Amanhã eu não vou sentar na esquina

Por José Falero

Quem me conhece bem sabe que eu tenho um certo hábito: quando estou pelo Centro de Porto Alegre, resolvendo pepinos, gosto de comprar um latão e me sentar na escadaria da Borges pra observar a cidade enquanto bebo e fumo um cigarro.

Desde ontem, passei a fazer a mesma coisa aqui em Belo Horizonte. Na volta da padaria, no fim da tarde, me sento numa certa esquina daqui e fico ali, tomando um gole, fumando e observando os mineiros. Imaginei que essa esquina fosse mais segura do que a escadaria da Borges. Afinal, lá no Centro de Porto Alegre, a polícia me vê como um suspeito, um possível batedor de carteira, um cara que com certeza não mora no Centro e, por isso, não deveria se sentar na escadaria da Borges. Mas essa esquina daqui, poxa, é num bairro de periferia! Pensei que se a polícia me visse ali, pensaria que eu devia ser morador das redondezas, ainda mais estando eu com uma sacola cheia de pãos como eu estava.

Bom, eu me enganei.

Então, hoje, quando me sentei na esquina pela segunda vez, aconteceu o seguinte. Estava eu ali, sentado, bebendo, fumando e observando, quando percebi que, à minha direita, lá longe, havia uma viatura da polícia, vindo na minha direção. Ela não pôde se aproximar imediatamente, porque o sinal estava fechado e havia uma enorme fila de carros entre eu e ela. Eu fiquei com a cabeça virada, olhando pra lá. Não convém tirar os olhos de uma aranha, de uma cobra, de um escorpião ou de qualquer animal perigoso quando a gente sabe que ele está por perto.

E foi justamente por estar olhando pra lá que não percebi a aproximação de duas motos, pelo meu lado esquerdo. Quando eu olhei pra esse lado, os policiais já estavam descendo das motos, sacando as armas e apontando pra mim. Vira. Mão na cabeça. Onde tu mora?

Eu fui respondendo. Disse que morava ali em cima e parei pra respirar um pouco. Só tinha ido comprar pão. A sacola não me deixava mentir. A foto na identidade era eu mesmo. O nome no cartão de crédito era mesmo da identidade. Tudo certo.

Eu fiquei o tempo todo pensando no livro do Jeferson Tenório, O avesso da pele.

Depois da abordagem, a vergonha de ir pra casa sob uma chuva de olhares. É meio como estar nu. É como se tivessem tirado um pouco da minha dignidade, da minha humanidade.

Já em casa, passado o susto, fiquei pensando que tem gente que nasce, cresce, chega à adolescência, atravessa a juventude, envelhece e morre sem passar uma única vez sequer por essa situação, da qual eu e aqueles como eu já estamos cansados.

Amanhã eu não vou sentar na esquina.

 

* Texto originalmente publicado nas redes sociais do autor.

Foto de divulgação.

 

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