O Beira Rio é do Povo Colorado!

Por Coluna Vermelha:

“Os estádios nos são importantes porque são lugares onde compartilhamos nossas emoções em comum, em um lugar em comum e em um limitado espaço de tempo. Entretanto, estádios também já foram lugares de tragédias, assassinatos e repressão. Eles representam e reproduzem desigualdades políticas e econômicas”. Christopher Gaffney

A elitização do futebol é uma tragédia! Somos coloradas e colorados do Clube do Povo. Povo que já foi muito mais o povo trabalhador do que o povo das elites econômicas. É dolorido ver essa realidade ser imposta pelo sistema capitalista. Vemos empreiteiras ganhando dinheiro público para construir estádios ou como no caso do Inter, reformá-lo. E tudo bem as reformas e a modernização, mas não a custo da expulsão dos torcedores e torcedoras mais pobres. Sabemos que o futebol é na sua origem europeia um esporte da elite. Veio para o outro lado do Atlântico e continuou sendo elitista, porém não demorou nada para se popularizar e se transformar em um fenômeno social, cercado de sentimentos fortes que nos atraem e mobilizam de tal forma que é raro ver alguém que não é em algum nível de sua vida um torcedor ou torcedora. É o caso do nosso amor pelo inter que vem desde 4 de abril de 1909. Um clube que nasceu para fazer o confronto com aqueles de origem aristocrática que não aceitavam estrangeiros e negros nos seus quadros. Nosso clube nasceu popular e foi se popularizando cada ano de sua existência. Essa origem nos orgulha, o amor de uma torcida capaz de erguer um gigante sobre as águas. Mas a realidade do nosso povo nunca foi fácil, dentro e fora da bancada.

As desigualdades sociais estão no futebol porque ele não é uma bolha separada da sociedade da qual faz parte. A torcida do inter historicamente luta para honrar sua história: a primeira mulher sócia de um clube de futebol brasileiro, Maria Von Ockel, o primeiro líder de torcida que levou a festa do carnaval de Porto Alegre para as arquibancadas, afinal, era o Rei-Momo da cidade, além de sindicalista e metalúrgico, Vicente Rao. Em todos os períodos de sua existência o inter tem histórias de luta e resistência vindos de sua torcida. Nas últimas décadas vemos o cenário mudar dentro do estádio, ingressos caríssimos, mensalidades fora da realidade do povo que construiu nosso estádio, mas a luta da nossa incansável torcida garantiu uma modalidade paliativa de associação popular, com o valor de R$10,00 por mês. Agora durante a pandemia nenhuma oferta para os torcedores e torcedoras para negociar o valor das mensalidades, o que demonstra que as atuais gestões não demonstram sensibilidade com quem tanto vem sofrendo com a economia de Guedes/Bolsonaro em frangalhos. Não temos dúvida que a elitização, além de racista, traz para o clube quem acha que ele é uma mercadoria e assim lidam com ele. E não estão preocupados em garantir a coletividade que um clube associativo sugere, mas querem é garantir o seu espaço na cadeira numerada. Não conhecem a história do clube e não honram a camisa vermelha que vestem.

Mas, torcedores e torcedoras, calma, ainda somos muitas e muitos resistindo ao futebol moderno e a elitização, resistência dura, mas que coloca algumas pedras na frente desse caminho, afinal, não é uma resistência apenas de palavras jogadas na internet. É uma luta árdua dentro do estádio nas bancadas, nas ruas e da disputa política interna do clube. Nós não temos dúvida da força do povo colorado, que a cada data comemorativa vemos, com as torcidas organizadas, movimentos de bancada e a barra do inter se movendo por solidariedade, organizam ações sociais em vários bairros de Porto Alegre e região metropolitana, além das alianças permanentes com Quilombos urbanos, arrecadando alimentos e nos colocando lado a lado na luta pelos territórios. Sendo um deles o Quilombo Lemos que fica em frente ao Beira-Rio. Trazemos aqui a lembrança do patriarca da Família Lemos, seu Jorge Lemos, outro grande colorado, figura ilustre no Beira Rio como o são o Sérgio Macaco, o Nêgo Beleza, a Vó Noêmia, entre outros. Nos movemos por essas histórias e buscando esse espírito de luta para na hora de cantar e apoiar o time dentro de campo, que possamos disparar toda a força e espírito campeão do nosso povo para dentro do corpo de cada jogador, para que ele, em um arrepio, nos receba e receba todos e todas as outras guerreiras da nossa história. Espírito campeão, de guerra, de entrega, de amor, de união, de respeito, de humildade e disciplina.

Uma questão que levantamos entre nós foi se dentro de campo, entre os jogadores essa elitização traz consequência na doação dos atletas por nossa camisa? Não temos respostas concretas e queremos refletir entre nós. O que tu achas? Não acrescentamos as jogadoras na análise porque compreendemos, e acompanhamos diariamente, que no futebol feminino a análise se faz de outra forma, que devemos trazer em outro momento. Por isso, na semana de aniversário do nosso Estádio, o Gigante da Beira Rio, a memória que evocamos é a de quem luta e já lutou por um Inter popular e por uma sociedade justa!

5 comentários em “O Beira Rio é do Povo Colorado!

  • 07/04/2021 em 10:08
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    Belo texto. DEVOLVAM O CLUBE DO POVO!
    Os vermes das direções só querem chutar o povão colorado pra fora do clube que ele construiu.
    VAMOS LUTAR ATÉ O ÚLTIMO DIA DAS NOSSAS VIDAS PRA IMPEDIR ESSE AVANÇO E REVERTERMOS ESSA SITUAÇÃO.

    E aproveito pra dizer FORA CLUBE EMPRESA que vem com força…..esses otários JAMAIS

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  • 07/04/2021 em 10:09
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    Belo texto rapaziada!!!
    Estamos junto. CLUBE DO POVO para O POVO

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  • 07/04/2021 em 10:19
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    Que baita texto! Saudades quando era a casa do povo, da Coréia e depois da Popular. A casa era do povo!

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  • 07/04/2021 em 11:14
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    Sensacional o texto!

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  • 07/04/2021 em 12:06
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    Devemos estar atentos a esses processos como torcida e como cidadania. Futebol é política e vice versa. Quem diz que não é assim tem interesses escusos.

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