Ato de revolta contra o genocídio negro acontece na frente do Carrefour de Porto Alegre

No final da tarde do dia 20 de novembro de 2020, milhares de manifestantes ocuparam a rua Plínio Brasil Milano, em frente ao Carrefour do Passo da Areia, zona norte de Porto Alegre. O ato foi uma resposta ao assassinato de João Alberto Silveira de Freitas “Beto” no dia anterior por seguranças contratados pela multinacional francesa – sendo um deles um policial militar fora de serviço.

Desde de manhã houve movimento no supermercado da zona norte de Porto Alegre. Familiares e amigos de Beto se reuniram para manifestar sua indignação diante do assassinato. A partir das 18h, reuniram-se na frente do hipermercado fechado, diferentes segmentos dos movimentos negros, torcidas organizadas, grupos antifascistas, pessoas em situação de rua, moradores do bairro e os mais diversos grupos e pessoas que se posicionam contra o racismo e o genocídio do povo negro. Nesse momento inicial, foram realizadas manifestações de cultura popular – como capoeira angola -, e denuncias ao Carrefour e à polícia na forma de faixas, cantos e pichações. O hino da torcida organizada  “Os Farrapos” – do Esporte Clube São José, vulgo “Zequinha” –  do qual Beto fazia parte foi entoado pelos torcedores e em sua homenagem flores foram erguidas no meio da multidão.

O clima de tensão já era evidente desde o início. A polícia estava cercando a manifestação, com batalhões nas principais avenidas do entorno, estando inclusive dentro do supermercado, possivelmente protegendo-o de eventuais saqueios. A multidão reunida expressava o mais puro sentimento de revolta. Escutavam-se cantos, gritos e palavras de ordem que se acompanhavam das explosões dos rojões e fogos de artifícios que ressoavam como o coração dos manifestantes indignados. As grades do supermercado e suas placas de propaganda foram destruídas e pixadas e por volta das 19 horas, esses grupos conseguiram entrar no pátio interno. A partir daí se intensificaram os ataques à estrutura. Um manifestante conseguiu subir em uma marquise e pichar “PM Assacina” na fachada. Aproximadamente 19h15, a polícia entrou no pátio do mercado e iniciou a repressão.

Enquanto alguns seguiram se defendendo da policia, outros manifestantes os aplaudiram e os encorajaram com palavras de apoio. Um dos nossos reporteres ouviu um manifestante, que frente a repressão se desesperou e gritou para a instituição notoriamente criticada por matar mais pretos e pardos: “pára de atirar, polícia, tem gente branca aqui!”. Ironia ou naturalização do racismo? Esperemos que o calor das barricadas e a fraternidade tecida no combate de rua possa ajudar a desconstruir o racismo incorporado e inconscientemente reproduzido.

Foram lançadas bombas de gás lacrimogênio em grande quantidade, dispersando parte dos manifestantes. Porém, um grupo considerável deixou a Avenida Plínio, se abrigou nas ruas internas do bairro e logo se reagrupou em frente ao mercado. A polícia seguiu a repressão na tentativa de dispersar o grupo restante, sem sucesso, já que os manifestantes retornavam ao local, com alguns grupos fazendo enfrentamento direto.

De fato, é difícil categorizar o que se passou como “confronto”, como insiste em rotular a mídia corporativa. Mais apropriado seria o termo “enfrentamento desigual”, já que de um lado tinha-se pedras e barricadas improvisadas, e de outro uma vasta estrutura comprada com dinheiro público, como armamento – bombas de gás lacrimogênio, balas de borracha, cassetetes…- e de defesa – capacetes, cotoveleiras, joelheiras, escudos, máscaras. O rechaço à policia foi únanime e as palavras de ordens acompanhadas pelas pedras apontavam à destruição da Policia Militar, considerada pela multidão como uma instituição racista e genocida.

Apesar de todas as condições contrárias, os manifestantes resistiram nas ruas por mais de uma hora e meia. Conseguiram causar mais alguns danos aos patrimônios, mostrando sua indignação pelas violências sofridas e uma linda homenagem a Beto. “Podia ser meu tio, nós temos que estar aqui!” ressaltou um dos manifestantes em meio ao gás lacrimogêneo.

Notamos um dos poucos protestos em que a revolta coletiva reivindicou a legitimidade em destruir o espaço físico de uma empresa multimilionária, como expressão da justa indignação por mais um assassinato entre tantos. Uma digna atitude de indignação com o Carrefour – visto como símbolo do genocídio da população negra – mas também com a instituição da polícia militar. Foi com raiva nos olhos e fogo no coração que alguns manifestantes enfrentaram à polícia; como foi com lágrimas nos olhos, falta de ar e tosse que muitas pessoas – inclusive moradores dos bairros e trabalhadores dos comércios na região – receberam a fumaça das bombas compradas com dinheiro público.

Assim, segue a revolta contra o genocídio e a opressão de mais de 500 anos, que afeta  não somente os povos negros, mas também das comunidades indígenas, favelados, pobres, mulheres, campesinos, LGBTQIs, e a vasta parcela da sociedade reduzida ao papel de “minoria”. Circulam nas redes sociais chamados para a união e organização em uma nova manifestação na segunda feira 23/11/2020 em frente ao Carrefour da Avenida Bento Gonçalves, em Porto Alegre.

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