Seguem os protestos por justiça para Beto

Nesta segunda-feira 23 de novembro, centenas de pessoas se reuniram na frente da unidade do Carrefour da Bento Gonçalves, no bairro Partenon, na zona Leste de Porto Alegre. Revoltados pelo assassinato de João Alberto Silveira Freitas, executado na véspera do dia da consciência negra no estacionamento do Carrefour do Passo da Areia na zona norte de Porto Alegre, os manifestantes se mobilizaram novamente contra a multinacional.

Foto: Alass Derivas
Foto: Alass Derivas

A Brigada Militar estava presente no local, posicionada para reprimir antes mesmo do ato começar. A partir das 18h, foram lançados gritos de ordem como “Vidas Negras Importam” lembrando o assassinato de George Floyd nos Estados Unidos que levou o povo a tomar conta das ruas de diversas cidades do país nos meses passados.

Foto: Alass Derivas

Gritos denunciando o racismo do Carrefour e exigindo sua retirada da cidade também foram alçados. A raiva foi direcionada novamente contra a polícia militar, denunciada como  defensora do capital, da exploração e do racismo. Reforçada com cavalaria e helicóptero, a instituição honrou a sua má fama. João da Rosa Zeferino pagou o preço. O jovem que nem participava da manifestação recebeu uma cacetada por parte de um PM da cavalaria e logo foi atropelado pelo cavalo. Segue no hospital com uma lesão na nuca.

Corajosamente, desafiando o amedrontamento, o grupo se aproximou da trope de choque manifestando seu repudio pela sua existência e tudo aquilo que representa. As ruas foram pichadas, as grades do supermercado abertas com a raiva dos manifestantes e colocadas no meio da rua onde também foram acesas algumas barricadas. Ainda, alguns rojões foram lançados no Carrefour, que foi novamente protegido sem demora pelas tropas da BM que penetraram no estacionamento para defendê-lo.

Foto – Marco Favro/Reuters

Gás lacrimogênio, balas de borracha e bombas de efeito moral foram jogadas na tentativa de dissolver o protesto que resistiu na avenida Bento Gonçalves e seguiu nas suas ruas adjacentes. Os manifestantes responderam com pedras à polícia que avançou com o reforço da cavalaria. Novas barricadas com fogo foram acendidas para impedir a chegada das tropas da PM. Em um combate extremamente desigual, os manifestantes subiram em direção ao Morro da Cruz.

A polícia os caçou, tornando-se cada vez mais agressiva na medida em que subia o morro. Tidos como verdadeiros heróis por eles mesmos, começaram a entoar seus hinos de ódio e seguiram reprimindo com bombas de gás e efeito moral. Cercaram um grupo de manifestantes que ainda tentava resistir, alguns conseguiram fugir e outros buscaram refúgio em uma casa que logo foi invadida pela polícia. A presença de crianças de colo na casa não impediu a BM de apontar suas armas, ameaçar e puxar para fora os manifestantes. Os homens armados mandaram que todos saíssem do local com as mãos para cima. Os detidos foram os jovens negros, o resto das pessoas foi mandada embora pela polícia, que seguia apontando as armas na sua direção para evitar qualquer tipo de retorno. Os jovens detidos foram revistados e logo soltos. Do que soubemos até agora, ninguém teria sido preso.

“Uma outra solução é possível, é uma reestruturação do mundo” dizia Franz Fanon a meados dos anos 1950. Destruir o racismo é destruir toda a estrutura de poder e dominação que se ergueu pisoteando os conhecimentos, os modos de viver e a sabedoria dos nossos ancestrais. Nestas duas manifestações em justiça para Beto, um homem negro assassinado por dois seguranças, um deles sendo também policial, dentro do estacionamento de um supermercado filial de uma empresa estrangeira, a polícia – que diz defender os interesses do povo brasileiro– defendeu e resguardou uma propriedade francesa.

Uma atitude como essas dá a entender que, para os governantes, as estruturas materiais do capitalismo valem mais que as vidas das pessoas – sobretudo das pessoas negras. Enquanto o Carrefour do Passo da Areia vergonhosamente reabriu suas portas deixando cair no esquecimento o assassinato de Beto, no supermercado da Bento, a tropa de choque jogou suas bombas no povo revoltado que quis erguer a memória de Beto e transformá-lo em um símbolo combativo da luta contra o racismo. Funcionários do local foram sequestrados dentro do supermercado até as 22h obrigados a defender o supermercado. O Carrefour – mas não somente esse mercado – tem histórico de manifestação de racismo, seja contra seus funcionários ou contra os clientes. Escondidos atrás da naturalização do racismo, muitos desses relatos nunca vieram à luz, como muitos dos assassinatos de parte dos policiais nas favelas nunca chegam a ser cobertos pela imprensa.

Por Beto, pelo pequeno Miguel Otávio, por Ágata Felix, por João Vitor e tantos outros…

Está na hora de sonhar com um mundo novo. Está na hora de se organizar!

*Foto de destaque de Silvio Avila/Reuters

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