Entre hienas e farrapos

Por Coluna Vermelha:

A hiena se apresenta em bandos. E rindo. E se alimenta de restos. A democracia no Brasil é presa da hiena. Ela, a democracia, está como que aos restos. Restos que as hienas comem rindo. O ambiente político do Internacional reflete o plano nacional. Isso ficou muito claro quando a dupla dirigente do Inter foi a Brasília presentear o sujeito que preside a república com uma camisa do Clube do Povo. Como aquela hiena não tolera o vermelho, ganhou uma camisa branca. Sorrisos para todos os lados.

Da mesma maneira como o macarthismo à brasileira persegue o “inimigo vermelho” Brasil adentro, também no Internacional há uma fogueira do santo ofício, permanentemente alimentada para nela fazer arder as bruxas que não rezam pela cartilha. Foi assim quando uma torcedora colorada cometeu a heresia de defender a honra do Inter, enxovalhada por uma gremista dentro do Beira-Rio; foi assim quando o braço armado do projeto ultraliberal imposto no Rio Grande do Sul botou coloradas e colorados na parede, ou melhor, nas árvores do Marinha, porque, afinal de contas, estavam a cometer o absurdo de confraternizar antes do jogo – ora que ousadia!; e foi assim em tantas outras ocasiões, quando a gestão do clube não moveu uma palha para defender o seu povo. E essa gestão quer se perpetuar. Se não pelos nomes, pelas ideias e práticas. Não seria exagerado dizer que o Internacional vive sob uma ditadura. E a chance de continuar vivendo nesse regime é enorme, quase uma certeza.

A ditadura, rainha das hienas, assume muitas formas. Ela pode vir pela hierarquia da caserna; ela pode professar um discurso de fé cega; ela pode até se fantasiar de governo democrático. Há uma forma moderna de ditadura, porém, que é absolutamente mais perigosa, porque assume ares de legitimidade: a ditadura do Judiciário. Fatos recentes acontecidos no nosso país mostram que esta tem sido uma das facetas preferidas no braZiu dos anos 2000. O paladino da justiça, que virou ministro e foi traído/traiu o seu próprio messias não nos deixa mentir.

No âmbito doméstico, aquele que nos interessa no momento, as eleições no Internacional (foram duas: conselho de gestão e conselho deliberativo), mostraram como a política do Inter é suscetível aos acontecimentos externos. Semanas atrás um conselheiro do Internacional, com larga história no clube, escreveu em um blog jurídico que o Inter será governado nos próximos três anos por um desembargador. Ainda era o primeiro turno e havia duas chapas que não eram de desembargadores, mas o articulista preferiu quase ignorá-las, referindo nominalmente apenas as que lhe interessavam. Detalhe interessante: o escriba é membro inativo do Poder Judiciário.

Agora, no segundo turno, tendo apenas um dos magistrados sido alçado ao pátio, o pleito foi parar… na Justiça. A chapa do desembargador praticou atos ilícitos e supostamente ilegais. Ilícitos sem dúvida, eis que ferem a licitude interna do processo eleitoral; ilegais, em suposição, por em tese contrariarem a novel Lei Geral de Proteção aos Dados. Desnecessário entrar no mérito, pois é de conhecimento público. Apenas a referir que o candidato desembargador concorre sob a proteção e uma decisão precária (liminar deferida pela Justiça), que poderia (deveria?) ter sido contestada pelo Internacional. Poderia – ou deveria -, mas não foi, e assim o Doutor Desembargador foi à urna. Talvez seja relevante dizer que ele presidiu em tempos idos o Tribunal que garantiu a sua presença na eleição e que a ação que lhe restitui a condição de candidato é patrocinada por um causídico que já foi presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil, Ou seja, se não acaba em pizza, a eleição colorada acaba em liminares. E liminares, no plural, porque antes disso o mesmo candidato conseguiu uma decisão liminar determinando a censura dos jornalistas que denunciaram a falcatrua.

Isso não é só. Tal é o apreço dos homens de escol da política colorada pelo Terceiro Poder, que o nobre magistrado que escreveu o artigo antes citado, ele mesmo se valeu de uma decisão bastante inusitada da Justiça. Estando inadimplente, portanto não habilitado a votar, obteve uma liminar que determina ao clube a sua inclusão na lista das pessoas aptas a exercer o direito político no Internacional. Ficamos cá pensando se as pessoas do povo, que não conseguem pagar as mensalidades sociais, decidissem todas entrar na Justiça pedindo que lhes fosse garantido o direito de votar mesmo estando em débito. Será que os juízes ou as juízas a quem coubessem as decisões teriam a mesma boa vontade que tiveram com o ex-colega? Será que o Tribunal “Farroupilha” teria a mesma predisposição a interferir em questões interna corporis de uma entidade privada, como é o Internacional, caso “um dos seus” não figurasse entre as partes?

Um comentário em “Entre hienas e farrapos

  • 16/12/2020 em 14:01
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    Excelente retrato da triste realidade que permeou nossas eleições. Sobre tua “dúvida” quanto à boa vontade de outros magistrados em situações similares, posso dizer que em uma demanda por mim patrocinada, uma liminar levou 40 dias pra ser apreciada (e indeferida). E só houve pronunciamento judicial por que “ousei” agendar um horário para falar pessoalmente com a magistrada. Na prática, com o indeferimento da liminar, veio a reboque a impossibilidade de um infante ter garantido a progressão do ensino pois seus pais não conseguiram honrar os pagamentos das mensalidades em plena pandemia, logo terá que mudar de escola. Pelo menos o judiciário está à disposição do jurisdicionado para se pronunciar (e conceder liminares) para que sócios inadimplentes tenham direito a voto em pleito de clube.

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