Da Amazônia ao Wallmapu passando pela Serra Gaucha militares, policiais e jagunços assassinam e perseguem a quem luta pela terra

No dia 12 de fevereiro, Isac Tembé, jovem indígena do povo Tembé-Theneteraha e professor da sua comunidade foi assassinado com um tiro no peito por policiais militares na Terra Indígena Alto rio Guama, no nordeste do Pará. No dia 16 do mesmo mês, a lamien Emilia Milén foi assassinada de uma bala na testa por um jagunço, guarda de um condomínio privado. No dia 23 de fevereiro, uma nova operação policial-militar no Wallmapu, em Nueva Imperial, deixa baleado a um comuneiro Mapuche e vários feridos no território em processo de recuperação.

“O jovem Isac foi executado a tiros por policiais militares na noite da última sexta-feira, 12. Ele saiu para caçar depois de um dia de trabalho na construção de sua casinha para morar com sua família.” diz um trecho da Nota Pública do Povo Tembé Theneraha após a morte do jovem. Desmentindo a versão da Polícia Militar, o povo Tembé-Theneraha afirma que Isac foi assassinado covardemente pelos policiais que atuam ao serviço dos interesses dos latifundiários: “Nosso território sofre diariamente invasões e ataques por parte de exploradores ilegais de madeira ou de fazendeiros que insistem em manter a ocupação de partes da Terra Indígena Alto Rio Guama, através de cabeças de gado e de outras atividades econômicas”, afirmam na Nota Pública. Efetivamente, como relata o CIMI, o povo Tembé-Theneteraha sofre, de maneira recorrente, ameaças e ataques. Inclusive, o Ministério Público Federal (MPF) requisitou à PF e ao Exercito a realização de uma operação para proteger o povo Tembé-Theneraha de ataques de madeireiros. Porém, a polícia não defendeu Isac, foi quem o assassinou.

Isac Tembé. Fonte: Redes Sociais.

Não é só no Brasil que as forças repressivas representantes do Estado se aliam aos interesses econômicos dos fazendeiros, madeireiros e diversos empresários que usurpam os territórios ancestrais dos povos originários. No Wallmapu, em Panguipulli, a Lof* Llazcawe denuncia em um comunicado público o assassinato da jovem Emilia Milén, por parte de guardas do condomínio Riñimapu. “Como Lof Llazcawe queremos denunciar que no dia de ontem (16/02/2021), quase à meia-noite, foi assassinada por parte dos guardas, assassinos de aluguel, contratados pelo condomínio Riñimapu, nossa lamnien** Emilia, conhecida como Bau. Caiu por uma bala disparada em sua testa, disparada pelos guardas capangas contratados pelo condomínio […]” explica o comunicado. Há um ano, a comunidade Mapuche iniciou um processo de recuperação territorial na beira do lago riñihue, que tinha até então seu acesso fechado, restrito apenas ao condomínio Riñimapu. Foi nesse processo que a lamien Emilia chega no território para apoiar e fortalecer a comunidade na sua luta pelo retorno ao seu território ancestral, para libertar os morros e o lago da especulação imobiliária e das garras dos oligarcas. Durante a noite do dia 16 de fevereiro, ao ouvir gritos pedindo ajuda perto do lago, os integrantes da Lof se aproximaram e se depararam com o desalojo de uma família acampada na beira do lago. Ao perguntar aos guardas do condomínio porque estavam expulsando a essa família se o lugar era público, foram instigados a se retirarem do local. Desconfiando dos capangas e indignados pelas práticas de amedrontamento que esses utilizam para manter o domínio sobre as terras, os lamien decidiram caminhar até o condomínio para exigir que deixassem as pessoas se acercarem ao lago. Mas, foram recebidos com as balas dos guardas. Emilia, também conhecida como Bau, foi atingida de um bala na testa. Mulher trans e anarquista, Emilia era, como já foi dito, “um corpo em resistência lutando num território em resistência”.

fonte: Agencia de Notícias Anarquistas

Ainda, no dia 22 de fevereiro, durante outra operação policial no Wallmapu, em Nueva Imperial, a repressão deixou pelo menos uma pessoa baleada que logo fora sequestrada pelas forças policiais conforme relata o canal capucha_informa. Vale destacar que o governo de Piñera está militarizando o Wallmapu através da implementação de uma coordenação entre a polícia e o exercito. A ideia do governo é treinar os policiais a técnicas e tácticas de combate utilizadas pelo exército e “aprimorar a inteligência”. Com esse plano de sitiar militarmente os territórios ancestrais Mapuche, é uma verdadeira chacina que se aproxima no Wallmapu. Longe de se amedrontar, porém, os Mapuche, o povo da terra, não pretende baixar a cabeça diante da repressão como já afirmaram e demonstram cotidianamente. 

No sul do Brasil, a retomada Xokleng Konglui, no município de São Francisco de Paula resiste às intimidações da polícia. No dia 22 de fevereiro, dois homens se dizendo da Policia Federal interviram na retomada sem mandado judicial, sem identificação e sem usar máscara de proteção. Os homens interrogaram os integrantes da comunidade buscando informações, fotografando tudo e mexendo nos barracos. A comunidade está planejando a construção de uma escola indígena na frente da FLONA, já que como informamos anteriormente, receberam uma reintegração de posse no dia 2 de janeiro de 2021 que os obrigou a se retirarem da FLONA, que se sobrepõe ao seu território ancestral. As intimidações e incomodações recebidas pelos integrantes da retomada Konglui são diretamente ligadas com os interesses de Ricardo Salles que quer privatizar a área reivindicada pelos Xokleng como tradicional. Buscam amedrontar os indígenas, pressionando-os para que renunciem e abandonem seu território. Mas, como já destacaram, irão resistir!

Retomada Xokleng Konglui – construindo a escola. Fonte: arquivo.

À violência das forças repressivas dos Estados que respaldam e fomentam a expansão do capitalismo e a devastação das florestas se contrapõe a luta dos povos originários que defendem seus territórios ou recuperam os que lhes foram expropriados décadas ou séculos atrás. Se as iniciativas de recuperação e/ou defesa territorial são reprimidas com tanto empenho é porque desafiam os interesses dos capitalistas, das oligarquias e subvertem a ordem estabelecida historicamente na América Latina desde a chegada dos primeiros colonizadores.

Diante dos assassinatos que se multiplicam, da violência sofrida nos territórios em resistência, é preciso se juntar e se fortalecer e seguir lutando de todas as formas possíveis contra todas as formas de dominação.

Isac Tembé e Emília Milén vivem nos territórios em via de recuperação

Sua memória guiará os guerreiros que se levantam…

*Lof em mapudungun corresponde a corresponde a um território, a uma zona e a sua organização, que pode ser composta por uma ou mais comunidades mapuche.

**Lamien significa irmã/companheira. No mapudungun, quando uma mulher fala de outra irmã ou de um irmão, se refere a ele/ela como lamien, quando é um homem que fala de um irmão ele utilizará o conceito de peñi e para falar de uma irmã o de lamien.

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