Misturados: Vangri Kaingang

Era o auge do verão quando o produtor me mandou mensagem no Whatsapp. “Tchê, tem um trabalho interessante surgindo. A remuneração é justa, mas vai ter bastante coisa pra fazer, envolvendo pelo menos duas viagens pelo interior pra filmar e no mínimo cinco saídas pela região metropolitana. Te interessa?”. Respondi que sim e perguntei mais sobre o projeto. “O misturados foi contemplado pela Lei Aldir Blanc no Edital da Secretaria Estadual de Cultura do Rio Grande do Sul nº 09/2020. A ideia do projeto é documentar sete artistas de diferentes origens e linguagens: Patricia Para Yxapy, Vangri Kaingang, Richard Serraria, Bebeto Alves, Xadalu Tupã Jekupé, Leo Sosa e Cristal Rocha”.

O início do projeto se deu justamente pela parte mais complexa: gravar com as artistas indígenas do interior do estado. Além da distância, tínhamos também a pandemia como mais um fator complicador. Precisaríamos tomar todos os cuidados para não contaminar os indígenas. Entre tantas outras medidas de prevenção – como o uso de máscaras, alcool gel, e filmagens ao ar livre com distanciamento – também seria preciso pernoitar em hotéis e fazer os deslocamentos até as aldeias e de volta aos hotéis.

No entanto, o maior dos desafios era o tempo. A única agenda que conseguimos juntava as duas viagens – Ronda Alta e São Miguel das Missões – em apenas quatro dias. Saímos de Porto Alegre na manhã da quarta feira de cinzas, dia 17 de fevereiro, rumo ao norte do estado. A primeira entrevistada seria Vangri Kaingang, artista plástica, escritora, educadora, da aldeia Serrinha em Ronda Alta/RS.

A caminho da cidade, fomos adentrando a zona de influência do bioma soja. A devastação que hoje a mídia corporativa celebra como “super safra” se apresentava para nós como um cenário desolador: a riqueza do que deveria ser mata atlântica trocada por um só vegetal e vendida como commodity. Ao lado da estrada, nas colinas de Ronda Alta e cercando a terra indígena, a soja dominava a paisagem.

Os poucos focos de mata nativa estavam próximos da Serrinha, que fugia ao estereotipo que se constrói sobre as terras indígenas (com trilhas e casas tradicionais em meio a mata), lembrando mais um distrito ou bairro rural, com estradas de chão e casas de alvenaria. Ao andar pela comunidade, a resistência se fazia presente não só nas araucárias, mas também na cultura Kaingang.

Caminhando pela aldeia, cartazes com desenhos de Vangri e texto em kaigang e português estimulavam os indígenas a adotar as medidas de distanciamento social e prevenção ao Covid. Acompanhados pela artista, fomos a local que teve importante protagonismo no resgate e difusão da língua, dos grafismos e da cultura Kaingang como um todo: o Centro Cultural Kanhgág Jãre.

Depois de conversar com Andila, professora, mãe de Vangri e uma das idealizadoras do ponto de cultura, aprofundamos o mergulho na obra da artista. Vangri costuma trabalhar com a pintura e também a tecelagem. Os padrões geométricos presentes na sua obra possuem significados profundos e carregam a visão de mundo do povo Kaingang. As figuras refletem o modo de pensar o cosmos a partir dos opostos complementares Kamé e Kainru, e podem ser divididas em abertas e fechadas.

Vangri explicou que cada ser no universo pertence a uma das duas metades, e a pintura retrata esse pertencimento. Ela, por exemplo, pertence ao gênero Kamé, metade identificada pelo sol, o fogo, a força e a velocidade. A metade Kamé é representada por figuras abertas, já a metade Kainru – identificada pela lua, água, espiritualidade e reflexão – se representa com figuras fechadas. Assim, a pintura que uma pessoa carrega no corpo vai muito além da estética, traz informações que ajudam a harmonizar relações e buscar equilíbrio. Por exemplo, quando haviam festas e celebrações que juntavam pessoas de diferentes aldeias, as pessoas em busca de parceiros se guiavam pelas pinturas corporais – já que as uniões entre a mesma marca não são recomendadas, as pessoas Kamé buscavam Kainru e vice-versa.

Depois de filmar no ponto de cultura, nas margens da barragem Rio Passo Fundo e nas matas da região, finalizamos as filmagens na casa de Vangri. A artista e educadora convidou um grupo pequeno de alunos para receber as pinturas de suas marcas. Tendo feito o registro da pintura das crianças, também fomos pintados e vislumbramos mais um nível da sua complexidade, além de mostrar a marca as pinturas também representam seres. Um dos integrantes da equipe recebeu a pintura da rã, outro recebeu a pintura da cobra cruzeiro, cada um ouvindo a história relacionada ao animal.

Encerradas as filmagens, descansamos pela última noite em Ronda Alta. Na manhã do dia 19/02 pegamos o livro “Joty – o Tamanduá”, escrito e ilustrado por Vangri e Maurício Negro, com a missão de entregá-lo a Richard Serraria, e seguimos viagem em direção a São Miguel das Missões. A próxima entrevistada seria Patricia Para Yxapy, cineasta mbya guarani.

Texto: Bruno Pedrotti
Fotos: Billy Valdez

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