A hipocrisia nossa de cada dia

Por Grêmio Antifascista

“A violência contra a mulher aumentou 50% durante a pandemia. Todo tipo de violência doméstica é CRIME. Você não está sozinha. Acompanhe nossas redes sociais e participe desta ação. #MulherLigue180”

Essa foi a campanha que o Santos FC lançou em agosto, alertando para o aumento da violência contra mulheres na pandemia. No contexto em que estamos inseridos, de isolamento social em decorrência do avanço do COVID-19 no Brasil, as mulheres ficaram ainda mais vulneráveis às agressões físicas dentro de suas próprias casas, o que resultou em um aumento de denúncias de violência doméstica. No Rio de Janeiro, por exemplo, o aumento foi de 50%. No Rio Grande do Sul, o número é ainda mais alarmante: 73%. As agressões contra as mulheres não são apenas físicas, mas também morais, psicológicas, patrimoniais e sexuais.

Quando um clube de futebol decide abraçar uma causa tão importante quanto o combate à violência contra a mulher, torna-se responsável pela mensagem enviada e as ações decorrentes dela, mas não foi isso que o Santos fez.
No dia 10 de outubro, o clube anunciou a contratação de Robinho, jogador condenado por estupro na Itália. A atitude do clube do litoral paulista é, no mínimo, contraditória. Ao contratar um condenado por violência sexual, naturaliza a agressão contra mulheres e resume o problema ao campo discursivo. Ou seja, o Santos resumiu sua própria campanha – extremamente importante e oportuna – a um blá blá blá para atrair mídia no momento que, sem constrangimento, contrata e apresenta um estuprador condenado. A violência contra as mulheres vai muito além do ambiente doméstico: está em todas as camadas da sociedade, inclusive no futebol, onde são comuns as cenas de assédio e agressão. Apesar do futebol ainda ser um ambiente masculino, as mulheres estão ocupando todos os espaços do jogo. Temos mulheres em comissões técnicas, atuando na arbitragem, na cobertura de clubes e jogos e, é claro, nas arquibancadas. Porém, isso não é o suficiente para barrar a violência que ainda persiste nesse meio. Em 2018, uma jornalista que estava cobrindo o clássico GreNal foi xingada de “puta” por um torcedor e, na mesma partida, mulheres que estavam no camarote foram agredidas com gestos obscenos por homens que estavam na arquibancada.

Quantas vezes mulheres que estão trabalhando ou mesmo torcendo foram alvos de violência nos estádios? O que faz com que homens achem engraçado fazer gestos obscenos para as mulheres que estão em condições iguais de torcedoras? Essa é a realidade dos estádios, e é um reflexo fiel da realidade doméstica. Não podemos naturalizar o gesto obsceno, o xingamento, a agressão. Um estupro não é um “pequeno deslize” na conduta de uma pessoa nem podemos aceitar a conduta do Santos – que tem todo o nosso repúdio.
Nossa solidariedade para todas as vítimas de agressão, em especial às santistas, que, como já é comum para as mulheres que frequentam o futebol, foram novamente desrespeitadas. O combate à violência contra a mulher é mais do que uma campanha de frases de efeito, mas uma necessidade crescente e urgente, e os clubes de futebol também devem abraçar (de verdade) a causa.

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