Mas e a eleição no Inter?

por Coluna Vermelha:

Alguns dias atrás um conselheiro do Internacional, daqueles que são considerados “homens de escol” no ambiente político colorado, publicou um texto em um site jurídico chamando atenção para o fato de que a gestão do Inter está sendo disputada entre homens do Judiciário, referindo-se aos desembargadores que concorrem em chapas para o Conselho de Gestão. O articulista, que é oriundo desse Poder, cometeu a indelicadeza – para dizer o mínimo – de sequer citar o nome dos outros dois candidatos. A visão de que o Inter pode vir a ser “governado” por um desembargador nos próximos três anos nos desperta para outra questão: qual a interferência, se é que existe, da política institucional no ambiente interno do Internacional?

Ao longo da história, sabemos que a política institucional, chamada também de política partidária, esteve sempre presente no contexto do Inter. O patrono do clube era um homem da política. Já tivemos nomes políticos de destaque exercendo cargos importantes, até mesmo a presidência do Conselho Deliberativo. A cada eleição para o Legislativo do clube vemos nomes de agentes políticos com certo destaque nas nominatas das chapas. Algumas dessas pessoas realmente prestam serviços ao clube, mas infelizmente esta não é regra, porque, em geral, os seus nomes atendem muito mais a interesses estranhos ao Inter, quando não aos próprios interesses pessoais. Falando de forma mais clara, muitas pessoas de destaque no ambiente político republicano oferecem seus nomes para dar força às chapas e/ou mesmo para usar o clube como trampolim político.

Na eleição que se avizinha, porém, há um caso muito interessante. Uma das chapas para o Conselho Deliberativo, exatamente aquela constituída pelo grupo hegemônico na política do Inter há quase duas décadas, traz como segundo nome o atual candidato ao Paço Municipal, Sebastião Melo. Por curiosidade, pesquisamos a rede e não encontramos nenhuma manifestação pública do candidato em questão em que tenha se identificado como colorado. Frequentadores do Beira-Rio de longa data que somos, também não lembramos de tê-lo visto nas arquibancadas do Gigante. Qual a intenção dessa dupla candidatura, então?

A plataforma política do candidato Melo é muito afinada com o programa implementado no governo central, que, como sabemos, flerta com o fascismo de forma muito consolidada. O próprio candidato Melo já se declarou admirador do presidente da república e disse que algumas políticas do Executivo Federal serão repercutidas e repetidas na capital, caso seja ele o próximo prefeito. Não é arriscado dizer que o governo municipal, caso Melo seja eleito, será uma forte base de sustentação do programa autoritário e antipopular do Planalto. Assim, temos muito claro que apoiar Melo no pleito municipal é dar vigor ao projeto bolsonarista.

Mas e a eleição no Inter? Neste particular, que é o que nos interessa neste texto, a candidatura Melo atende a dois interesses: (1) o do próprio candidato, que se beneficiará de uma exposição importante do seu nome com vistas à eleição municipal, como mostra a matéria publicada ontem pela maior rede da mídia tradicional do estado; (2) o do grupo dominante, que atua na gestão do clube com o mesmo viés autoritário do governo brasileiro. A alta direção do Internacional, nesses quatro últimos anos de mandato, caminhou a largas passadas em direção à elitização do clube. Além disso, a gestão, apoiada pela mesa diretora do Conselho Deliberativo, governou o Inter de forma totalmente antidemocrática, chegando em alguns momentos ao totalitarismo. Quando a torcida colorada foi alvo de perseguição por parte dos órgãos de segurança, a gestão não se posicionou ao seu lado, como era de se esperar, mas, pelo contrário, nada fez para defendê-la, como quando fez vistas grossas às violentas investidas da Brigada Militar contra o povo colorado. Um episódio muito repercutido foi aquele do “atraque” da BM a torcedores e torcedoras no Marinha, ocasião em que a atual Presidenta do Conselho Deliberativo, que à época era Secretária da Mesa, foi submetida à humilhação pública com outras pessoas que apenas confraternizavam antes de jogo, como é tradição nos jogos no Beira-Rio. O que fez a direção? Nada! Como também nada fez em outro caso que ganhou repercussão nacional e até mundial, quando uma torcedora defendeu as cores do Inter quando uma torcedora do Grêmio debochava dentro do espaço da torcida colorada no Beira-Rio após um Gre-Nal. Pelo contrário. A gestão puniu sumariamente a torcedora que defendeu a nossa bandeira, assim como o seu irmão, conselheiro do clube, e deflagou um processo macarthista de perseguição a torcedores e torcedoras que se identificavam no combate ao fascismo, promovendo até medidas judiciais vetando o uso dos símbolos do clube com esse propósito. Como se ela, a gestão, e não o povo colorado, fosse detentora dos direitos sobre os nossos símbolos.

Com isso, fica cristalino que o projeto político do candidato Melo se alinha muito bem à maneira como a atual gestão dirige o Inter, com base na linha dura, na falta de democracia e transparência e trilhando o caminho da elitização. Ter, então, um governante que compartilhe as mesmas práticas adotadas pelos gestores é bastante útil para consolidar esses programas.

Importante ressaltar que os aliados de Bolsonaro são inimigos diretos das Torcidas Organizadas, especialmente através da figura do Major Olimpio que articula um projeto de extinção de todas as Torcidas.

É interessante que aquelas pessoas que defendem a separação entre o clube e a política institucional tenham atenção ao que estamos trazendo aqui. E é fundamental também a desconstituição da narrativa que vem crescendo, principalmente na mídia, que define a política como responsável pelas mazelas do Inter. A má política, esta que usa o clube como plataforma de interesses pessoais e estranhos aos anseios da torcida, esta que faz com que uma pessoa que nunca foi facilmente identificada como colorada resolva entrar na política interna ao mesmo tempo em que disputa o cargo eletivo no Executivo municipal, esta que persegue a torcida, que manipula informações, que distorce fatos e que busca se perpetuar no poder, sim, esta é muito prejudicial. A boa política, séria e comprometida com os interesses do Inter e da sua torcida, esta é necessária e imprescindível para o resgate da nossa história de Clube do Povo e para que o Inter seja recolocado na estrada das grandes conquistas. Cabe ao sócio e à sócia, que votam, e à torcida em geral, que é a legítima e única dona do Inter – “O Povo fez o Inter!” -, fazer a distinção entre o que é mais adequado à nossa história de Clube do Povo, aberto a toda gente!

Um comentário em “Mas e a eleição no Inter?

  • 18/11/2020 em 10:50
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    Que baita texto. Fora MIG do inter e Fora Bolsonaro do Brasil

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