dos maiores nomes da Pedagogia mundial e terceiro autor mais citado na área das ciências humanas, foi preso, aposentado compulsoriamente e exilado do país, devido a propor uma pedagogia da pergunta. Na época, alfabetizava-se adultos com um sistema de ensino onde, necessariamente, impedia-se a pessoa de pensar, de questionar e de contextualizar seu pensamento.

Era um método repetitivo de palavras vazias, onde aprendia-se a ler sem refletir. Expressões do tipo “Eva viu a uva”, faziam parte do cardápio intelectual dos alunos. Paulo Freire, no entanto, ao se deparar com aquilo, propôs que os educandos fossem desafiados a pensar. Segundo ele, a educação não pode ser um simples exercício mecânico de cópia de respostas prontas que os outros nos dão. Ela precisa nos desafiar a pensar, através de perguntas bem formuladas, a fim de construirmos pensamento autêntico e sermos capazes de ler nossa realidade. Nesse contexto, cabe ao educador questionar os educandos, formulando perguntas que os situem dentro de uma realidade: “Quem produziu as uvas que a Eva viu? E quem está lucrando com a venda das uvas?”. Atualmente, no Brasil, ainda há uma pequena parcela de pessoas que, infelizmente, buscam desfazer a produção intelectual de Paulo Freire. Num âmbito mais geral, o que se busca interromper é um processo de conscientização política, que se dá mediante o desenvolvimento da habilidade de se fazer perguntas.

Por exemplo, neste momento, uma pergunta está sendo capaz de desestabilizar e provocar verdadeira ebulição emocional na atual família que ocupa a presidência do Brasil. A primeira dama, Michele Bolsonaro, está em vias de processar a banda de rock, Detonautas, que, através da sua arte, deu nova visibilidade à mesma pergunta que, dias atrás, levou o seu marido, o presidente Jair Bolsonaro, a ameaçar encher de porrada a boca de uma jornalista. Afinal, porque uma simples pergunta, que é baseada nos relatórios do COAF, não pode ser respondida pelo presidente nem pela primeira dama? Responda à pergunta, Michele, porque o Queiroz e a sua mulher repassaram R$ 89 mil para a sua conta? Tudo bem em perguntar ou devemos apenas copiar o conteúdo e devolvê-lo na prova, como alunos medíocres e bem comportados? Que diabos essa banda Detonautas tinha que ressuscitar essa maldita pergunta, hein primeira dama Michele Bolsonaro. Não precisa se defender. Isso não é uma acusação. É só uma pergunta que pode mudar a história.

Aqui a música com a pergunta do Detonautas.

Tiago Bueno é professor e pesquisador sobre Inteligência e Preparação Emocional de Jovens e Adultos. É também autor do livro “Ser quem você é: como usar a comunicação não-violenta” e criador do áudio diário “Vento da Liberdade”. Publica em seu blog Laboratório Itinerante de Diálogo Regenerativo.

Um comentário em “Detonautas, a banda de rock que pergunta!

  • 27/09/2020 em 11:45
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    Hey, Micheque, conta aqui pra nós!

    Resposta

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