Famílias produtoras de orgânicos denunciam efeitos de pulverização em Nova Santa Rita

Nas últimas semanas, as famílias que vivem e produzem alimentos orgânicos no Assentamento Santa Rita de Cássia 2, em Nova Santa Rita/RS, começaram a notar uma súbita piora em plantas que, até então, estavam saudáveis. Os produtores perceberam que os danos eram gerais e que, além dos efeitos sobre os cultivos, também houve um número anormal de casos de enjoo e dor de cabeça. Segundo os assentados, isso tudo teria começado depois que – nos dias 10, 11 e 12 de novembro – um avião pulverizou agrotóxicos em uma monocultura de arroz vizinha ao local.

Joice Sarmento dos Santos, que vive no assentamento, destaca que as pulverizações já vinham acontecendo, porém, as que foram realizadas entre os dias e 10 e 12 teriam sido “fundamentais para a deriva no município”. O agricultor orgânico reforça que os agrotóxicos teriam atingido também a zona urbana de Nova Santa Rita, próxima ao local do assentamento: “Foi uma deriva no município, não só nas vinte famílias [que produzem orgânicos] nem nas cem [que vivem no assentamento]. Ela virou em cima da cidade, pegou para além do Velopark. A deriva atingiu todos, na cidade, nas vilas, aqui pegou em todo mundo. Como comprovação, tem os boletins de saúde, por intoxicação, tem bastante boletim protocolado”.

Ele destaca ainda que cerca de 15 a 20 famílias residentes no assentamento deram parte na Polícia Civil, fizeram a denuncia no meio ambiente local, registraram o ocorrido na Secretaria de Agricultura do município e do estado, bem como no Ministério da Agricultura. Os órgãos competentes levaram amostras das hortas e frutíferas orgânicas atingidas para análise.

Uvas apodrecendo no pé. Registro de Joice Sarmento dos Santos.

Frente a um problema recorrente, Joice destaca os efeitos sobre a produção de alimentos: “A parte de melão já não produz mais nada, os produtores nem produzem mais por causa de problemas que não sabem a causa. Nós, agora, estamos identificando a deriva, é deriva de veneno. É veneno!”. O agricultor reforça que é comum que muitos apontem o clima ou as secas como culpados pelas perdas da produção. Porém, a partir do caso recente – no qual os produtores de hortaliças contavam com irrigação e insumos orgânicos -, as pessoas vêm tomando consciência do problema. “A deriva é o que mais tem prejudicado, e a gente não tinha notado antes, porque era em menos intensidade. Agora, nesse ano e nesse assentamento, foi com intensidade máxima. Pulverizaram aqui e deu deriva na lavoura onde eles queriam”, conclui.

A partir disso, os assentados estão demandando a proibição total das pulverizações aéreas de agrotóxicos, pelo menos no município – que é um dos grandes produtores de orgânicos do estado. Tendo em vista que problemas por pulverização de agrotóxicos se repetem de maneira cíclica todos os anos durante o período da produção, sendo amplamente documentados, registrados e noticiados (em vídeo, texto ou áudio) os impactos negativos sobre a produção de alimentos e saúde humana, há uma exigência nítida de pessoas e de organizações da sociedade civil pela adoção de medidas de restrição ou proibição. Mas o contrário é o que vem sendo registrado, com a intensificação do uso de agrotóxicos, o que gera o risco da consequente possibilidade de uma verdadeira hecatombe socioambiental – com impossibilidade de cultivo de alimentos, morte de polinizadores, contaminação de ambientes e geração de doenças.

Reportagem: Bruno Pedrotti.
Imagem destacada: Leonardo Melgarejo.

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