GreNal e racismo: uma combinação que precisa ter fim.

Por Coluna Vermelha:

É passado mais um GreNal em terra gaúchas, desta vez válido pela 32ª rodada do campeonato brasileiro de 2020 que adentrou 2021 em função da pandemia de covid-19. O GreNal 429 foi um clássico emocionante como todos são: bola na trave, disputas duras, times taticamente bem armados, virada espetacular aos 50min de partida e mais uma vitória do colorado. Já são a 157. Enfim, todos os elementos tradicionais do maior clássico do futebol brasileiro. Mas também vieram à tona comportamentos infelizmente tradicionais de uma parcela desprezível de torcedores azuis. 11 jogos de invencibilidade parece que não foram o suficiente para que o clube do Humaitá e sua torcida adquirisse a grandeza necessária para aceitar o dia que seria novamente derrotado. Por que era uma questão de tempo, não há tabu que dure para sempre e o retrospecto histórico aponta o oposto. A grandeza de um clube se mede nas derrotas e não nas vitórias. Ganhar é fácil, difícil é perder, reerguer, sustentar e voltar a ganhar. Não temos a prepotência de sermos imortais. Somos gigantes, temos grandeza. Somos mortais sim, Gigantes caem e o tombo é grande, mas somos sustentados por algo maior do que o mito da imortalidade, somos sustentados pela força de um povo que ergue um gigante sobre as águas e que carrega a passionalidade de serem o Inter. Do outro lado, o mito da imortalidade somado a negação histórica de perder para aqueles que são considerados subproduto deles próprios leva a irracionalidade cotidiana de negar a realidade e transforma a experiência de torcer para tal clube em uma espécie de terraplanismo do futebol. Esse conjunto de fatores pode ajudar a explicar o motivo de tamanha raiva e discursos de ódio frequentemente propagados pelo lado azul. Não são todos, evidente, mas também não são poucos, há um comportamento em comum.
Não é a primeira, nem a segunda e provavelmente não será a última vez que os temas racismo e grêmio estarão em um mesmo texto. É de conhecimento de todos que o Rio Grande do Sul abriga em sua cultura tradicionalista fortes discursos racistas e a origem de sua ocupação territorial e histórica ajuda a explicar boa parte da presença destes discursos na construção do mito gaúcho. É verdade também que o Brasil como um todo é um país que oprime, silencia, tortura e mata negros todos os dias. O racismo não é exclusividade da torcida gremista. Mas assim como a chave para entender a origem do racismo na cultura gaúcha está no estudo da história, entender o motivo de grêmio e racismo estarem comumente interligados ao longo do tempo também. É preciso aceitar os fatos históricos ligados à origem dos clubes e que isso influenciou e ainda influencia na construção do mito de cada um bem como sua cultura torcedora. Negar a historicidade porque ela não lhe é conveniente no presente é decretar que nada nunca mude e que velhas práticas sejam aceitas por serem “culturais”. Ser cultural não é aval para nada. A cultura é constantemente moldada e modificada pelo tempo e pelos atores envolvidos nos processos. Se o racismo é estrutural – e de fato é – porque no Brasil inteiro apenas uma torcida se sente no direito de reproduzi-lo abertamente e maquiá-lo como “folclore”? Por que não aceitar que há sim um erro que precisa ser corrigido? Se as prática racistas ocorrem todas as torcidas e instâncias sociais porque nesta específica não são coibidos mas se sentem confortáveis? Claro que sempre há quem argumente: “Mas e a homofobia da torcida do Inter?”. Bom, a equivalência de opressões neste caso serve apenas como cortina de fumaça para negar a outra. Não há contradição nenhuma em apontar práticas racistas de uma torcida enquanto luta contra as práticas homofóbicas de TODAS as outras. Se não mudarmos, com certeza sofreremos também a taxação de ser exclusivamente a única torcida que permanece fiel à homofobia enquanto o mundo já mudou. Da mesma forma recorrer a fontes que supostamente mostram a presença de negros no time do Grêmio na década de 1920 ou oralidades atribuídas à família de Lupicínio soam muito mais como a velha máxima “tenho até amigos negros, como posso ser racista?” do que necessariamente algo que acrescente a discussão. Há de ser questionado em que situação aqueles negros estavam no time. Eram negros que podiam se orgulhar de serem negros? Ou eram negros que precisavam esconder sua negritude para ali estar? O objetivo do debate não é fazer competição histórica de qual clube teve mais racismo em sua história, isso seria contraproducente e ridículo. Nossa luta é para que as culturas torcedoras façam a abolição completa de termos de qualquer teor opressivo. E para que isso aconteça, é preciso colocar as cartas na mesa, dar nome aos bois, chamar as coisas pelo nome que são e não negá-los. É sim vergonhoso ter um passado racista, é uma mancha que nunca será apagada. Da mesma forma é uma vergonha e uma mancha na história construir sua cultura torcedora em cima de cantos homofóbicos. Mas mais vergonhoso ainda é sustentar teorias que neguem estas manchas e não permitam que o novo surja e modifique estruturas. Infelizmente, para estes, resta dizer que o mundo já mudou e seguirá mudando, e aqueles que seguirem destilando seu ódio travestido de torcida serão cobrados das formas necessárias. Não passarão.

2 comentários em “GreNal e racismo: uma combinação que precisa ter fim.

  • 27/01/2021 em 13:04
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    O RACISMO E OS RACISTAS TEM QUE ACABAR

    Resposta
  • 27/01/2021 em 18:27
    Permalink

    Bah, primeiro parágrafo é de um maquiavelismo bárbaro: olha só, não somos pedantes, mas…somos!
    afffff
    E continuou no texto dizendo q não era tal coisa, mas acaba fazendo tal coisa.
    “O objetivo do debate não é fazer competição histórica de qual clube teve mais racismo em sua história, isso seria contraproducente e ridículo.” – tá bem claro que o objetivo é esse, aliás, velha tática do “bem versus mal”.
    Clubismo é uma merda mesmo. Não sei como se pode avançar assim.

    Fogo nos racistas!

    Resposta

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